|trabalhadores

A figura do ano

A figura do ano nunca somos nós. Quanto mais invisível for o trabalho, melhor, porque só assim se certifica que a economia é o resultado do génio de meia-dúzia de escolhidos.

Alameda, Lisboa, 1 de Maio de 2020
Alameda, Lisboa, 1 de Maio de 2020CréditosPaulo António

snsTodos os anos, em dezembro, a maioria dos órgãos de comunicação social sente a obrigação de homenagear uma ou mais figuras que se destacaram ao longo daquele ano. As escolhas privilegiam personalidades ou organizações que se distinguem pelo seu contributo para a imagem do país, através de feitos mais ou menos individuais ou que suscitaram mais atenção mediática do que o habitual. É raro, porém, que esse destaque seja dado à classe trabalhadora, porque não há glamour nenhum no trabalho dependente. Imagina-se, aliás, uma redação de um jornal ou de uma revista a discutir sobre a personalidade que irão escolher para inspirar os pobres desgraçados que todos os dias acordam para a sua insignificância. Um vírus tem mais possibilidades de chegar à capa de um jornal de grande tiragem do que os milhares de trabalhadores que, durante uma pandemia, atravessaram dois ou três concelhos para ir trabalhar, todos os dias.

«num ano em que uma pandemia também foi uma oportunidade (é o que está nos livros da melhor gestão: transforma uma adversidade numa oportunidade) torna-se necessário destacar aqueles que, sem outra opção, lutaram a nado contra a maré, porque o barco já estava cheio»

A figura do ano nunca somos nós. O nosso trabalho nunca será reconhecido como contributo para a imagem do país. Quanto mais invisível for o trabalho, melhor, porque só assim se certifica que a economia é o resultado do génio de meia-dúzia de escolhidos. Muito menos será figura do ano a resistência às «inevitabilidades» das crises e das pandemias. Mas, num ano em que uma pandemia também foi uma oportunidade (é o que está nos livros da melhor gestão: transforma uma adversidade numa oportunidade) torna-se necessário destacar aqueles que, sem outra opção, lutaram a nado contra a maré, porque o barco já estava cheio.

Em contracorrente, optou-se aqui por escolher dez figuras, e não uma, que durante o ano de 2020 deveriam ser motivo de admiração e de solidariedade e que representam milhões de portugueses nas suas lutas diárias.

Cristina Tavares no fim da marcha solidária contra o seu despedimento que juntou dezenas de pessoas em Santa Maria de Lamas, 19 de Janeiro de 2019 CréditosEstela Silva / Agência Lusa

1. CGTP e o 1.º de Maio

Apesar de todo o ruído mediático, que conquistou uma parte significativa da opinião pública, a maior central sindical do país, que celebrou este ano 50 anos, percebeu cedo que «pandemia» e «confinamento» iriam significar alterações da situação laboral de milhões de pessoas. Mais de um mês depois da ordem para recolher – aos que podiam –, as consequências daquilo a que se começou a chamar de «o novo normal» já se faziam sentir de forma bastante agressiva no quotidiano e no horizonte de centenas de milhares de trabalhadores. A coragem em manter as ações de luta de um dos dias fundadores da nossa democracia, não como um ato de mero simbolismo, mas como uma ação necessária, merece um destaque especial.

2. Os trabalhadores da Cultura

O medo, este ano, veio em forma de hashtag. #FicaEmCasa foi a palavra de ordem de muitos para quem ficar ou não em casa era uma opção. Com o confinamento, milhares de iniciativas culturais foram canceladas e milhares de trabalhadores viram-se privados de quaisquer rendimentos. Artistas e técnicos, para quem a precariedade é muitas vezes a única realidade que conhecem, cedo começaram a viver o pior período da sua vida e a recorrer a pedidos desesperados de ajuda. A luta destes trabalhadores viu-se ainda prejudicada por modelos de performance online mais preocupados em entreter quem #FicaEmCasa do que em garantir a subsistência de todos aqueles que dependem deste setor. Seria embaraçoso fazer listas de melhores discos, concertos, peças ou performances do ano – porque o grande destaque são os trabalhadores impedidos de trabalhar e a sua resistência em não desistir.

3. Trabalhadores da LAUAK

Num dos distritos mais afetados pelas consequências da pandemia, Setúbal, destaca-se uma empresa que, a meio do ano, resolveu iniciar um processo de despedimento de 200 trabalhadores: em junho, a Lauak, uma multinacional francesa de componentes para a indústria aeronáutica, anunciou a sua intenção em avançar com estes despedimentos, apesar dos lucros obtidos nos últimos três anos e dos apoios públicos que tem recebido, e nem sequer colocou outra alternativa, alegando que o lay-off iria prejudicar os trabalhadores. Apesar da ausência de destaque nos órgãos de comunicação social, os trabalhadores da Lauak resistiram a este processo e retiraram 100 trabalhadores da lista de despedimentos. A empresa teve ainda de readmitir todas as mulheres despedidas em junho que estavam em licença de parentalidade.

