|Um outro Mundial

O valor da ferramenta num Mundial que não é da cooperativa

O Catar disse adeus em campo, mas continua a contabilizar diferentes valores dados às ferramentas que, por aqui, se compram e se vendem. Num dia em que seleções vencedoras têm mais algo a provar, o negócio continua a não pertencer à cooperativa.

O Qatar não se limitou a construir estádios para o Mundial de Futebol 2022. Sem tradição de claques no país, um grupo de ultras do Médio Orientes, predominantemente libaneses, foi contratado para formar a claques da selecção nacional Qatari
CréditosManan Vatsyayana / AFP

A má prestação da seleção catariana não deve transformar, de imediato, a sua organização num falhanço. O Catar conseguiu marcar, pela primeira vez, num grande palco, num processo que lhe permitiu, ao longo destes anos, jogar uma Copa América, uma Gold Cup e fazer amigáveis com várias seleções europeias. Nunca este país tinha sido tantas vezes falado no âmbito das competições futebolísticas. Esta experiência também permite colocar os catarianos como uma potencial força regional para os próximos anos, com o alargamento do Mundial a prometer novas visitas a este palco. Por outro lado, o fortalecimento da imagem do Catar enquanto destino turístico tem conquistado muito tempo de antena e atenção mediática, algo que nunca foi propriamente transtornado pelas liberdades políticas e sociais exercidas nos países que se dispõem a serem um postal ilustrado. A ferramenta foi cara, mas não deixa de ter resultados.

A questão é que, uma vez mais, não é de futebol que esta organização se trata. E enquanto nos relvados do Catar se realiza uma competição desportiva, as notícias que envolvem este país continuam a explicar-nos as dinâmicas de tudo o que gira em volta do evento. A Alemanha anunciou um acordo com o Catar para o fornecimento de gás natural durante os próximos quinze anos. O Departamento de Estado dos Estados Unidos da América aprovou a venda de um sistema anti-drone ao Catar num valor a rondar os mil milhões de dólares. As ferramentas que se vendem e trocam neste território valem muito mais do que o simples jogo de futebol ou o postal ilustrado. As linhas com que se cosem estes negócios permitem-nos comparar, também, a forma como as diferentes instituições reagiram aos problemas existentes ao longo da construção e realização do Mundial. Porque apesar do valor das vidas humanas ser o mais difícil de contabilizar, o espetáculo das compras e vendas tem que continuar.

Lionel Messi e Julian Alvarez celebram o primeiro golo contra o México. A vitória da Argentina, depois de uma primeira jornada mal sucedida, relançou a equipa, que veio a classificar-se em 1.º lugar no Grupo C da fase de grupos do Mundial de Futebol de 2022 CréditosDan Mullan / Getty Images

Agora começa a sério

Metade das seleções participantes neste Mundial já fizeram as malas e, a partir de hoje, focamo-nos na corrida para encontrar o campeão. Com o início das eliminatórias, deixa de haver espaço para retificar o erro ou para jogar com o resultado. Uma equipa ganha e mantém o sonho de alcançar a glória, outra equipa terá que começar a preparar um novo ataque no futuro. A partir daqui, é o futebol em toda a sua crueza que passa a reinar. Os golos têm muito mais valor, tal como os deslizes, as emoções vivem-se ainda mais à flor da pele, os feitos individuais conquistam um peso coletivo. A partir de hoje, um recorde individual conta muito menos do que a história que pode ser escrita através de um golo marcado no momento decisivo. São aqueles momentos que nunca esqueceremos.

Para o primeiro dia de eliminatórias, encontramos duas equipas que não chegaram a convencer na fase de grupos, apesar de ambas terem passado em primeiro. Os Países Baixos não escondem sequer a fortuna que lhes tocou, conseguindo vencer o Senegal e empatar com o Equador antes de fechar as contas perante o Catar. Coletivamente, a equipa laranja está demasiado longe de qualquer exemplo prévio da sua história. Individualmente, o Mundial vai servindo para confirmar a qualidade de Frenkie de Jong, que todos conhecíamos, e a capacidade de Cody Gakpo, que todos temos que conhecer. A Argentina começou o Mundial da pior maneira e a sua fé em Messi parece maior do que a capacidade do pequeno astro para carregar a equipa. Valeu o aparecimento de Enzo Fernández, um autêntico rebelde numa equipa à procura de si mesma, para dar equilíbrio a um conjunto que tem estrelas suficientes para continuar a decidir.

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