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Protestos contra Piñera alcançaram bairros ricos de Santiago

As manifestações contra as políticas de Piñera chegaram ao distrito financeiro, Sanhattan. Desde o início dos protestos, registaram-se casos de tortura e violência sexual por parte das forças de segurança.

Protesto em Santiago do Chile contra as políticas económicas de Sebastián Piñera
Protesto em Santiago do Chile contra as políticas económicas de Sebastián Piñera Créditos

Os protestos contra a desigualdade social e as medidas económicas do actual governo chileno duram há mais de 20 dias e esta semana alcançaram zonas da capital que até agora haviam passado ao lado das mobilizações, como o bairro rico de Providencia e o distrito financeiro, conhecido como Sanhattan.

Com os seus arranha-céus, Sanhattan é onde a população mais abastada da capital e do país faz vida. Ali, o centro comercial Costanera Center, a torre mais alta da América Latina e o símbolo do «progresso económico» que o país quer projectar, tornou-se um novo alvo da mensagem que os manifestantes querem passar, ao denunciarem as profundas desigualdades sociais do país sul-americano.

«Costanera representa o capitalismo puro, o poder dos empresários e de todos os abusos e roubos que cometeram», disse à TeleSur Tomás Pizarro, uma das pessoas que, esta semana, marcharam até ao emblemático edifício.

Antes da chegada dos manifestantes, o Costanera instalou arame farpado e persianas metálicas em seu redor, e a repressão dos Carabineiros, que têm sido acusados por diversas instâncias de violações graves dos direitos humanos, não se fez esperar. Algo que, segundo a fonte, não fez abrandar os protestos.

«Queremos medidas reais e mudanças reais, queremos que Piñera renuncie», disse Pizarro. Os protestos no Chile começaram em Outubro na sequência do aumento do preço do bilhete de metro em Santiago. Alguns dias depois, a medida foi revogada por Sebastián Piñera, já depois de intensa repressão por parte das forças de segurança sobre os manifestantes.

Entretanto, os protestos foram-se tornando cada vez mais amplos (assim como a violenta repressão das forças do Estado), alargando-se a outras exigências sociais e laborais, nomeadamente aumentos salariais, pensões dignas, cuidados de saúde e educação gratuita.

Os manifestantes exigem também uma Assembleia Nacional Constituinte e a renúncia de Piñera ao cargo. Até ao momento, não só não se verificou uma resposta satisfatória às exigências da população, como se registou uma intensa repressão nas ruas, que já provocou pelo menos duas dezenas de mortos, perto de 2000 feridos e 5000 detidos.

Novo pacote de medidas repressivas

Em resposta aos amplos protestos e às exigências dos manifestantes, Piñera não se demite e, esta quinta-feira, anunciou um conjunto de medidas que, tendo como pretenso objectivo «proteger a ordem pública e a segurança dos cidadãos», visam criminalizar os protestos no país.

Entre as medidas anunciadas por Piñera contam-se um projecto anti-saques, uma lei anti-encapuzados, protecção às Forças Armadas e à Polícia, processamento judicial de manifestantes, projectos anti-barricadas e maior vigilância e perseguição política, refere a TeleSur.

Por considerar que a aprovação deste pacote «é algo urgente e necessário» e que as medidas «devem ser executadas quanto antes», o presidente chileno disse ainda que convocou o Conselho de Segurança Nacional (Cosena).

O anúncio da convocatória do Cosena gerou mal-estar no seio da oposição. A deputada do Partido Comunista do Chile (PC), Karol Cariola, sublinhou que, ao seguir por tal via, o presidente do país «decidiu endurecer o punho» e, «em vez de ouvir o Chile, isola-se e fecha-se na guerra solitária contra o seu povo», refere a HispanTV.

Inúmeras violações dos direitos humanos

O Instituto Nacional dos Direitos Humanos (INDH) do Chile revelou que, desde o início dos protestos até esta quarta-feira, mais de 5000 pessoas foram presas e 1778 feridas. Os dados têm por base observações feitas pelo organismo em 112 esquadras e em 61 centros de saúde, pelo que, adverte, os números podem ser superiores.

Mulher baleada em ambas as pernas é arrastada pelos Carabineiros em Santiago do Chile (5 de Novembro) / @PiensaPrensa

O relatório revela que se contam 549 crianças e adolescentes entre os detidos e 146 entre os feridos. Do total de feridos, 933 apresentavam ferimentos resultantes de disparos de bala e 519 de disparos de cartuchos com chumbo, havendo ainda 172 com lesões e traumas oculares, incluindo numerosos casos de perda de uma vista.

O INDH denuncia que os Carabineiros violaram de diversas formas os Protocolos para a Manutenção da Ordem Pública, nomeadamente praticando detenções arbitrárias, uso excessivo da força, recurso a de bombas de gás lacrimogéneo apesar da presença de pessoas de terceira idade, menores de idade e mulheres grávidas. O organismo também constatou disparos de bombas de gás directamente contra o corpo dos manifestantes e disparos de cartuchos com chumbo contra o pescoço e a cara dos manifestantes, e também de três observadores do INDH.

O INDH, que apresentou até 6 de Novembro 219 acções judiciais – 168 das quais por torturas e tratos cruéis, e 19 por torturas e tratos cruéis com violência sexual –, registou também relatos de simulacros de execução, nudez forçada, ameaças de violação e outras formas de violência sexual, maus-tratos verbais graves e socos.

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