|Organização das Nações Unidas (ONU)

Na ONU, Estados Unidos bloqueiam «pausa humanitária» em Gaza

A resolução do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, que garantiria a entrada de ajuda humanitária para a população de Gaza, teve 12 votos a favor e 2 abstenções, mas os EUA usaram o veto para impedir a aprovação.

Linda Thomas-Greenfield, Embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, participa numa sessão com o homólogo israelita. 
Linda Thomas-Greenfield, Embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, participa numa sessão com o homólogo israelita. CréditosSarah Yenesel / Agência Lusa

Valores mais altos do que a paz forçaram a (falta de) intervenção dos Estados Unidos da América. Apesar de o documento apresentado pela diplomacia brasileira condenar os ataques perpetrados pelo Hamas, exigir a libertação incondicional de todos os reféns e exigir apenas o estrito cumprimento da Lei internacional, os EUA foram o único país com assento na Conselho de Segurança da ONU a boicotar a tentativa de abrir corredores humanitárias na Faixa de Gaza, Palestina.

O documento, que contou com o voto favorável de 12 países e a abstenção da Rússia e Reino Unido (num total de 15), exigia a realização de «pausas humanitárias» que permitissem «acesso pleno, rápido, seguro e desimpedido às agências humanitárias das Nações Unidas» e os seus parceiros, assim como ao Comité Internacional da Cruz Vermelha e «outras organizações humanitárias imparciais». Para o efeito, a resolução pedia o estabelecimento de «corredores humanitários e outras iniciativas para a entrega de ajuda humanitária à população civil» da Palestina.

O Conselho de Segurança da ONU é actualmente composto por Brasil, China, França, Albânia, Emirados Árabes, Equador, Gabão, Gana, Japão, Malta, Moçambique, Suíça, EUA, Reino Unido e Rússia. Destes, cinco têm assento permanente (Reino Unido, Rússia, EUA, China e França), o que lhes confere, também, o poder de vetar qualquer resolução.

Voto dos EUA protege o massacre que o regime de apartheid israelita está a cometer em Gaza

«O resultado final da votação é inacreditável», afirmou Zhang Jun, diplomata chinês, durante a sessão. A representante norte-americana, Linda Thomas-Greenfield, não comentou nem expressou oposição quando o documento estava a ser negociado, referiu a China, dando a entender, aos restantes 14 países do Conselho de Segurança, que os EUA não se oporiam à sua aprovação.

Na sua intervenção, Thomas-Greenfield, lamentou a ausência de menções ao «direito de Israel à sua defesa» e afirmou que os culpados pelo massacre que as forças de ocupação israelita estão a levar a cabo em Gaza, assassinando mais de 3500 civis, são os elementos do Hamas. Ou seja, os EUA escolheram deliberadamente apenas apresentar as suas condicionantes depois de a negociação, e votação, estarem encerradas, de forma a cumprir o único verdadeiro objectivo dos americanos: impedir a aprovação de corredores humanitários.

«Sejamos claros: foram as próprias acções do Hamas que provocaram esta grave crise humanitária em Gaza», defendeu a diplomata. A Reuters, num artigo publicado ontem, refere que, «tradicionalmente, Washington protege Israel de qualquer acção do Conselho de Segurança».

«Apesar de [pausas e corredores humanitários] serem causas nobres, não são soluções para impedir o próximo [não especificado] massacre do Hamas», afirmou Gilad Menashe Erdan, embaixador israelita. «Este Conselho está a desempenhar o papel pretendido pelo Hamas», acusou, acrescentando que a organização está a «transformar a ONU numa arma» ao não permitir que Israel cometa um genocídio étnico em Gaza, sem oposição.

Em comunicado, o governo brasileiro lamentou que, mais uma vez, «o uso do veto tenha impedido o principal órgão para a manutenção da paz e da segurança internacional de agir diante da catastrófica crise humanitária provocada pela mais recente escalada de violência».

Também Louis Charbonneau, director da Human Rights Watch na ONU, condenou os EUA pela utilização repetida, e «cínica», do seu veto para impedir que o Conselho de Segurança da ONU actuasse em relação a Israel e à Palestina, «numa altura de carnificina sem precedentes». «Ao fazê-lo, bloquearam as mesmas exigências para as quais tanto insistem noutros contextos».

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