|«fake news»

As mentiras andam mais depressa que os mísseis

A guerra da propaganda e mentira dá-se nas redes sociais, o efeito das aldrabices é amplificado pelas televisões e muitos órgãos de comunicação social que não verificam factos e não cruzam informações.

O prédio em Kiev que afinal não foi atingido por nenhum míssil russo.
O prédio em Kiev que afinal não foi atingido por nenhum míssil russo.CréditosDR / DR

Na semana passada, o exército ucraniano partilhou um vídeo no Instagram e Facebook que, segundo afirmou, mostrava drones de fabricação turca Bayraktar TB2 a destruir uma coluna militar russa nos campos de batalha da Ucrânia. De facto, as imagens são verdadeiras, mas reportam-se a uma acção desse tipo de drones, há dois anos, na província síria de Idlib, contra um comboio do exército de Damasco.

A empresa Meta comprometeu-se a investigar o vídeo depois de o site Middle East Eye (MEE) ter pedido uma reacção à proprietária do Facebook e do Instagram. O vídeo foi seguidamente retirado pela conta ucraniana. Não sem antes ser passado como verdadeiro por muitas televisões do mundo, entre as quais todas as estações de televisão portuguesas, que raramente verificam as informações ou põem em dúvida notícias vindas de fontes ucranianas.

Durante as semanas da invasão russa, multiplicaram-se os falsos casos: os 13 heróis ucranianos que mandaram «foder» os russos e morreram a defender a ilha Zmiinyi, divulgados pelo presidente ucraniano, sendo que dias depois se descobre que estão vivos e de boa saúde; o senhor idoso atropelado em Kiev por um veículo blindado russo que, afinal, era ucraniano, dado que os russos estavam a centenas de quilómetros de distância.

Dezenas de vídeos que se tornaram virais eram afinal imagens da Líbia, Líbano e Palestina, falsamente identificados como estando a passar-se durante a invasão da Ucrânia.

Imagens antigas da activista palestiniana Ahed Tamimi foram colocadas online sob a falsa alegação de que ela era uma rapariga ucraniana a enfrentar um soldado russo e foram partilhadas milhões de vezes.

O Ministério da Defesa da Ucrânia partilhou imagens que, segundo afirmou, mostravam um jacto a abater um avião de guerra russo – mas o vídeo era na realidade de um jogo de vídeo.

«Como é quase sempre o caso em tempos de guerra, o ambiente de informação online torna-se incrivelmente rapidamente poluído», disse Layla Mashkoor, editora associada no laboratório de investigação forense digital do Atlantic Council, ao site MEE.

«Vídeos antigos e reciclados começam a circular online, por vezes inocentemente por pessoas que não conhecem melhor, e outras vezes por actores maliciosos que procuram semear o pânico e o caos».

É possível ter um jornalismo melhor

O jornalista Luís Galrão é pioneiro em Portugal na utilização de instrumentos disponíveis na Internet para verificação de notícias: os chamados OSINT (Open Source Intelligence). É um modelo de inteligência que visa encontrar, selecionar e adquirir informações de fontes públicas e analisá-las para que em conjunto com outras fontes possam produzir um conhecimento.

Numa entrevista ao site Setenta e Quatro ele critica o trabalho dos órgãos de comunicação social durante esta guerra, nomeadamente as televisões.

«Ao nível do jornalismo televisivo há de facto uma grande incapacidade para breaking news, sobretudo na componente principal do jornalismo, que é a verificação. É raro o evento em que nas primeiras horas as televisões partilham conteúdos verificados. Vêem alguém partilhar numa rede social, acreditam na narrativa que acompanha esse conteúdo e exibem-no, às vezes durante horas e em repetição permanente. São coisas evitáveis – e eu costumo demonstrá-lo – com três segundos a três horas de verificação.»

Luís Galrão fala em concreto daquele suposto ataque a um prédio de Kiev por um míssil russo (na foto ilustrativa do artigo) que passou em todos os canais portugueses.

«Há uma reiterada violação do dever de verificação. Isso resulta num trabalho jornalístico mau. É o caso do míssil alegadamente russo que acertou naquele prédio, que depois já era um avião russo que tinha sido abatido. E, ao se verificar, afinal era um avião ucraniano que muito provavelmente foi abatido pelas próprias defesas antiaéreas ucranianas. E ainda há canais, hoje, a dizer que foi um avião russo abatido. Há pivôs a dizer isso enquanto mostram imagens a partir das quais eu consigo verificar, em segundos, que se trata de um avião ucraniano. Não consigo perceber este tipo de ...».

Para o jornalista, a situação não é de agora. E manifestamente as televisões não estão interessadas em corrigir as notícias falsas, nem em verificar aquilo que divulgam.

«Nos últimos anos, na questão de Cabo Delgado, com o terrorismo no norte de Moçambique, também acompanhei aquele grande ataque a Palma. Na altura fiz uma grande verificação de informações divulgadas no Leste-Oeste da SIC [programa de Nuno Rogeiro], um dos meus alvos semanais porque infelizmente é um programa que divulga muita desinformação. Tem muito conteúdo enganador, mau jornalismo – boa parte daquilo nem é jornalismo. E nesta questão de Cabo Delgado há um episódio que me marcou: a divulgação de fotografias de pessoas apelidadas de terroristas, e que eu, através destas técnicas, consegui identificar como sendo agentes da Força de Guarda de Fronteira de Moçambique.

