|Um outro Mundial

Tempo para festejar um último golo

Em pleno Mundial de futebol, morreu o bibota Fernando Gomes. Nunca estaremos bem no momento em que sabemos que uma estrela que nos encantou na infância acaba de falecer. Um momento para relembrar um senhor dos relvados.

Há coisas que nunca esqueceremos. Em fevereiro de 1984, conheci pessoalmente Fernando Gomes. O FC Porto jogava em Torres Vedras e o avançado não havia sido convocado para o jogo da Taça de Portugal. Quis o destino que fosse almoçar à Serra da Vila, a aldeia onde viviam os meus avós paternos e onde eu frequentava o jardim escola. Foi um autêntico alvoroço, quando começou a correr a notícia de que um carro desportivo vermelho estava estacionado no largo, defronte do café do José Inácio, que também por ali tinha um restaurante. Imagino que o meu próprio almoço tenha decorrido na ânsia de ver o Gomes. E foi isso que aconteceu. Depois de comer o Fernando Gomes foi até ao café, distribuiu alguns calendários autografados e até pegou o meu irmão mais novo ao colo - coisa que o fez ser do FC Porto até que o próprio Gomes tenha mudado de clube. 

Há mesmo coisas que nunca esqueceremos. A quantidade de golos que Gomes marcava, a forma como festejava, como parecia tornar fácil esse gigantesco segredo que separa os vencedores dos aspirantes. Fernando Gomes deitado numa cama do hospital, depois de uma operação, a explicar como viveria a final da Taça dos Campeões Europeus de 1987 distante do relvado onde pertencia. Gomes a mudar-se para Lisboa, continuando a passear classe com a camisola do Sporting. Gomes a passar os anos mas a ter sempre aquela deferência e atenção que os grandes craques, aqueles craques que não têm mesmo comparação, sempre têm para quem os admira. Tal como nunca esquecerei que foi entre jogos deste Mundial que caiu essa triste notícia. A notícia de que Gomes iria agora marcar golos noutra dimensão. Nunca te esqueceremos, Bibota. 


Luis Enrique e a comunicação direta

Esqueçam as horas marcadas e as perguntas limitadas das conferências de imprensa, esqueçam as ilusões das fontes seguras sobre este ou aquele assunto, a comunicação direta chegou ao Mundial 2022 pelas mãos de um treinador que continua a inovar a toda a linha. Luis Enrique, o selecionador espanhol, criou uma conta no Twitch, plataforma de vídeos, onde de forma regular tem passado a conversar com os seus seguidores sobre tudo aquilo que acontece com a sua seleção, os seus jogadores, este Mundial e a sua estadia no Qatar. À hora em que estou a escrever este artigo, mais de 670 mil pessoas seguem a sua conta, com número de visualizações que excedem a quantidade de seguidores. Não é a comunicação do futuro, é o presente a apresentar-se de forma inequívoca.

A segurança de Luis Enrique nas decisões que toma fazem muito lembrar aquilo que foi como jogador. Ao comando da seleção espanhola, impôs uma rotação nas convocatórias, demonstrando de forma clara uma tendência de distribuição de oportunidades que quebrou o mito do “grupo da seleção”. A juventude que impregna no seu grupo também marca diferenças. Pedri, depois de ter sido figura no Europeu do ano passado, volta a estar no onze, onde tem agora a companhia do ainda mais jovem Gavi. Mas na sua equipa também há lugar para experiência, com o meio-campo do Barcelona a ter enquadramento completo na “La Roja” com Sergio Busquets a entrar na equipa. O jogo de estreia deixou o sabor a delícia, com uma goleada sobre a Costa Rica. Hoje o teste terá outras exigências, perante a Alemanha. Mas na forma como Luis Enrique quebra barreiras, dá vontade de respirar o mesmo ar que a seleção espanhola respira por estes dias. 

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