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Sondagens, para que vos quero?

A última sondagem da Intercampus, a 4 dias das eleições, falhou o resultado de Seguro por 18.7%. A da Católica por mais de 9%. A tracking poll da CNN sobrestimou Cotrim em 6.3%. Quais são as desculpas agora?

Ano após ano, eleição após eleição, as sondagens mostram-se totalmente incapazes de acompanhar tendências ou identificar eleitorados: a sua razão de existência. Ainda assim, os maus resultados que as várias empresas do ramo apresentam sistematicamente são inversamente proporcionais ao histerismo com que os números (muitas vezes discrepantes entre si) são recebidos e amplificados pela comunicação social, seja a escrita ou televisionada.

A cobertura do período eleitoral da primeira volta das eleições presidenciais de 2026 resumiu-se, nas televisões, a debates intermináveis (entre comentadores) em torno de uma tracking poll de 200 novas entrevistas diárias, com uns pozinhos perlimpimpim de outras sondagens, com resultados absurdamente díspares, só para apimentar a coisa. A campanha em si, as propostas, os projectos políticos, fora da rua, mal existiu.

tracking poll da CNN foi a profecia autorrealizável desta eleição. A 16 de Janeiro, no último dia, Seguro liderava com 25.1% (menos 6.1% do que o resultado que alcançou), seguido de Ventura, com 23%, e Cotrim de Figueiredo, com 22.3% (mais 6.3% do que conseguiu), isto num inquérito com uma margem de erro de 2.89%. O exercício conseguiu capturar as tendências de crescimento de Seguro e Cotrim, as quedas de Marques Mendes e Gouveia e Melo, a estabilidade de Ventura, mas sem o foco da atenção mediática (e dos principais candidatos) exclusivo neste processo (que envolvia, no início, não mais de 600 entrevistas), os resultados teriam sido certamente outros.

Crónica de um acto falho

A última semana foi capturada por uma hipotética segunda volta entre Cotrim e Ventura: uma possibilidade que, como mostram os resultados, nunca esteve em cima da mesa. Muitos eleitores de esquerda correram para segurar a candidatura de António José Seguro (uma tendência que só parcialmente é reflectida na tracking poll) que, ao fim e ao cabo, teve quase o dobro dos votos de Cotrim de Figueiredo: a sua participação na segunda volta nunca esteve em causa.

As restantes sondagens não se comportaram melhor. A Intercampus, para a NOW (14 de Janeiro), com uma margem de erro de 3.5%, consegue falhar o resultado de António José Seguro em 18.7%, o de Ventura em 4.6%, o de Marques Mendes em 3.86%. O centro de sondagens da Universidade Católica esteve apenas ligeiramente melhor (13 de Janeiro): consegue identificar o eleitorado de Ventura (24%, Ventura alcança 23,5%), mas substima também Seguro em 9%, pondo-o em competição directa com Cotrim (com 19%).

No dia 16, o Público divulgou um «modelo estatístico que executa dez mil simulações da primeira volta com todas as sondagens publicadas até esta quarta-feira e corrige o erro histórico calibrado com dados portugueses desde 2011». Segundo este modelo, a probabilidade de Seguro alcançar os 31% (como foi o caso) era de apenas 0,35 vezes em 100; de Cotrim se ficar pelos 16% era de 6,86 em 100; Marques Mendes alcançar apenas 11% dos votos de 4,53 em 100. Com a excepção, mais uma vez, de André Ventura, a mediana acabou por falhar todos os resultados.

Mais uma voltinha, mais uma viagem. Como as sondagens ajudaram a manipular os resultados eleitorais dos últimos 5 anos

Uma das justificações mais frequentes para as sucessivas discrepâncias entre os resultados das sondagens e estudos de opinião e os resultados eleitorias é a de que se tratam de retratos do momento. Ou seja, que representam apenas a vontade dos eleitores num determinado período de tempo, uma vontade que se pode alterar de um momento para o outro com fenómenos como o voto útil ou escândalos.

Esta é a principal desculpa para a enorme derrota das sondagens nas autárquicas de 2021 em Lisboa. Ao longo dos meses que antecederam este acto eleitoral (a 26 de Setembro de 2021), a única dúvida para a comunicação social era se Fernando Medina ia alcançar, ou não, uma maioria absoluta. No início do período legal de campanha eleitoral, a Aximagem antecipava uma vitória esmagadora do socialista, com 51% dos votos – acabou com 33.3%, abaixo dos 34.2% alcançados pelo PSD/CDS-PP de Moedas.

