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Governantes europeus discutem proibir a entrada de russos na Europa

Alguns governos da União Europeia (UE) argumentam que viajar para a Europa é «um privilégio, não um direito humano» e que é portanto legal limitar a presença de russos na UE, como o regime ucraniano exige.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante a visita desta a Kiev, a 8 de Abril de 2022. 
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante a visita desta a Kiev, a 8 de Abril de 2022. Créditos / EPA / Ukranian Presidential Press Service

Numa entrevista ao The Washington Post, o presidente ucraniano Volodymir Zelensky disse esta semana que a «sanção mais importante» é «fechar as fronteiras aos russos, porque eles estão a tirar terras a outros». Na sua opinião, os russos deveriam «viver no seu próprio mundo, até mudarem a sua mentalidade».

Alguns críticos argumentaram que a proibição de todos os russos teria um impacto injusto sobre aqueles que deixaram o seu país porque discordam do governo do Presidente Vladimir Putin e da sua decisão de atacar a Ucrânia.

Zelensky disse que tais distinções não importam: «Seja qual for o tipo de russo... faça-os ir para a Rússia».

«Eles compreenderão então», afirmou. «Dirão: esta [guerra] não tem nada a ver connosco. A população inteira não pode ser responsabilizada, pois não? Pode, sim. A população escolheu este governo e não o está a combater, não está a discutir com ele, não está a gritar com ele».

«Não querem este isolamento» acrescentou Zelensky na entrevista, falando como se estivesse a dirigir-se directamente aos russos. «Se não mudarem que vivam lá. Esta é a única forma de influenciar Putin".

A onda de xenofobia nos governos da UE

Num tweet, a primeira-ministra estónia Kaja Kallas – país que discrimina activamente cerca de 30% da sua população, maioritariamente de origem russa, - expressou o seu apoio ao apelo do presidente ucraniano, dizendo que viajar para a Europa é «um privilégio, não um direito humano»: «Está na hora de parar o turismo russo. Parem de emitir vistos turísticos aos russos», disse.

O governo estónio anunciou que deixará de emitir vistos para turistas que chegam da Rússia à Estónia ou em trânsito. «Vimos que o número de cidadãos russos que chegam à Estónia ou passam pela Estónia aumentou maciçamente.... A possibilidade de cidadãos russos visitarem a Estónia ou, através da Estónia, a Europa em massa não está de acordo com o objectivo das sanções que impusemos», disse o ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Urmas Reinsalu, numa conferência de imprensa. Também apelou a outros governos para seguirem o exemplo da Estónia.

A primeira-ministra finlandesa, a social-democrata Sanna Marin, expressou o mesmo tipo de opinião: «É injusto que enquanto a Rússia travar uma guerra agressiva e brutal de agressão na Europa, os russos possam levar uma vida normal, viajar na Europa e ir passear», defendeu na emissora pública finlandesa YLE.

A UE proibiu os voos da Rússia após a invasão da Ucrânia em Fevereiro. Além disso, a última ligação ferroviária de passageiros, entre São Petersburgo e Helsínquia, foi suspensa em Março, mas os russos ainda podem entrar na Finlândia por estrada.

Na semana passada, a Finlândia apresentou um plano para limitar os vistos turísticos para os russos, mas questionou se tem o direito de impor uma proibição total. Em contrapartida, outros países da zona livre de passaportes Schengen que partilham uma fronteira com a Rússia, como a Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia, já reforçaram drasticamente as regras em matéria de vistos.

Contudo, todos concordam com a necessidade de a UE tomar uma decisão a este respeito, uma vez que um visto emitido por um membro da zona não pode ser recusado pelos outros, o que significa que os russos comuns que não estão sujeitos a sanções individuais podem utilizar os seus países vizinhos como zonas de trânsito para viagens sem fronteiras na região.

Na quarta-feira, o ministro do turismo da Bulgária, Ilin Dimitrov, disse que mais de 50 mil russos, na sua maioria proprietários de propriedades e apartamentos, que passaram frequentemente por Istambul, tinham visitado o país até ao final de Junho. «Os obstáculos e os preços dos bilhetes não os impedem».

Dá para perseguir os russos na UE?

