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Ciganos da Ucrânia podem morrer de fome

Uma delegação alemã visitou a Ucrânia para analisar a situação da comunidade cigana no país e lançou o alerta, em relação às condições miseráveis em que sobrevivem os ciganos nesse pais.

As pessoas no acampamento de Lviv podem morrer de frio e de fome no próximo Inverno.
As pessoas no acampamento de Lviv podem morrer de frio e de fome no próximo Inverno.CréditosDR / DR

«A situação dos ciganos na Ucrânia é insuportável, não podia acreditar que os ciganos vivem em tais condições na Europa», disse o eurodeputado verde alemão de etnia cigana, Romeo Franz, um dos participantes da delegação que visitou a Ucrânia, numa conferência de imprensa.

A delegação da organização Sinti Roma que visitou Kiev, Lviv e Uzhhorod, na Ucrânia, era constituída por Mehmet Daimaguler (advogado dos direitos humanos), Daniel Strauss (co-presidente da Associação Federal do Sinti e Roma, Comissário contra o Anti-Ciganismo na República Federal da Alemanha) e o já referido eurodeputado Romeo Franz, membro do Partido Verde.

Os elementos da Sinti Roma constataram que a situação do povo cigano na Ucrânia é insuportável e a guerra tem contribuído para agravar ainda mais a sua exclusão. As condições nos acampamentos são inaceitáveis e os ciganos estão a ser discriminados na distribuição da ajuda humanitária no contexto da guerra.

A denuncia não é nova, e o comportamento do governo de Kiev já foi objecto de críticas de organizações internacionais: no relatório divulgado, no mês passado, pelo Alto Comissariado da Organização da Nações Unidas para os Direitos Humanos, pede-se ao governo ucraniano que tome medidas contra a discriminação crescente que vivem as populações ciganas na Ucrânia, cujas más condições de vida que foram agravadas com a guerra.

«Devem ser tomadas medidas para eliminar o acesso discriminatório à assistência pública e às limitações discriminatórias aos movimentos e da falta de documentos de identidade»

Antes da invasão russa de Fevereiro, cerca de 400 000 ciganos viviam na Ucrânia.

A delegação encontrou-se com várias organizações ciganas e representantes do governo ucraniano. Daniel Strauss relatou que cerca de 70% dos ciganos vivem em localidades segregadas e «os 30% que vivem em áreas residenciais, não segregadas, escondem, ou escondem frequentemente, o seu estatuto de ciganos por medo de serem discriminados», afirmou o comissário alemão contra o anti-ciganismo.

A delegação visitou um acampamento cigano nas florestas perto de Lviv, onde vivem cerca de 1400 pessoas. A maioria dos habitantes do povoado são crianças ou jovens, não têm electricidade e não têm acesso a cuidados médicos.

Vítimas da guerra e do racismo das autoridades ucranianas

«Graças à organização Chirikli (ave, em romani), conseguimos obter alimentos e artigos de higiene para a povoação perto de Lviv. Agora, encontrámos uma fundação que nos fornece alimentos para o acampamento até Setembro. Espero que encontremos mais apoios», explicou um dos responsáveis do acampamento, lembrando que se tal ajuda não chegar, o Inverno pode ser o último para muitas pessoas.

O eurodeputado alemão denunciou a ausência total de acção política do governo ucraniano para permitir que os 400 mil ciganos da Ucrânia possam sobreviver: «não existe uma autoridade competente eficaz. Há também falta de conhecimento e trabalho por parte do Estado».

«O relógio não pára», advertiu o advogado de direitos humanos Mehmet Daimaguler, numa conferência de imprensa virtual sobre a situação dos refugiados ciganos na Ucrânia. A guerra demonstrou que muitos membros da minoria estão expostos a desvantagens estruturais permanentes no seu país.

«O problema do anti-ciganismo não é novo», disse Daimaguler. «exclusão, falta de participação, nenhum reconhecimento como minoria nacional, condições catastróficas em muitos bairros, quase nenhum acesso à educação e aos cuidados de saúde já existia na Ucrânia antes da guerra. Mas agora muitos ciganos estão expostos a uma discriminação crescente como refugiados, tanto em casa como em outros países europeus.», disse.

O eurodeputado Romeo Franz deixou claro que o anti-ciganismo não estava apenas a aumentar na Ucrânia, mas também na Roménia, Bulgária, Eslováquia e República Checa. «Temos um problema anti-ciganismo na Europa».

Segundo Daimaguler, a viagem foi também motivada por mais de uma dúzia de incidentes anti-ciganos que lhe tinham sido relatados de vários estados federais na Alemanha. Por exemplo, refugiados ciganos da Ucrânia tinham sido expulsos dos comboios. «É insuportável que os descendentes das pessoas que eram transportadas para os campos de concentração nazis em vagões de Reichsbahn fossem racialmente atacados nos comboios da Deutsche Bahn 70-80 anos mais tarde», vincou o advogado.

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