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Presidenciais na Colômbia: a vitória dos ninguéns

A vitória de Gustavo Petro nas presidenciais na Colômbia abre caminho à esquerda pela primeira vez desde a independência do país.

CréditosMaurício Duenas Castaneda / EPA

No dia em que Gustavo Petro foi eleito o primeiro Presidente de esquerda da história da Colômbia (desde a sua independência, no século XIX), duas das suas testemunhas eleitorais (nas mesas de voto), no estado do Cauca, foram assassinadas a caminho das urnas.

Só neste mês em que Gustavo Petro foi eleito, foram assassinados sete activistas sociais. Até ao dia de hoje, segundo o Indepaz, já vão em 87 os activistas e 21 os ex-combatentes eliminados, só este ano.

A Colômbia continua a ser um dos países mais perigosos do mundo para quem defende direitos humanos, direitos civis, sociais, económicos, direito à água, à terra, ao pão. Um dos países mais perigosos do mundo para jovens, estudantes, sindicalistas, líderes indígenas, afro, feministas, LGBTQ+, jornalistas.

A vitória de Gustavo Petro é um enorme balde de água fria num país dominado pelas mesmas famílias desde a independência, os mesmos terratenentes, os mesmos oligarcas. E também um momento de esperança para aquela suposta «democracia» no continente americano, onde, afinal, todos os dias é um risco de morte ser-se cidadão.

Gustavo Petro, 62 anos, é um economista, ex-guerrilheiro do movimento M-19 que, até 1990, era a segunda maior guerrilha da Colômbia (atrás das FARC), guerrilha urbana sobretudo de jovens de classe média de esquerda, dissolvida nos primeiros Processos de Paz, e que deu depois origem ao partido Alianza Democratica. Foi deputado desde 1998 e senador desde 2006, presidente da câmara de Bogotá entre 2012-2015, afastado a meio do mandato e depois re-instituído num suspeito processo de impeachment. Foi candidato à presidência em 2010 (ficou em quarto lugar) e em 2018, em que disputou a segunda volta contra o ainda presidente Iván Duque.

«A vitória de Gustavo Petro é um enorme balde de água fria num país dominado pelas mesmas famílias desde a independência, os mesmos terratenentes, os mesmos oligarcas. E também um momento de esperança para aquela suposta "democracia" no continente americano, onde, afinal, todos os dias é um risco de morte ser-se cidadão.»

Petro venceu no domingo, apoiado por e numa aliança chamada Pacto Histórico, de frente progressista alargada que junta vários partidos e movimentos de esquerda, indígenas, sociais e de trabalhadores, o Partido Comunista Colombiano, o Partido dos Trabalhadores, entre muitos outros, após um mandato turbulento e violento de Iván Duque, marcado pela maior e mais longa greve geral da Colômbia nos últimos 30 anos, convulsões sociais, centenas de activistas e ex-combatentes assassinados, violência sistémica do Estado contra cidadãos.

Os media, colombianos mas também no continente, têm estado em alvoroço desde que a vitória de Petro se tornou uma possibilidade real. A revista Semana, o grupo de media que é uma espécie de rede Globo da Colômbia, cobriu de forma agressiva a primeira volta, entre o receio de que Petro ganhasse à primeira, e o apoio aberto aos dois candidatos centristas «de direita», Federico «Fico» Gutiérrez (sucessor de Duque, «uribista» que não foi a segundo mandato), e «de esquerda», Sergio Fajardo, antigo autarca de Medellín (já tinha concorrido em 2018).

Fajardo, a esquerda «moderada» e «institucional», disse logo que ia votar em branco na segunda volta, sentado em cima de um muro muito alto, porque «nem Petro nem Hernández», como antes, «nem Haddad nem Bolsonaro», «nem Maduro nem Guaidó»: «Há muita expectativa. As promessas de resolver rapidamente o desconforto e o inconformismo, que é o que é o populismo, serão frustradas muito rapidamente. O que vem depois? Uma possibilidade é a explosão [social]. Eu vejo uma imagem muito complicada, espero estar errado. A união do país é muito necessária, mas não vejo como vão fazer isso. Frustração, e depois da frustração vem a explosão ou o autoritarismo», disse ao El País. E o que veio à Colômbia nos últimos 100 anos, senão frustração, explosão e autoritarismo?

Também a BBC Mundo passou grande parte da campanha a explicar o que é a «Petrofobia»: o medo do castro-chavismo, a potencial venezualização da Colômbia, os fantasmas do costume, os mesmos que elegeram Bolsonaro no Brasil. O pânico das palavras «povo» e «democracia» faz tremer até os militares, como dizia um conselheiro do ainda Presidente Duque, na Semana, sobre uma potencial eleição de Petro significar uma «nova ordem». Esta «passa não só por afectar a liberdade e a propriedade privada, mas também substituir as actuais forças militares [polícia nacional e o exército]», que, afirma o conselheiro (sem se rir), são «apartidárias».

