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Ucrânia: um jornalismo impávido e sereno

Aqui e além, numa ou outra reportagem, entrevêem-se, por breves instantes, diferentes visões sobre a guerra. O unanimismo, mandatório nas redacções, parece já ter normalizado o silenciamento.

Centenas de pessoas depositaram flores no túmulo do soldado desconhecido em Kiev, no Dia da Vitória sobre o nazifascismo, 9 de Maio de 2022. O dia assinala a rendição incondicional do nazismo alemão ao exército soviético, em 1945, no fim da II.ª Guerra Mundial.
Centenas de pessoas depositaram flores no túmulo do soldado desconhecido em Kiev, no Dia da Vitória sobre o nazifascismo, 9 de Maio de 2022. O dia assinala a rendição incondicional do nazismo alemão ao exército soviético, em 1945, no fim da II.ª Guerra Mundial.CréditosSergey Dolzhenko / EPA/Agência Lusa

Cerca de 2500 soldados ucranianos e paramilitares do batalhão Azov renderam-se na última semana em Azovstal, pondo fim a um cerco de várias semanas, levado a cabo pelas forças militares russas, em Mariupol. Os prisioneiros foram transportados para territórios controlados no Donbass, marcando definitivamente a conquista da cidade.

«Tendo saído escoltados para território inimigo depois de entregarem as armas», não há outra forma de descrever o ocorrido do que «rendição», defendeu Daniel Oliveira, numa coluna de opinião publicada na sexta-feira, no Expresso.

No entanto, a comunicação social ocidental, incluindo a portuguesa, não tardou em alinhar as suas penas com a posição pública emitida pelos gabinetes de propaganda do Governo ucraniano, procurando não dar uma conotação negativa ao acontecimento.

Após semanas de resistência, encobriu-se a derrota, recorrendo a «eufemismos»: «fim da resistência»; «terminada a missão de defesa»; «soldados ucranianos retirados» ou «enviados para territórios sob controlo de Moscovo» e até «operação coordenada pelas forças russas e ucranianas».

A ausência de sentido crítico (quando não a consciente intenção de partilhar propaganda) em boa parte das redacções portuguesas e ocidentais, assim como de um número demasiado elevado de jornalistas, não pode deixar de alarmar todos os que reconhecem na comunicação social um dos mais fundamentais pilares da vida democrática de qualquer país.

A rendição de Azovstal ocorreu apenas alguns dias depois do assassinato da jornalista palestiniana Shireen Abu Akleh, às mãos das forças militares de ocupação israelitas. Esta situação expôs, mais uma vez, a cumplicidade dos jornais lusos, que se apressaram a divulgar, em letras garrafais, todas as mentiras divulgadas pelo Governo israelita, que insinuavam intensos tiroteios entre as suas forças militares e palestinianos que nunca existiram.

A mediática indiferença

É um fenómeno parecido com a suspensão da descrença. As centenas de jornalistas que acompanham a guerra na Ucrânia (o único lado ao qual temos acesso é o ucraniano, desde que foi imposta a censura dos órgãos de comunicação russos no espaço europeu), parecem ter perdido o sentido crítico e a isenção, condições necessárias a acederem à condição de jornalistas.

Só isso explica a relativização, por exemplo, do caso de Denys Kireev, escolhido pela Ucrânia para participar nas negociações de um cessar-fogo e posteriormente assassinado pelos serviços de segurança ucranianos, sem julgamento.

A ausência de provas não impediu o nosso jornalismo de aceitar, acriticamente, as informações divulgadas pela Ucrânia (de que se tratava de um traidor), e muito menos nos fez questionar o assassinato sumário.

O mesmo se aplica ao caso dos irmãos Kononovich, dirigentes da Juventude Comunista da Ucrânia e opositores políticos de Zelensky (especialmente activos na luta contra a privatização dos campos agrícolas ucranianos, vendidos a multinacionais estrangeiras).

Sequestrados pelos serviços de segurança nos primeiros dias da guerra, motivando protestos por todo o mundo, nenhum órgão de comunicação social referiu o caso, ignorando a detenção de opositores políticos.

A censura é má, mas esta é a nossa censura

«Na Ucrânia, a caça aos espiões e terroristas levou a um controlo das populações», enquanto «os excessos cometidos por algumas das suas tropas [ucranianas] ou alguns legionários são ocultados», referia Edgar Morin, filósofo francês, num artigo publicado no Diário de Notícias, a 7 de Março de 2022.

A normalização da censura, pouco ou nada reportada pelos maiores órgãos de comunicação social, e da perseguição e repressão política, que tem vindo a escalar na Ucrânia, com a proibição de partidos políticos com assento em quase 50% da assembleia, representa mais um passo para o descrédito do papel do jornalismo, em Portugal e no mundo.

E isso exige uma voz crítica. Uma voz que não se limite a repetir as narrativas dos comunicados, que seja capaz de avaliar essa informação, que procure confrontá-la com outras fontes, com outras perspectivas. Muitos limitaram-se a repetir a agenda propagandística (e contra-propagandística) da Ucrânia, acreditando em todo o género de cenários, muitos deles a roçar o absurdo, tais como o do fantasma de Kiev. Isto tudo, sem procurar quaisquer tipo de provas ou de confirmação dos factos: uma «grave falta profissional» de acordo com o código deontológico.

O jornalismo não cumpriu a sua função, ignorou a repressão da opinião contrária, e seguiu em frente rumo ao descrédito, transfigurado em mero amplificador dos interesses políticos dos países «alinhados».


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