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Campanhas, mentiras e vídeos

A luta eleitoral não se faz apenas nas ruas, mas também no campo inclinado da comunicação social.

Um debate com todos numa campanha mediática que só favorece alguns. 
Um debate com todos numa campanha mediática que só favorece alguns. CréditosPedro Pina / Lusa

Vê-se a arruada da juventude CDU nas imagens, no off do jornalista, que acompanha a campanha de ecologistas e comunistas, diz que devem ter ido arregimentar todos os jovens que encontraram, minimizando as centenas que estavam presentes na iniciativa. No final da peça, o mesmo jornalista comenta as críticas de João Oliveira ao apelo de maioria absoluta do PS, dizendo que, com amigos da geringonça como a CDU, a geringonça não precisa de inimigos.

Na quinta-feira, dias antes das eleições, as peças sobre o PS e o PSD são generosas no tempo e nos planos para se verem as pessoas presentes nas iniciativas: filma-se de modo a que se veja a massa de gente a perder de vista. Depois daqueles a que a comunicação social escolheu dar, sempre, mais tempo, surgem as peças dos outros partidos.

No caso da SIC, o bloco seguinte de notícias mostra IL, PAN e Livre. A seguir ao intervalo, passam as notícias sobre o BE e a CDU: na peça sobre o BE faz-se uma reportagem extensa sobre a arruada desse partido, generosa nos planos, exibindo o número de pessoas. Quando chega a CDU, os planos escolhidos são apenas da frente do desfile, exibem o abraço de Jerónimo de Sousa a João Ferreira, um curto excerto do discurso e uma intervenção final do jornalista.

Apesar de toda a rua estar cheia até perder de vista, não há nenhum plano que mostre a dimensão da multidão. Talvez para não incomodar a ideia que tentaram passar, durante dias, de que a CDU tinha deixado de apostar em acções de massas, e para confirmar o que escreve a jornalista do Expresso: «a notória redução da capacidade de mobilização [da CDU]».

A maior parte da cobertura noticiosa da campanha da CDU não foi sobre as suas propostas ou declarações, mas sobre putativos candidatos a secretário-geral do PCP. Nas páginas do Expresso, comparando-se prestações nesse noticiado concurso, entre João Oliveira e João Ferreira, chega-se a escrever certa altura que não deu para perceber como era João Ferreira, porque ele esteve poucos dias a fazer campanha. Provando que, nas páginas do jornal de Pinto Balsemão, pode-se ser preso por ter cão e por não ter: João Ferreira passou do único quadro do PCP que fazia campanhas sucessivas, para não se saber como ele participa nas campanhas eleitorais.

Quando se analisar o aparecimento e crescimento de forças neoliberais e de extrema-direita, como a Iniciativa Liberal (IL) e o Chega, será importante abordar o papel determinante que a comunicação social teve nesse processo. Desde a dinâmica sensacionalista, que levou a dar um espaço gigantesco a um partido com um discurso xenófobo, racista e fascizante, à criação de um caldo ideológico hegemónico neoliberal.

A história ideológica dos jornalistas está inscrita até nos títulos da forma como se organiza a informação jornalística. Antigamente, havia uma secção de «trabalho» nos jornais, rapidamente tornou-se na de «economia», posteriormente passou a chamar-se «negócios».

Actualmente, em antena, sucedem-se comentadores de sentido único que nos falam sobre os «criadores da riqueza nacional» quando se referem ao patronato.

Parece, nesse mundo hertziano, que os patrões pagam salários por caridade e que não é o trabalho que cria riqueza: Deus sonha, os patrões criam o universo, a partir do cotão que retiram do umbigo, e, por bondade, dão umas esmolas aos trabalhadores. Dão pouco, porque sabem que eles têm de ser pobrezinhos para serem honrados.

A IL pode ter, até agora, apenas um deputado no Parlamento, mas há muito que tem já maioria absoluta nas direcções dos órgãos de comunicação nacional.

Em matéria de pluralidade, há poucas novidades nos órgãos de comunicação social em Portugal: a esmagadora maioria deles é propriedade de grupos capitalistas que usam esses meios para melhor influenciarem a sociedade. Também não é novidade o facto de a esmagadora maioria das direcções editoriais serem escolhidas para melhor repetirem esses mantras.

Aquilo que é menos analisado em Portugal é a espécie de «consenso jornalístico» que se formou para tentar apagar, na realidade social, as forças anti-capitalistas da CDU, e estabelecer como pensamento único a aceitação das teses neoliberais sobre a economia. Como se a escolha económica não fosse política, e que essa decisão não decorresse da existência de um conflito de interesses entre várias classes sociais. Para a ideologia dominante, só existe uma economia: aquela que privilegia o capital em relação ao trabalho, e toda a opinião em contrário é um resquício de ideologias anquilosadas.

Não é novidade que os directores de informação, de redacções em que muitos jornalistas ganham próximo do salário mínimo, queiram que os seus ordenados, muito mais elevados, paguem poucos impostos. O que é novo é terem – à força da repetição infinita das fábulas liberais – ganho a hegemonia de grande parte dos jornalistas para essas teses.

Para essa aceitação acrítica das teses neoliberais muito contribui a precarização do trabalho que vive a quase totalidade dos jovens trabalhadores, em que os jornalistas se inserem. As sucessivas «reformas estruturais» pioraram os serviços públicos. Um jovem trabalhador precário vê o Estado Social por um canudo: não tem contrato sem termo, não tem direito sequer a subsídio de desemprego, não precisa normalmente de ir ao Serviço Nacional de Saúde, a idade da reforma está longe, e o único contacto que teve com os serviços públicos é a Escola Pública que sucessivos governos se esforçaram por degradar. Não é de admirar que haja algum campo para as teses contra o Estado Social para quem tem pouco acesso a ele.

O combate ao neoliberalismo tem de ser feito não só do ponto de vista eleitoral, mas do ponto de vista de uma luta pela hegemonia das ideias, exigindo a criação de instrumentos próprios para intervir também em termos de canais alternativos de comunicação social.

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