«Não roubar, não mentir, não trair»: era o mantra de Rodolfo Hernández, 77 anos, milionário, engenheiro, ex-autarca de Bucaramanga, capital do estado de Santander (um dos mais prósperos: café, cacau, minério, petróleo), vizinho à Venezuela. Veio do fundo da tabela de intenções de voto, sem (aparente) plataforma política, sem apoio no Senado, sem (aparentes) «padrinhos» à esquerda ou à direita, alvo da desconfiança de todos, mas de artigos elogiosos na Semana entre grupos de empresários, dentro e fora do país, criando uma «Liga dos Governantes Anti-Corrupção» (LIGA), numa campanha anunciada desde Miami, sem presenças públicas, recusando debates, dirigida de e para as redes sociais, com muitos emojis, vídeos curtos e hashtags, e foi galgando terreno até à segunda volta.

A «estratégia do caracol» de Hernández: «Ocultar-se até ganhar a Presidência», disse o El País. Tornou-se o «velhinho do Tik Tok», onde pôde «controlar a sua narrativa e repetir frases que tanto afecto granjearam entre os cidadãos: "Acabar com os ladrões e os corruptos."» Tentou distanciar-se da «esquerda» e da «direita» mas, apesar dos nove milhões de votos, acabou engolido pelo abraço de urso do uribismo. Hernández é um pária, um Trump «anti-sistema» lançado desde um dos estados mais conservadores e paramilitarizados do país, para uma plataforma supostamente independente de empresários, empreendedores self-made men, tentando romper com o lastro de Uribe e alertando para a «venezualização» da Colômbia com a potencial vitória de Petro.

Violento, admirador confesso de Hitler, negando, por exemplo, a existência de violência de género (culpando as próprias mulheres por «saírem de casa» para trabalhar em vez de cuidar dos filhos), com intenções de desfazer leis progressistas (contra feminicídio, em defesa de territórios indígenas), e com uma agenda neo-liberal de desregulação, baixa de impostos para grandes fortunas, e de incentivo à precarização e «grandes investimentos» estrangeiros em sectores-chave.

Apesar da derrota de Hernández, a simples existência destes «monstros híbridos» em defesa dos interesses instalados, num país que nunca se descolonizou como a Colômbia, não pode deixar de preocupar a reacção dos próximos anos à vitória de Petro. Figuras como Rodolfo Hernández ou Jair Bolsonaro, Jeanine Áñez (Bolívia) ou Keiko Fujimori (Perú), ou o derrotado José Antonio Kast (no Chile, contra Boric), abertamente violentas e racistas, profundamente conservadoras na política, proto-fascistas nos costumes e neo-liberais na economia, próximas do paramilitarismo, de facções reaccionárias no exército e do saque de recursos naturais (minérios e agro-negócio), não são, ao contrário do que diz Oliver Stuenkel no Estadão, um «sinal da profunda disfunção democrática na região», nem o reflexo da «crise da democracia na América Latina». É o poder e o capital reorganizando-se e reagindo à real possibilidade de mudança que governos e movimentos progressistas de esquerda, liderados por Boric, Petro ou Lula, podem representar.

«Apesar da derrota de Hernández, a simples existência destes «monstros híbridos» em defesa dos interesses instalados, num país que nunca se descolonizou como a Colômbia, não pode deixar de preocupar a reacção dos próximos anos à vitória de Petro.»

Quão perigoso será Petro Gustavo para o poder burguês, oligarca, instituído na Colômbia, que desde a sua independência nunca teve um presidente de esquerda eleito democraticamente, um candidato de esquerda de facto que não tenha sido assassinado (como Gaitán ou Pizarro), para que o capital se organizasse atrás de um pária nazista como Hernández? Quão perigoso teria sido, afinal, o moderado professor Haddad para que o capital se organizasse para colocar Bolsonaro no poder, protegendo os seus interesses da bala, do boi e da bíblia?

Os ninguéns

«Saúdo os ninguéns da Colômbia», disse Francia Márquez, eleita domingo vice-presidente da Colômbia. A activista ambientalista, feminista, advogada, 41 anos, é a primeira afro-colombiana a alcançar um dos mais altos cargos da nação. Isto é profundamente simbólico num país que tem uma das Constituições mais avançadas da América Latina no que diz respeito ao reconhecimento de povos originários, grupos étnicos, igualdade de género – mas só no papel. Na prática, são mulheres, indígenas, camponeses, afro-colombianos, os que mais têm sofrido da violência do conflito armado, mesmo (e sobretudo) após o Processo de Paz. Porque são eles que, em regiões ricas em minérios, por exemplo, se opõem ao Estado e aos grupos paramilitares coniventes com o Estado, na defesa das suas terras, das suas famílias e comunidades.