Tenho o número de telefone de um deles, tenho as redes sociais de dois deles, falei com colegas deles. Propus à SIC facultar-lhes toda esta informação para que pudessem desmentir o que tinham exibido em antena e isso não aconteceu. Este é um exemplo da utilidade prática destas técnicas, que infelizmente não foi aproveitado pela SIC. Foi utilizado por outras pessoas para acabar com aquela desinformação e com o dano que aquilo estava a fazer àquelas pessoas.»

Desinformação russa e neonazis

Em Portugal, não costuma passar desinformação russa, dado que os órgãos de comunicação social, com destaque para as televisões, se entretêm a passar notícias não verificadas de fontes ucranianas. Mas ela é acessível na Internet.

Na semana passada, a Meta – reinvenção da marca Facebook pelo seu proprietário, Mark Zuckerberg – anunciou que tinha derrubado uma rede de desinformação pró-russa que consistia em 40 contas, grupos e páginas falsas no Facebook e Instagram.

A rede utilizou imagens de perfil gerados por Inteligência Artificial para criar perfis de engenheiros aeronaúticos, editores de notícias, autores científicos, entre outros, que garantiam estar em Kiev.

Uma imagem gráfica amplamente partilhada mostra um mapa de «ataques aéreos nas últimas 48 horas» destaca ataques israelitas na Síria, ataques aéreos sauditas no Iémen e dos EUA visando a Somália, para além de ataques russos na Ucrânia. A legenda é a seguinte: «Condene a guerra em todo o lado».

A imagem foi criada pelo site Redfish, uma iniciativa mediática, com aparentes pontos de vista de esquerda, que é um projecto da estação estatal russa RT.

Apesar de, neste caso, não ser mentira nenhuma, as principais redes sociais decidiram restringir totalmente a possibilidade dos internautas postarem esta imagem e outras publicações que tenham origem nessas redes russas.

A UE anunciou recentemente que os meios de comunicação social estatais russos seriam proibidos de transmitir em todo o território da União.

«A cadeia estatal RT e a Sputnik, e as suas subsidiárias, já não poderão espalhar as suas mentiras para justificar a guerra de Putin», disse a Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen.

«Estamos a desenvolver ferramentas para proibir a sua desinformação tóxica e prejudicial na Europa».

Esta iniciativa censória de carácter ilegal, que viola as leis europeias e constituições como a portuguesa, teve rápido acolhimento.

Nick Clegg, da Meta, anunciou que os canais estatais russos RT e Sputnik seriam bloqueados em toda a UE no Facebook e Instagram.

O mesmo cuidado não foi tido para extremistas ucranianos. No meio da invasão russa, o Facebook permitiu temporariamente aos utilizadores elogiar o neonazi Batalhão Azov, um grupo militar ucraniano que foi anteriormente proibido de ser discutido na plataforma ao abrigo da sua política de Indivíduos e Organizações Perigosas.

A unidade militar voluntária foi formada em 2014 por neonazis e supremacistas brancos. Foi oficialmente integrada no exército da Ucrânia alguns meses após a sua formação, elogiada pelo antigo Presidente Petro Poroshenko eteve elementos condecorados pelo actual presidente Zelensky .

As tropas do Azov treinam frequentemente em uniformes militares adornados com símbolos nazis, incluindo o símbolo Totenkopf «cabeça da morte», o Wolfsangel, um antigo símbolo rúnico que se acreditava afastar os lobos popularizados durante o Terceiro Reich, e o Sonnerad (símbolo do Sol Negro), que foi apropriado pelos nazis numa tentativa de inventar uma herança ariana.

De acordo com materiais de política interna vistos pelo site The Intercept, o Facebook permitirá agora aos utilizadores elogiar o Batalhão Azov no contexto do seu papel de defesa da Ucrânia.

Na semana passada, na conta oficial no Twitter da Guarda Nacional da Ucrânia, foi tweetado: «Lutadores Azov da Guarda Nacional untaram as balas com banha contra os orcs de Kadyrov».

O tweet discriminatório referia-se a balas revestidas com gordura de porco para serem usadas contra soldados chechenos muçulmanos que participam na invasão russa, cujo líder é Ramzan Kadyrov.

«Caros irmãos muçulmanos. No nosso país, não ireis para o céu. Não vos será permitido ir para o céu. Vão para casa, por favor. Aqui, encontrarão problemas. Obrigado pela vossa atenção, adeus», diz um combatente do Batalhão Azov, enquanto é filmado a mergulhar as balas em gordura de porco.

O Twitter restringiu o tweet da Guarda Nacional, mas manteve-o na sua plataforma.

«Este tweet violou as regras do Twitter sobre conduta odiosa. Contudo, o Twitter determinou que pode ser do interesse do público que o tweet permaneça acessível», pode se ler junto ao tweet da Guarda Nacional ucraniana.

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