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Rodeada de incógnitas e segurança, cimeira de Singapura está a postos

Desde o fim da guerra, os EUA boicotaram as tentativas de paz e reunificação da Península da Coreia, e podem voltar a fazê-lo agora. Em todo o caso, Trump e Kim vão mesmo reunir-se esta terça-feira.

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Coreano-americanos manifestaram-se em diversas cidades americanas contra as ameaças dos EUA e pela paz na Coreia, por ocasião do 72.º aniversário da libertação do jugo colonial japonês, em 14 de Agosto de 2017
Coreano-americanos manifestaram-se em diversas cidades americanas contra as ameaças dos EUA e pela paz na Coreia, por ocasião do 72.º aniversário da libertação do jugo colonial japonês, em 14 de Agosto de 2017Créditos / Zoom in Korea

Depois de, na quarta-feira, ter realizado uma visita-relâmpago a Washington, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura, Vivian Balakrishnan, deslocou-se ontem em visita oficial à República Popular Democrática da Coreia (RPDC), para ali tratar com as autoridades norte-coreanas dos preparativos para a cimeira entre o líder coreano, Kim Jong-un, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que terá lugar no Hotel Capella, em Singapura.

A agenda não é conhecida, mas não é difícil imaginar que o diálogo incida em temas como a desnuclearização e a paz na Península da Coreia, a exigência de garantias de segurança por parte de Pyongyang, bem como do fim das sanções que lhe são impostas por Washington.

Trump, Pompeo, Abe...

No início de um encontro bilateral na Casa Branca com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, o presidente norte-americano mostrou-se optimista sobre a reunião com Kim, afirmando que será «muito frutífera» e «muito mais que uma foto».

Insistindo na necessidade da «desnuclearização» da RPDC, Donald Trump disse que, se tudo correr bem na cimeira, convidará Kim Jong-un a visitar os EUA.

Por seu lado, Abe disse esperar que o encontro seja um «momento de transformação» para o Nordeste asiático e fez questão de mostrar sintonia com o seu antifritião.

No entanto, vários analistas têm apontado o «desconforto» com que o Japão encara uma eventual aproximação entre a República da Coreia e a RPDC, por um lado, e entre a RPDC e os EUA, por outro – não parecendo ser do seu interesse a existência de uma Coreia forte e unida ou o fim da tensão militarista, que leva o país nipónico a assumir um papel de relevo no contexto regional.

Também ontem, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, abordou a questão da cimeira de 12 de Junho, para trazer à tona as habituais pressões de Washington. Afirmou que Donald Trump não aceitará nada que não seja uma «desnuclearização completa, verificável e irreversível da Península da Coreia», acrescentando que o presidente dos EUA está confiante, mas que vai para a cimeira com «os olhos bem abertos».

Washington está disposta a «garantir a segurança da Coreia do Norte». Trump «está preparado para garantir que uma Coreia do Norte livre de armas de destruição massiva é uma Coreia do Norte segura», disse.

Das ameaças ao desanuviamento

O ano passado ficou marcado pela troca de ameaças e insultos entre ambos os dirigentes. Mas no início deste ano algo mudou, com Kim Jong-un a expressar o desejo de que os atletas do Norte participassem nas Olimpíadas de Inverno, no Sul.

Seguiram-se vários sinais de aproximação entre ambos os países. Logo em Janeiro, representantes de Pyongyang e Seul anunciaram a realização de viagens recíprocas de altos funcionários, a presença de desportistas da RPDC nas Olimpíadas e Paralimpíadas de Inverno PyeongChang 2018, e as actuações de artistas nos territórios de ambos os países. Posteriormente, foi aberta uma linha telefónica directa entre os mais altos representantes da RPDC e da República da Coreia.

Já em Abril, no âmbito da chamada Ofensiva para a Paz, Kim Jong-un anunciou, numa sessão plenária extraordinária do Comité Central do Partido dos Trabalhadores, que, a partir de de 21 desse mês, a RPDC iria parar com os ensaios nucleares e o lançamento de mísseis balísticos intercontinentais, e iria encerrar o centro de ensaios nucleares da base de Punggye-ri.

Seguiu-se o encontro histórico entre Kim e o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, a 27 de Abril, do qual resultou a «Declaração de Panmunjom pela paz, prosperidade e reunificação da península coreana». Então, começou-se a falar na possibilidade de uma cimeira entre Kim Jong-un e Trump, a ter lugar no final de Maio ou início de Junho.

Não haverá acordo sem cedências

Aquilo que será concretizado em Singapura e, eventualmente, em encontros futuros é naturalmente uma incógnita, mas os passos até agora trilhados num caminho positivo só poderão fazer mais caminho se a soberania da RPDC e os anseios de paz do povo coreano forem respeitados.

Não haverá acordo e paz sem cedências de ambas as partes, nomeadamente dos EUA, que arrasaram o Norte da Coreia entre 1950 e 1953, numa sangrenta guerra em que foi eliminada 20% a 30% da sua população – como hoje é reconhecido pelos próprios norte-americanos.

Não é possível aferir o sentido desta cimeira sem ter presente que os EUA, que fazem exigências claras à RPDC no sentido da desnuclearização unilateral, investem somas astronómicas em material militar, detêm aproximadamente 40% do total de ogivas nucleares existentes no mundo e são responsáveis pela militarização massiva da República da Coreia, de onde não parecem querer retirar contigentes e onde continuam a realizar grandes manobras militares.

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