Numa entrevista à Rádio Caracol, em Fevereiro, Francia Márquez disse que seria a voz dos ninguéns na Casa de Nariño: «Nós não somos uma minoria, isso é o que as 47 famílias que governaram este país nos fizeram crer. Se devemos ter medo de alguém, é da elite que nos tem governado e que governou de costas para o povo, de costas para a sua gente, e que nos submeteu à barbárie e ao medo. Na minha região [o Cauca] não pára a violência, não pára o conflito armado porque há quem tenha semeado medo para manter-se no poder, para nos vender segurança democrática. Isso é o que tenho visto na política. Eu nem era política, era uma líder social que estava na luta. Mas cansei-me de não ver mudanças para o meu país, não ver mudanças para as maiorias empobrecidas, não ver mudanças para as etnias, para as mulheres, para os povos originários, para os camponeses, não ver mudanças para as juventudes que saem à rua a exigir educação e os assassinam com as balas da pátria. Simplesmente estigmatizando-os como vândalos, terroristas, criminosos. Esses que foram "marcados", os ninguéns – eu represento essas pessoas. Os ninguéns que não tiveram voz neste país.»

No domingo à noite, na cobertura das eleições em directo para o jornal Espectador, um comentador dizia que a vitória de Petro e Francia era a vitória de todos os que tinham caído pela Colômbia, gerações e gerações de jovens que se perderam para a violência durante o último século (mesmo com dois Processos de Paz), para que se pudesse chegar aqui.

E este mandato de Iván Duque foi uma descida ao abismo. Quando tomou posse em 2018, o país vivia uma redução significativa da violência na sequência dos Acordos de Paz, o número mais baixo de homicídios dos últimos 40 anos. Mas, diz o Espectador, «a sua recusa em entender que a implementação do Acordo era essencial para consolidar aquela paz que começava a ser vivida levou-nos aos cenários de guerra que vários territórios da geografia nacional sofrem hoje. Em meio do confronto com novos actores armados, a força pública voltou à sua história para bombardear campos onde foram encontradas crianças. Civis morreram em aldeias na decorrência de operações militares, nas quais não foram tomadas precauções mínimas exigidas pelo Direito Internacional.»

«E este mandato de Iván Duque foi uma descida ao abismo. Quando tomou posse em 2018, o país vivia uma redução significativa da violência na sequência dos Acordos de Paz, o número mais baixo de homicídios dos últimos 40 anos.»

E agora? A vitória de Petro e do Pacto Histórico consolida enfim o Processo de Paz que, ironicamente, deu o Prémio Nobel a Juan Manuel Santos (2016), dissolveu as FARC e abriu as portas à integração de milhares de ex-combatentes na sociedade, no processo político e democrático. Foram precisos seis anos e centenas mortos para que o «Sim» finalmente vencesse. Agora, unir um país profundamente dividido entre um neo-conservadorismo reaccionário e a possibilidade de emancipação de uma massa de «ninguéns» não será fácil.

Até porque o capital e aquelas 47 famílias que sempre governaram a Colômbia não vão descansar. O uribismo parece ter sido derrotado nas urnas, mas há pelo menos 30 anos que Álvaro Uribe, pai do paramilitarismo narco, e os seus serviçais mandam, de facto, na segurança, nas forças armadas, nos negócios e na distribuição da riqueza: desde a gestão em modo gangster dos pacotes de milhões em «apoio anti-terrorista» dos EUA, à entrada como membro observador da NATO, à violação de direitos humanos, «falsos positivos» e eliminação sistemática de opositores políticos, até à militarização das forças policiais.

«A "onda progressista de esquerda" tem uma nova oportunidade, 20 anos depois das grandes mudanças, em que Lula, Chávez, Kirchner, Mujica e Morales chegaram ao poder. É bom que agora venham para ficar.»

As reacções já começaram. O embaixador colombiano nos EUA demitiu-se no dia seguinte. O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, disse «esperamos continuar a nossa sólida associação com o presidente eleito». A Semana tinha já uma série de artigos (prontos) a responder à vitória de Petro – na economia, na política e nas forças armadas: o ex-presidente conservador Andres Pastrana diz que «confiamos que [Petro] respeite as instituições». O General Navarro, comandante das Forças Militares, diz: «Garantiremos a ordem constitucional». Na economia, a Semana lista as propostas petristas «que causam temores» aos empresários: impostos sobre as grandes fortunas, desinvestimento em combustíveis fósseis, mercado laboral público, instituição do salário mínimo, reforma das pensões e re-negociação de tratados internacionais de comércio, nomeadamente questionando a dependência dos EUA.

Com a vitória da esquerda progressista no Chile, no Peru, nas Honduras e agora num dos países mais ricos e populoso do continente, e as eleições no Brasil em Outubro anunciar o regresso de Lula da Silva, não admira que a The Economist desta semana fale da «decadência» da democracia na América Latina. A «onda progressista de esquerda» tem uma nova oportunidade, 20 anos depois das grandes mudanças, em que Lula, Chávez, Kirchner, Mujica e Morales chegaram ao poder. É bom que agora venham para ficar.

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