4. Cristina Tavares

Este foi um dos processos mais violentos de assédio laboral dos últimos anos, mas nunca deixou Cristina Tavares derrotada. A trabalhadora da Corticeira Couto, com uma inesgotável coragem, venceu a luta contra a empresa de São João da Madeira em tribunal e é um exemplo de resistência contra as práticas de perseguição que muitos trabalhadores sofrem diariamente nos seus postos de trabalho.

5. Trabalhadores do Arsenal do Alfeite

Em mais um exemplo do processo de desmantelamento de setores estratégicos do Estado, o Arsenal do Alfeite, transformado em sociedade anónima em 2009, chegou a um ponto tal de descalabro que, em 2020, os seus trabalhadores foram informados de que o seu direito ao subsídio de Natal estaria em risco, assim como os salários dos primeiros meses de 2021. A luta destes trabalhadores está para além da sua reivindicação do direito à remuneração e convoca-nos a todos para defesa da nossa soberania nas suas várias dimensões.

6. Trabalhadores do SNS

Ao longo das primeiras semanas, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi homenageado todas as noites à janela por muitos portugueses. Os aplausos serviram como uma manifestação de apoio que, infelizmente, não é suficiente para muitos trabalhadores, como, por exemplo, a enfermeira entrevistada por um canal de televisão, que revelou ter um vencimento de cerca de 650€. Com recursos escassos e salários que não contemplam o risco a que estes profissionais de saúde estão expostos, com poucas oportunidades para manifestar a reivindicação de melhores condições, estes trabalhadores revelaram uma capacidade de resistência admirável, cujo sucesso na defesa do SNS depende, porém, da nossa vontade em nos juntarmos à sua luta.

Os trabalhadores da saúde (da esquerda para a direita) Cristina Teixeira, Raquel Queirós, David Andrade e Idalina Ramos, posam em frente do mural onde se encontram representados, no Hospital de São João, no Porto, a 19 de Junho de 2020. O artista urbano VHILS – assinatura de Alexandre Farto – desenhou um mural com dez rostos de trabalhadores da saúde naquele hospital portuense, homenageando aqueles que, no Serviço Nacional de Saúde, estiveram na linha da frente do combate à pandemia do coronavírus CréditosJosé Coelho / LUSA

7. Restauração e bares

Os empresários e trabalhadores da restauração, bares e outros estabelecimentos de diversão e lazer viram-se metidos no olho do furacão de uma crise pela qual ninguém esperava. Centro de todas as atenções e alvo fácil para a tomada de medidas de resposta à pandemia, este setor assistiu a encerramentos, prejuízos incalculáveis, reformulações urgentes de modelos de negócio e alterações constantes dos horários de funcionamento que prejudicaram tanto os trabalhadores como os pequenos empresários, tendo muitos deles optado precisamente este ano por iniciar a sua atividade. Com a chegada do inverno, as alternativas do espaço exterior deixaram de ser uma solução. Mas a forma como têm resistido e a sua capacidade para salvaguardar postos de trabalho em muitos casos é admirável.

8. Trabalhadoras da Castimoda

No início do primeiro período de confinamento, no final do mês de abril, as trabalhadoras da Castimoda (empresa da indústria têxtil de Fafe que entrou em insolvência), com salários em atraso, não tiveram opção de ficar em casa e viram-se forçadas a fazer uma vigília para impedir que o patrão retirasse material de dentro da empresa, sob a ameaça de, a propósito do Estado de Emergência, a GNR ser chamada a intervir. Esta foi uma das primeiras ações de luta a desafiar as limitações impostas pelo Governo e pelo Presidente da República.

9. Clubes e associações desportivas

Tal como o setor cultural, foi necessária uma pandemia para se discutir a importância que o desporto tem na nossa vida em comunidade e dos seus efeitos na nossa saúde física e mental. Milhares de famílias viram-se privadas da prática do desporto e os sócios de clubes e associações desportivas foram impedidos de acompanhar as várias modalidades que são uma parte essencial da sua identidade e das relações sociais. Muitos foram os adeptos que, mesmo com todas as restrições, encontraram formas para apoiar os seus clubes, para além do conforto das transmissões televisivas e online.

10. Trabalhadores da refinaria da Galp em Matosinhos

Outra empresa de valor estratégico para o país cujo regresso à esfera pública do Estado muito tem sido reivindicado é a Galp. O duro golpe do encerramento da refinaria de Leça da Palmeira, Matosinhos, irá afetar cerca de 1500 trabalhadores e deixar o Estado dependente da importação. Mais uma vez, a luta dos trabalhadores pela manutenção dos seus postos de trabalho tem um âmbito muito mais alargado, com implicações na nossa soberania económica.

A luta de todos estes trabalhadores e setores de atividade não é individual ou circunstancial. Ela representa as várias dimensões da nossa vida coletiva e é ela que tem de assumir o único destaque possível de Figura do Ano. É por isso que entraremos em 2021 com uma única certeza: a de que a luta continua.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

Tópico