Pela calada, o Departamento da Justiça dos Estados Unidos da América alterou a acusação contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. O primeiro documento referia 32 vezes o lendário Cartel de los Soles, supostamente responsável por uma fatia significativa do narcotráfico a chegar aos EUA e, segundo Marco Rubio, secretário de Estado, ao nível do Tren de Aragua e do Cartel de Sinaloa. Agora, a referência é feita, de passagem, apenas duas vezes.
Na verdade, este império do mal não passa de um jargão inventado pela comunicação social venezuelana na década de 1990 (quando Maduro ainda era um sindicalista e condutor de autocarros em Caracas) para se referir a funcionários públicos corrompidos pelo dinheiro do tráfico de drogas. A acusação contra o presidente venezuelano foca-se agora numa suposta «conspiração» para traficar drogas, uma conspiração que o Departamento da Justiça designa de Cartel de los Soles: sem organização concreta, leia-se.
Nem a Drug Enforcement Administration (a famosa DEA, a agência responsável pela "guerra" às drogas nos EUA) nem os relatórios mundiais sobre drogas das Nações Unidas alguma vez mencionaram este Cartel fantasma. Ainda assim, alguns partidos em Portugal, detentores de um conhecimento que ultrapassa o destas organizações dedicadas ao combate ao tráfico de droga, determinaram que o Cartel de los Soles devia ser reconhecido, em terras lusas, como uma organização terrorista.
Por proposta do Chega, a Assembleia da República aprovou (com os votos favoráveis do CH, Iniciativa Liberal e PAN e a abstenção do PSD e CDS-PP) a classificação formal do Cartel de los Soles (que não existe) como «organização terrorista internacional, reconhecendo a sua actuação como ameaça directa à segurança do Estado Português, à estabilidade da União Europeia e à ordem internacional, e promovendo a inscrição desta designação nos mecanismos europeus e internacionais de combate ao terrorismo». PS, PCP, BE e Livre votaram contra.
Muito preocupado com «subsídio-dependentes» e RSIs, o Chega (com o apoio da IL e do PAN) aproveitou a oportunidade para recomendar a adopção de indispensáveis «medidas legislativas, diplomáticas e operacionais necessárias para reforçar os instrumentos de prevenção, cooperação e repressão das actividades deste Cartel» que afinal não passa de gíria venezuelana. O dinheiro público, segundo a extrema-direita, é mais bem gasto em caças a gambozinos.
Muito embora o Parlamento português tenha aprovado este documento do Chega, a sua aplicação não é tão simples. É que, tal como o Cartel de los Soles, também não existe em Portugal uma lista própria de organizações terroristas — ou seja, a extrema-direita portuguesa queria incluir um cartel inventado numa lista inexistente. Nem Chega, nem Iniciativa Liberal, deixam que a verdade estrague uma boa história.
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