Os ministros dos negócios estrangeiros da UE tencionam discutir a questão quando se reunirem na República Checa no final de Agosto. «Em futuras reuniões do Conselho Europeu, esta questão será levantada com mais força», disse Marin da Finlândia. «A minha opinião pessoal é que devemos limitar o turismo russo».

Outros países, no entanto, não têm tanta certeza. Alguns governos que tradicionalmente têm tido relações estreitas com a Rússia, como a Hungria, opor-se-iam fortemente a uma proibição, enquanto os estados-membros com uma grande comunidade russa, como a Alemanha, argumentam que a medida dividiria famílias e prejudicaria os russos que têm sido vozes na sua oposição à guerra na Ucrânia e que já deixaram o país.

O Chanceler Olaf Scholz também expressou dúvidas sobre a proibição turística, a menos que seja mais matizada: «Esta é a guerra de Putin e é por isso que acho esta ideia difícil de digerir», disse ele.

A Comissão Europeia também questionou a viabilidade de uma proibição geral de viajar, indicando que certas categorias de viajantes, tais como membros da família, jornalistas e dissidentes, deveriam receber vistos em todas as circunstâncias.

Apelos da Ucrânia e de alguns estados membros para que a UE imponha a proibição geral provocaram uma resposta irada do Kremlin. De facto, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse na terça-feira que «qualquer tentativa de isolar a Rússia ou os russos é um processo condenado ao fracasso» e que a chamada mostra «pensamento irracional» que está «fora de toda a lógica».

A jornalista russa trabalha actualmente em Espanha.  CréditosDR / DR

Jornalista russa que se opõe à guerra apelida a medida de xenófoba e de extrema-direita

A jornalista russa Inna Afinogenova, conhecida pelas suas posições de esquerda, que se despediu de vice-directora do site RT em língua espanhola e saiu da Rússia por se opor à invasão russa da Ucrânia, não poupou palavras sobre a medida xenófoba proposta pelo presidente Zelensky. Na sua conta no Telegram, apelidou de ultra-direitista ao presidente da Ucrânia.

«Este mesmo cavalheiro tem apelado aos russos há meses para irem para as ruas protestar, para falarem contra a guerra, etc... Alguns fizeram-no e foram multados ou presos. Alguns ainda se encontram na prisão. Agora, a coisa a fazer, segundo ele, é enviá-los para viverem "no seu próprio mundo" porque o merecem. Há anos que dizem que a Rússia vive num regime ditatorial, e agora é todo o povo que é culpado por "elegê-lo" e "não discutir nada com ele".

Muitas pessoas tiveram de interromper as suas vidas, de deixar o país porque discordam. Mas têm de ser forçados a regressar, a um lugar onde alguns deles já têm processos criminais abertos por se pronunciarem contra a guerra. Porque «eles merecem-no». Merecem-no devido à sua nacionalidade, são responsáveis por terem nascido onde nasceram. Há um nome para isso.

Durante quanto tempo é que este tipo de discurso de ódio vai ser aceite nos principais meios de comunicação social sem o mínimo questionamento? Consegue-se imaginar pôr estas palavras na boca de um líder árabe e tê-lo a expressar-se desta forma no Washington Post sobre o povo de Israel? Pode-se imaginar este tipo de discurso sobre todas as pessoas nascidas nos EUA sempre que os EUA começam uma guerra (ou seja, praticamente a cada dois ou três anos)? (...)

Como toda a xenofobia, a xenofobia de Zelenski não podia ser mais estúpida e cheia de profunda ignorância. Para a grande maioria dos russos não vai ser um problema "ficar no seu mundo" (a maioria deles nem sequer tem passaporte para o evitar). (…) Este discurso de ódio (..) acaba por provar que Vladimir Putin tem razão: "Eles odeiam-nos. Temos de os manter afastados. Temos de nos defender”.

Zelenski pode não ser um nazi (...). Mas grande parte do seu discurso alinha-se sem hesitações com o discurso ultra-nacionalista que tem sido instigado, legitimado e encorajado no país nos últimos anos. Tal como tem sido feito na Rússia, aliás. Este é o caminho que estão a seguir em ambos os países e os seus líderes continuam a adicionar combustível ao fogo. Nada justifica este tipo de discurso contra a população em geral. Não se iluda: é xenófobo e um utra-direitista. Tanto quanto eles são.», escreveu a jornalista russa.

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