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COVID-19 e a «luz no fundo do túnel»

Os dias que vivemos oscilam entre duas ideias: a primeira é que «vai ficar tudo bem» e «em breve vamos voltar ao normal»; a segunda, no completo antípoda da anterior, é que «nada será como dantes».

Um homem com uma máscara de protecção usa o telemóvel em Times Square, Nova Iorque, a 5 de Março de 2020, durante a pandemia que assolou a cidade
Um homem com uma máscara de protecção usa o telemóvel em Times Square, Nova Iorque, a 5 de Março de 2020, durante a pandemia que assolou a cidade CréditosJohannes Eisele / AFP via Getty Images

Do tanto que já se disse, escreveu e viveu sobre esse autêntico alpha e omega dos nossos tempos – o COVID-19, pois claro! – será, porventura, prematuro tirar conclusões ou fazer grandes previsões.

Não obstante essa rejeição da futurologia, há aspectos do tempo que vivemos que convidam a uma cuidada reflexão, já que os desenvolvimentos a que venhamos a assistir não estão pré-determinados, mas antes dependem em grande medida da capacidade que tenhamos de sobre eles agir para os influenciar.

Os dias que vivemos oscilam entre duas ideias: a primeira é que «vai ficar tudo bem» e «em breve vamos voltar ao normal»; a segunda, no completo antípoda da anterior, é que «nada será igual ao que era antes», ainda que raramente se especifique, como ou porquê assim tem de ser.

Dos mil e um ângulos a partir dos quais é possível observar o desdobramento destas duas ideias, há quatro tendências que merecem um olhar especial pelas eventuais implicações que comportam, a saber:

Uberização 2.0 - para lá do brutal assalto aos rendimentos, a crise financeira internacional da última década teve como marca bem mais funda o ataque aos direitos dos trabalhadores. De tantas alterações ocorridas nessa altura e cujos impactos ainda hoje se sentem (veja-se, por exemplo, a situação da contratação colectiva em Portugal), a emergência e generalização de novas formas de contratação e emprego, mediadas por plataformas digitais – vulgo «uberização» – constituiu-se como um enorme salto na precarização das relações laborais1, que assim se tornaram ainda mais próximas das que os proletários do século XIX viviam, só que agora com recurso a um smartphone. À data que escrevo este texto é imprevisível o que acontecerá em Portugal e no mundo neste campo determinante da vida que é o Trabalho, mas parece-me inevitável que se procure normalizar o teletrabalho. De resto, para tantos trabalhadores a passarem horas intermináveis em transportes sobrelotados e/ou filas de trânsito que nunca acabam, a que se somam horas sem fim em locais de trabalho sem condições, sob o controlo e pressão de superiores hierárquicos autoritários e desrespeitosos, esta solução pode até ser vista com bons olhos. Do lado do patronato sê-lo-à com certeza: de uma vez só vê-se livre de custos com infra-estruturas, transportes, energia, etc., e garante a dispersão espacial dos trabalhadores, contribuindo para desarticular a sua capacidade organizativa e, por consequência, reivindicativa; como em qualquer circunstância em que se precariza a situação dos trabalhadores, o patronato verá aqui mais uma oportunidade para aumentar os seus lucros e o seu poder.

Euro-fantasia - é verdade que a postura dos governantes de alguns países do Norte da União Europeia em matéria de solidariedade e compreensão com o drama dos povos de outros países é abjecta e merece condenação. Sem prejuízo disso, a ideia de que virá do «projecto europeu» a solução para os problemas económicos que decorrem da paralisação prolongada dos estados mais afectados pela pandemia constitui a renovação de uma perigosa ilusão. Se olharmos para trás veremos que, para lá da retórica de solidariedade repetida ad nauseam, a União Europeia (UE) jamais acudiu aos que mais precisavam – bem pelo contrário, quando se tratou de escolher entre contribuir para tirar os mais pobres da crise ou os espezinhar mais, as estruturas da UE sempre foram bastante afoitas a encher os bolsos dos aflitos de pedras antes de os empurrarem da ponte (a palavra troika lembra-vos alguma coisa?)2.

Vigilância omnipresente - só alguém muito distraído não terá já percebido que todas as nossas interacções na internet e, na realidade, todos os passos que damos tendo um telemóvel no bolso podem ser monitorizados. Para lá do inegável valor económico que tem o chamado Big Data, a vigilância permanente tem um cunho marcadamente político, pois tem o potencial de garantir a perseguição a todos os que se apresentem como vozes contrárias à ordem dominante3. No quadro da pandemia tem, não raramente, sido apresentada esta inaceitável monitorização dos dados das pessoas como algo afinal algo de legítimo, quiçá desejável até. Para corroborar a legitimação deste gigantesco salto atrás nas liberdades e garantias individuais, assistimos ao emergir de uma cultura de securitização de várias esferas da vida, como se de uma situação de conflito se tratasse4.

Eco-niilismo - vem de (bem) antes do COVID-19 a fantasia primitivista que a solução para os problemas da natureza residia num «retorno às origens», em que o progresso tecnológico devia ser desprezado. Agora, perante os inevitáveis efeitos que uma quarentena forçada teve em indicadores como os níveis de emissão de carbono ou o lixo produzido, encontramos quem ache que o aprisionamento das pessoas em suas casas ou a implosão da actividade económica é uma «oportunidade para salvar a Terra». Para lá das muitas considerações que aqui se podiam fazer sobre este proto-ideário há uma que me parece por demais evidente: terão estes eco-niilistas parado para analisar, entre outras coisas, o impacto ambiental do aumento exponencial no tráfego de dados que resulta do uso (ainda mais) massivo da internet?

Dito tudo isto, é justo sublinhar que toda a tese tem a sua antítese. Em várias instâncias – mais até do que aquelas que aqui sumariamente referi – são hoje ainda mais evidentes os limites de um sistema orientado exclusivamente pela acumulação do lucro como é o capitalismo.

Não obstante, quem até aqui sempre lucrou com o tabuleiro inclinado em que se joga o capitalismo dificilmente estará agora disposto a abdicar dos privilégios de que tem usufruído. Recuperando a metáfora tantas vezes usada por Slavoj Zizek: todos os cuidados são poucos, não vá a luz no fundo do túnel ser, afinal, a do farol da frente de um comboio na nossa direcção!

  • 1. Sobre este tema é de grande interesse a leitura de Uberworked and Underpaid de Trebor Scholz, ou de Platform Capitalism de Nick Srnicek, entre outros. O primeiro encontra-se disponível em rede [acedido a 24 de Abril de 2020]. Ambos os livros foram publicados pela Polity Books.
  • 2. Em Os caminhos da social-democracia europeia, Avelãs Nunes oferece uma importante reflexão que atesta aquilo que afirmo.
  • 3. Vale a pena conhecer o The age of surveillance capitalism de Shoshana Zuboff.
  • 4. No fim de semana de Páscoa o Governo da Catalunha deu instruções às câmaras municipais dos concelhos costeiros que colocassem os seus funcionários a patrulhar as ruas para reportar à polícia casos de pessoas a violar a quarentena. Como se isso não fosse suficiente, fez um apelo ao que chamou de «delação vicinal», ou seja, que as pessoas vigiassem das suas casas o movimento das ruas, chamando as autoridades em caso de verem estranhos a circular.

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