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Na luta contra os desmandos de Piñera, o Chile vive nova jornada de greve geral

A greve desta terça-feira, precedida por paralisações sectoriais no dia anterior, ocorre no 40.º dia de protestos populares contra o modelo neoliberal de Piñera, a desigualdade e a repressão no país austral.

CréditosAlberto Valdes / EPA

Entre as primeiras acções da jornada de greve, convocada pela Mesa de Unidade Social, em que se integram mais de 200 organizações sociais e sindicatos, conta-se o corte da Autoestrada do Sol – que liga Santiago a Valparaíso – por centenas de habitantes dos bairros pobres da capital chilena.

Segundo a Prensa Latina, as cerca de 500 pessoas que ergueram barricadas no meio da via, por iniciativa do movimento Ukamau, acabaram por ser desalojadas por forças especiais, que recorreram a jactos de água e gás pimenta, directamente lançado na cara dos manifestantes – refere a fonte, que dá ainda conta do corte do trânsito na Autoestrada Pedro Aguirre e de acções semelhantes nos arredores de Santiago.

Representantes do movimento Ukamau, que faz parte da Mesa de Unidade Social e cujos protestos se integram na jornada de greve geral convocada para esta terça-feira em todo o Chile, declararam à imprensa que exigem aos municípios e ao governo que garantam a possibilidade de os habitantes dos bairros acederem a habitação digna, com planos urbanos inclusivos e não como os de até agora, que fizeram de Santiago uma cidade segregada e desigual.

A nível nacional, a Mesa reivindica, entre outras coisas, o aumento do salário mínimo e das pensões, a melhoria da qualidade nas áreas da Saúde e da Educação públicas, bem como serviços básicos de electricidade, água, transportes ao alcance de todos os chilenos.

Nolberto Díaz, secretário-geral da Central Unitária dos Trabajadores (CUT), explicou que a greve se mantém porque, apesar dos anúncios feitos pelo governo de Sebastián Piñera, não houve diálogo com o movimento social e nenhuma das suas exigências foi atendida, tendo acrescentado que «as tíbias medidas tomadas pelo executivo visam manter intacto o modelo económico, sem atingir os interesses dos mais ricos, enquanto os chilenos os têm de financiar com os seus impostos», indica a Prensa Latina.

Em vez de Assembleia Constituinte, mais repressão

A jornada de luta, que foi precedida pela paralisação de ontem dos trabalhadores portuários e dos aeroportos, visa também denunciar a violenta repressão por parte das forças policiais sobre os protestos que têm lugar no país desde 18 de Outubro, bem como reforçar a necessidade de uma Assembleia Constituinte, que garanta a participação democrática de todos, com vista a ultrapassar um modelo de Chile «pinochetista».

A este propósito, o dirigente sindical defendeu que, «se Piñera e os deputados não são capazes de dar uma resposta eficaz às exigências dos chilenos, então devem pôr-se de parte e convocar eleições antecipadas».

Esta greve tem lugar numa altura em que o presidente chileno anuncia ter apresentado no Congresso um projecto de lei com vista a permitir a presença do Exército nas ruas, «sem necessidade de declarar o Estado de Excepção e sem ter de restringir as liberdades e os direitos dos chilenos».

A ideia é, segundo o mandatário, que o Exército possa colaborar na «protecção das infra-estruturas críticas» do país, mas, à vista do que tem sido a violenta acção dos Carabineiros nestes dias, o projecto recebeu uma chuva de críticas – também a nível institucional – por parte daqueles que entendem que Piñera pretende, de facto, intensificar a repressão sobre os manifestantes que afrontam o seu modelo de governação.

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