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Em Espanha, o patronato despede depois das «ajudas milionárias» para não o fazer

El Corte Inglés anunciou que vai despedir 3500 trabalhadores, depois de a administração se ter comprometido com o Estado e os funcionários a manter o emprego. É um de muitos casos em Espanha.

Em Espanha, o Estado gastou mais de 24 mil milhões de euros, em 2020, para financiar os lay offs das empresas privadas, com o governo a anunciar com muita pompa que «as empresas não poderão despedir os trabalhadores durante a crise do coronavírus»; agora, os despedimentos sucedem-se em cascata
Em Espanha, o Estado gastou mais de 24 mil milhões de euros, em 2020, para financiar os lay offs das empresas privadas, com o governo a anunciar com muita pompa que «as empresas não poderão despedir os trabalhadores durante a crise do coronavírus»; agora, os despedimentos sucedem-se em cascata Créditos / fashionnetwork.com

A maior cadeia de grandes armazéns de Espanha vai realizar um despedimento colectivo de 3500 trabalhadores, justificando a medida com a necessidade de fazer andar o negócio e não o pôr em risco, devido à queda de 40% no número de clientes e ao rápido desenvolvimento do comércio online, segundo referem os sindicatos.

Os que ficam poderão contar com a deterioração das condições de trabalho, segundo informa o El Salto, que refere o encerramento de lojas, o congelamento dos salários e mais dias de fim-de-semana e feriados a trabalhar.

A mesma fonte indica que o anúncio destes despedimentos ocorre depois de a empresa ter colocado 38% dos seus funcionários em situação lay off, cerca de 26 mil trabalhadores cujo salário, reduzido, passou a ser pago maioritariamente pelo Estado.

Os lay offs foram apresentados pelo actual governo de coligação como um dos principais instrumentos para fazer frente à crise associada à pandemia de Covid-19 e incluíam uma cláusula de salvaguarda ou manutenção do emprego segundo a qual as empresas que recorressem a este mecanismo ficavam obrigadas a manter os postos de trabalho durante um prazo de seis meses a partir da data de regresso ao trabalho, refere ainda o El Salto.

A violação de tal cláusula implicaria, em princípio, a devolução à Segurança Social de todos os benefícios que a empresa tivesse gozado.

Milhares de milhões do público para o privado e despedimentos a aumentarem

Numa peça recentemente publicada em nuevarevolucion.es, o jornalista Oriol Sabata lembra como, em Março de 2020, o governo espanhol anunciou que «as empresas não poderão despedir os trabalhadores durante a crise do coronavírus».

Em 2020, o Estado gastou mais de 17,8 milhões de euros para financiar os lay offs aplicados aos trabalhadores, além de 6,3 milhões em benefícios da Segurança Social. Ou seja, mais de 24 mil milhões de euros de dinheiro público.

Onze meses volvidos e «os números desmentem a mensagem do governo», afirma Sabata, uma vez que cresce «a onda de despedimentos por parte de empresas que tinham aplicado lay offs». «Depois de receber ajudas directas por parte do Estado, poupar no pagamento dos salários e não ter de pagar à Segurança Social, agora estão a anunciar cortes nos quadros de funcionários», diz o jornalista. O caso de El Corte Inglés é um entre muitos.

Os trabalhadores não só sofreram um corte no salário e no poder de compra, como agora são confrontados com o desemprego. O «escudo social» que o governo espanhol anunciou há quase um ano foi concebido «desde o início para sustentar o patronato», denuncia Oriol Sabata.

Uma boa prova disso é, segundo o jornalista, a satisfação da Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE) perante as medidas e o entusiasmo em «ampliá-las» o tempo que «forem necessárias».

Enquanto o patronato – «num exercício de cinismo» – considerava a aplicação dos lay offs uma questão primordial à «manutenção do emprego», em Janeiro deste ano, o seu presidente, Antonio Garamendi, afirmava que teria de haver «ajustes nos quadros».

Entretanto, milhares de milhões tinham partido das arcas públicas para empresas privadas para pagar salários de trabalhadores, com a social-democracia a «antepor os interesses do capital aos do trabalho» e a «enganar os trabalhadores com o seu discurso social».

Sabata considera que «vêm aí tempos duros em que vai aumentar o descontentamento e se agudizará o protesto». A tarefa é, em seu entender, canalizá-los e encaminhá-los para «forjar uma alternativa».

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