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Quem suga a mais-valia do leite?

Apesar de assumir grande parte dos encargos e dos riscos, a produção fica apenas com 21% da mais-valia criada. A indústria fica com 31% e a distribuição com 48%.

Créditos / Agricultura e Mar

O Ministério da Agricultura inaugurou recentemente e com toda a pompa e circunstância o prometido Observatório de Preços Agroalimentares. Este Observatório deve ser enquadrado nas medidas habituais dos governos, destinadas a dar a ideia que se está a fazer alguma coisa não fazendo coisa alguma. Durante a apresentação do «dito cujo» foi divulgado um «Estudo sobre a cadeia de valor da fileira do Leite UHT». O estudo merece ser lido porque confirma o que já se sabia há muito. À semelhança do que acontece em outras fileiras, são os grandes grupos da transformação e da distribuição a sugarem a valia criada pelos produtores de leite, que são cada vez menos.

O setor leiteiro é uma indústria que abrange várias fases, desde a produção leiteira, o seu processamento ou transformação e finalmente, a sua distribuição da fábrica até ao retalho. Os produtores de leite estão na base de todo o processo. Investem na terra, no gado e na maquinaria (tratores, máquinas de ordenha, etc.) e asseguram todas as tarefas necessárias para a obtenção do leite. O valor gerado varia com a qualidade do produto, mas a sua realização concreta depende do preço recebido pela indústria dominada por um grande grupo (Lactogal), que, na prática, determina o preço em função do seu interesse. As empresas de transformação de laticínios transformam o leite cru num produto pronto para o consumo, agregando ao processo a produção de outros produtos lácteos. Finalmente, a distribuição representa o elo de ligação entre a indústria e os consumidores.

O «Estudo sobre a cadeia de valor da fileira do Leite UHT», usando dados de 2020 e 2021, elabora a estrutura de custos de cada um dos três setores da cadeia e calcula as respetivas margens de lucro. A vantagem destes estudos reside no caráter insuspeito das fontes, permitindo-nos usar os resultados sem sermos acusados de interpretações enviesadas face ao nosso posicionamento político e ideológico. O primeiro elemento que salta à vista nas conclusões deste estudo são as margens estreitíssimas com que a produção se vê submetida. Na verdade, e conforme o estudo indica, as margens chegam a ser negativas, muito embora o estudo não avance com detalhes sobre a extensão dos períodos e das regiões em que os produtores foram pagos abaixo dos custos de produção. Avançando com uma margem líquida média de 0,6 cêntimos por quilo de leite, o estudo diz que esta margem chegou a atingir um valor negativo de 2,6 cêntimos por quilo. Isto confirma, por um lado, que muitos produtores perderam dinheiro produzindo, e, por outro, que as margens foram em média, durante o período 2020-2021, quase nulas.

«O primeiro elemento que salta à vista nas conclusões deste estudo são as margens estreitíssimas com que a produção se vê submetida. Na verdade, e conforme o estudo indica, as margens chegam a ser negativas (...).»

Considerando uma produção média de 7 mil quilos de leite por animal e considerando uma exploração com um efetivo total de 100 vacas, isto significa que sobram apenas 4200 euros por ano, depois de deduzidos todos os custos de produção. Este número explica o desaparecimento de milhares de explorações e a concentração do efetivo nacional num número cada vez mais reduzido de mega explorações, algumas com mais de mil vacas.1

O segundo elemento principal que queremos destacar consiste na repartição da mais-valia ao longo da cadeia (ver Figura 1). Os números são eloquentes. Por cada quilo de leite a produção fica com uma margem líquida de 0,6 cêntimos, enquanto que as margens respetivas da transformação e da distribuição são, respetivamente, 0,9 e 1,4 cêntimos. Isto significa que, apesar de assumir grande parte dos encargos e dos riscos, a produção fica apenas com 21% da mais-valia criada, enquanto que a indústria fica com 31% e a distribuição com 48%. São factos que confirmam a profunda injustiça de um sistema que promove a polarização da riqueza e do rendimento nos grandes grupos económicos que por sua vez dominam o poder político perpetuando assim o esbulho que diariamente é feito a quem produz. Acabar com este sistema implica romper com as políticas que promoveram este modelo que está a levar à ruína milhares de pequenos agricultores contribuindo assim para a desertificação do mundo rural.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

  • 1.  Em 1999 existiam 32 994 explorações leiteiras. Em 2021 eram apenas 3388. Hoje serão menos ainda.

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