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O centro da Iniciativa Liberal

O que pode levar o partido de Cotrim de Figueiredo, um dos liberais mais radicais da Europa, a querer sentar-se no centro do hemiciclo da Assembleia da República?

CréditosTiago Petinga / EPA

A Iniciativa Liberal (IL) anunciou esta quarta-feira que pediu para mudar de lugar no hemiciclo do Parlamento, vontade que já teria manifestado em 2019. Segundo disse à Lusa fonte oficial do partido, o objectivo é ficar «mais distante dos extremos». Argumentada desta forma, e no momento em que nos encontramos, a pretensão parece ser mais uma acha para a fogueira da vitimização do Chega a que muitos têm dado mecha. 

Por outro lado, e olhando para o programa da IL, a vontade de estar entre PS e PSD só pode ser entendida à luz de uma estratégia de comunicação com o objectivo de continuar a iludir algum eleitorado. 

O partido de Cotrim de Figueiredo não quer ser visto como extremista, embora a radicalidade das medidas que propõe e a visão surreal que apresenta para o País o coloquem como um dos mais retrógrados.

Os liberais têm feito a sua cavalgada na ideia da «opressão fiscal», seduzindo com ela o eleitorado jovem, quando a proposta passa tão somente por abandonar um sistema progressivo (imperioso para haver justiça fiscal) e aplicar uma taxa única, que mais não faria do que aliviar os que se encontram nos mais altos escalões de IRS, que são afinal o público-alvo do seu programa, aumentando as desigualdades que grassam no nosso país.  

Em nome da chamada «liberdade de escolha», a IL propõe a descapitalização de serviços públicos, como a saúde e a educação, de forma a passá-los para a alçada do negócio privado, pondo um ponto final em direitos, a começar pela democratização no acesso.

Na média dos países da União Europeia (UE), Portugal é dos que menos gasta em saúde e educação. Entretanto, os liberais gostam de comparar a realidade portuguesa com a de outros países da Europa, mas escolhendo criteriosamente os indicadores, de forma a colar ideias de progresso e crescimento às propostas regressivas que apresentam. 

Douram a política liberal da Irlanda, onde afinal existem mais funcionários públicos do que no nosso país (cujo número está também abaixo da média da UE), elogiam «as políticas» da Dinamarca, mas omitem que o país escandinavo, tendo a mais alta carga fiscal na União Europeia, segundo análise do Eurostat, surge em terceiro lugar no ranking da despesa social e também da habitação pública, sendo ainda um dos que mais gasta em despesa com a saúde. 

A IL, que não quer ser vista como «radical», pretende acabar com o carácter solidário da Segurança Social e submetê-lo à especulação bolsista, ao mesmo tempo que propõe substituir o salário mínimo nacional por outro, a depender dos municípios (embora não defenda a regionalização) e abaixo do valor actual, mas com o qual, segundo os liberais, dava para viver.

Posto isto, fica claro que a intenção de se sentar ao centro do hemiciclo é só mais uma estratégia de propaganda da IL. 

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