As culpas foram atribuídas ao impacto inesperado do caso de Margarida Martins, à altura presidente da Junta de Freguesia de Arroios do PS, acusada de peculato na semana anterior à eleição e que provocou uma fuga de eleitorado do Partido Socialista (corroborada pela vitória recente do PS, em 2025, na freguesia de Arroios, contrariando a continuada perda de votos registada pela coligação de Alexandra Leitão). Mas não explica tudo.

Ao longo de semanas, o tratamento da comunicação social dos resultados das sondagens ajudou, e muito, a desmobilizar o eleitorado do PS: se Medina tinha «24 pontos de vantagem sobre Moedas» (título do DN), se a «sondagem dá maioria absoluta a Medina na corrida à Câmara de Lisboa» (título do Expresso), para quê ir às urnas confirmar o facto?

É uma tempestade perfeita. O efeito perverso do clickbait, da competição pelos cliques e pelo share televisivo, leva a comunicação social a adoptar os resultados das sondagens acriticamente, não os tratando com o devido cuidado. Pelo contrário, toda e qualquer sondagem, mesmo quando divulgadas no mesmo dia e com resultados diferentes entre si, são declaradas como facto por jornalistas, locutores e comentadores. É o consentimento fabricado. 

Outro exemplo. A uma semana das eleições legislativas de 2022, o Diário de Notícias recorria a uma sondagem da Aximage para afirmar que Rui Rio tinha «vantagem sobre Costa a uma semana das eleições» – dias depois, o PS conquistava uma das maiores maiorias absolutas da nossa história democrática (41.3%, mais 7.5% do que previa a sondagem). Afinal, o empate técnico pariu um rato.

Também nas legislativas de 2024 e 2025, as sondagens apresentaram resultados desfasados da realidade. A tracking poll da CNN, por exemplo, subvalorizou o resultado do PS (por 4%) e do Chega (por 5%) em 2024. A Pitagórica, citada pelo JN, prometia um empate técnico entre AD e PS a uma semana das eleições legislativas de 2025. Resultado? Ficam a 8.38 pontos de diferença.

A quatro dias das eleições autárquicas de 2025, estava ainda «tudo em aberto na corrida à Câmara de Lisboa», anunciava a RTP. A diferença de um ponto, prevista pela Católica, entre PS/BE/L/PAN e PSD/CDS-PP e IL acabou por ser de 7.74%. A Pitagórica cometeu o mesmo erro, ainda que suposesse existir uma distância maior (2.6%) entre ambos.

«Uma sondagem, depois de torturada, confessa sempre»

Há pouco mais de dois anos, a 13 de Janeiro de 2024, o candidato presidencial apoiado pelo PCP e pelo Partido Ecologista "Os Verdes", António Filipe, já alertava para a perversidade do impacto das sondagens na comunicação social e a sua difusão enquanto estratégia de provocar o medo: «mais do que apresentar estudos de previsão de resultados, o que se pretende com a publicitação de sondagens é a fabricação de resultados, procurando fazer com que muitos eleitores decidam o seu sentido de voto não em função das suas experiências de vida ou das suas convicções, mas em função de supostos resultados ditados por sondagens».

«Uma sondagem, depois de torturada, confessa sempre». E o objectivo destes «torturadores» não podia ser mais evidente: «usar os supostos resultados não como elemento informativo, que não é, mas como um instrumento de pressão sobre os eleitores para que decidam o seu voto não em função da realidade, mas em função de um cenário manipulado».

«Os exemplos que nos dão as últimas eleições realizadas em Portugal são muito claros», denunciava então António Filipe, muito antes da sua candidatura presidencial. E todas as eleições realizadas desde estas afirmações demonstram-no.

Não será já tempo de impedir que estes estudos de opinião estrangulem as nossas campanhas eleitorais? São questões demasiado importantes para deixar à mercê de sondagens com uma média de 750 inquéritos (ou menos) e uma taxa de rejeição de resposta brutal. Como se vê, é demasiado barato (e fácil) usar estes instrumentos para manipular e pressionar eleitores, sabotando todo o nosso sistema democrático.

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