Milhares de famílias com as casas afectadas, estradas danificadas, um rasto de destruição assola o país. Ao Governo exigia-se que governasse, porém, o Executivo tem marcado a sua política pela inércia e por uma resposta meramente reactiva no limite. A verdade é que os incêndios do Verão, podiam ter levado à criação de um fundo para catástrofes, mas tal não se sucedeu.
Como não podia deixar de ser, a comunicação do Governo tem sido feita por partes. Ontem, quinta-feira, Luís Montenegro disse que o Executivo está a fazer uma avaliação global dos impactos, que admite medidas públicas de apoio, mas anunciou ser ainda «muito cedo» para tal. Como rosto de um Governo totalmente ao serviço dos interesses privados, o primeiro-ministro optou por salientar o papel das seguradoras entre os meios disponíveis para minorar os efeitos da depressão Kristin.
Além de remeter para os privados aquilo que deveria ser a sua responsabilidade, a inacção do Governo parece ter um outro objectivo. Se da parte do primeiro-ministro não houve garantias de medidas públicas, da parte de António Leitão Amaro, ministro da Presidência, admitiu o recurso ao Fundo de Solidariedade da União Europeia, um mecanismo financeiro criado para apoiar Estados-Membros da União Europeia em situações de catástrofes naturais graves.
Com isto, o Governo parece ter dois objetivos: não comprometer as contas públicas, revelando qual é a sua prioridade, e deixar para o sector financeiro toda a acção, de forma a que este lucre com o desespero das pessoas.
É neste sentido que os principais bancos portugueses Caixa Geral de Depósitos (CGD) e Novo Banco anunciaram linhas de crédito bonificado no total de 400 milhões de euros para as famílias e empresas afetadas pela tempestade Kristin. Para os particulares, a CGD abriu uma linha de financiamento de 300 milhões de euros com uma taxa de juro de 2.15% (taxa mista a 1 ano). Já o Novo Banco abriu uma linha de 100 milhões de euros, sendo que a linha de crédito para Famílias será bonificado, ou seja, terá uma taxa de juro correspondendo a 65% da taxa de referência do Banco Central Europeu.
No caso de ambos os bancos, apesar do spread a 0% e isenção de comissões, com o desastre, os bancos estão a procurar atrair novos clientes e a gerar um fluxo futuro de juros. Importa relembrar que em 2025 os cinco maiores bancos a operar em Portugal lucraram mais de 13 a 14 milhões de euros por dia. Só a CGD alcançou um lucro recorde de 1,4 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, mais 2% do que no período homólogo.
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