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Riscos para a Paz e previsível crescimento dos preços do petróleo

O petróleo anima as tácticas dos EUA em diversos tabuleiros. Conflitos de origem étnica ou religiosa, e com outras justificações, poderão existir, mas não são o essencial. O petróleo conta mais.

Fuzileiros norte-americanos junto a um poço em chamas, no campo de petróleo de Rumaila, Iraque, 2003.
Fuzileiros norte-americanos junto a um poço em chamas, no campo de petróleo de Rumaila, Iraque, 2003. CréditosArlo K. Abrahamson (marinheiro fotógrafo de 1.ª classe) / US Navy/wikipedia

«Não haverá guerra entre o Irão e os EUA»

Apesar do aumento das tensões entre o Irão e os EUA, os dois países não se envolverão em um conflito militar – mas também não haverá um novo acordo nuclear, afirmou o Líder Supremo iraniano, aiatola Ali Khamenei.

«Não haverá guerra. A nação iraniana escolheu o caminho da resistência», disse Khamenei, citado pela Reuters. «Não procuramos uma guerra, e eles também não», acrescentou, insistindo que os americanos estão bem cientes de que um confronto militar com o Irão «não é do seu interesse».

O Líder Supremo também disse que Teerão não se envolverá em conversas sobre um novo acordo nuclear com Washington. «Tais negociações seriam um veneno», disse Khamenei.

Uma guerra dos EUA contra o Irão teria consequências ao longo de décadas

Há um ano, o presidente dos EUA, Donald Trump, retirou unilateralmente os EUA do acordo nuclear de 2015 com o Irão, deixando em choque outros signatários, como a Rússia, a China e a União Europeia. O acordo estipulava que Teerão restringiria a sua capacidade de enriquecimento de urânio, que poderia ser um passo para a criação de uma bomba nuclear, em troca do levantamento de sanções contra o país.

No ato de ruptura com esse acordo, o presidente dos Estados Unidos chamou-lhe «o pior negócio de todos os tempos» e insistiu que deveria ser assinado um novo acordo, que também incluiria o programa de mísseis balísticos de Teerão.

Desde então, Trump tem usado todos os meios para forçar o Irão a sentar-se a uma mesa de negociações, aumentando a pressão quanto às sanções ao país, tendo como principal alvo as exportações de petróleo. Diversos analistas consideram que a situação em torno do Irão está a agravar-se, e que parece estar próxima nova guerra de agressão dos EUA no Oriente Médio – uma guerra que representaria uma devastação para a região e para a presidência de Trump.

De acordo com um recente despacho do New York Times (NYT), os EUA estarão a ponderar um plano de guerra contra o Irão com o envolvimento potencial de cerca de 120 mil soldados. O presidente dos EUA, Donald Trump, negou que seu governo planeie enviar tropas mas acrescentou que, se o fizerem, seriam «muito mais» do que o que era referido no despacho do NYT.

Washington tem feito comentários de guerra nas últimas semanas, com o secretário de Estado Mike Pompeo em tournée mundial ameaçando o Irão em múltiplos aspectos, chegando a ofertas de pontos estratégicos, como o Iraque.

Os EUA recentemente atravessaram o estreito de Ormuz e implantaram um grupo de porta-aviões perto da costa iraniana e enviaram bombardeiros B-52 para patrulhar o Golfo Pérsico. No entanto, Mike Pompeo assegurou que tal não foi uma preparação para a guerra com Teerão.

Há analistas que se limitam a ver estas decisões como um dos factores para a elevação do preço do petróleo. Descurando os riscos de guerra no Médio Oriente e no resto do mundo.

O porta-aviões USS Harry S. Truman e os navios atribuídos ao seu grupo de ataque durante um exercício de treino. Oceano Atlântico, a 16 de Fevereiro de 2018. CréditosScott Swofford / US Navy

Como chegaram os EUA, com Trump, a primeiros produtores mundiais de petróleo?

Os EUA atingiram altos níveis de produção, mas a principal razão pela qual os EUA são os maiores produtores é porque a Rússia e a Arábia Saudita limitaram a sua produção. Esta estratégia deve continuar, especialmente na Arábia Saudita, que tem prioridades nacionais elevadas de gastos e está envolvida numa dispendiosa guerra de agressão ao Iémen, fazendo com que seja do interesse do país manter o preço do petróleo o mais alto possível.

O que acontece não é, pois, apenas estar a aumentar a produção dos EUA. Há outros factores em jogo, como a estratégia de preços da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP)1. A organização tem atrasado a oferta para manter os preços à superfície com valores entre os 60 e os 80 dólares por barril.

A produção de petróleo dos EUA cresceu quatro vezes de 2017 para 2018, eventualmente tendo chegado a 10,7 milhões de bpd (barris por dia) este ano. Sem sinais de desaceleração da produção, era inevitável que os Estados Unidos chegassem a primeiros produtores mundiais antes mesmo do final do ano passado.

O aumento é em parte devido à bacia do Permiano e às suas peças de xisto, que continuam a produzir em ritmo alucinante. A Energy Information Administration dos EUA previu que a produção da bacia iria ter aumentos substanciais no ano presente.

O petróleo de xisto

O petróleo de xisto é um petróleo não convencional produzido a partir de fragmentos de xisto betuminoso.

Obtém-se deste xisto betuminoso através de pirólise, hidrogenação ou dissolução térmica. Estes processos convertem a matéria orgânica no interior da rocha (querogénio) em petróleo e gás sintéticos. O petróleo que resulta deste processo pode ser imediatamente utilizado como combustível, ou então pré-refinado de modo a poder ser usado como matéria-prima em refinarias. A pré-refinação consiste no acréscimo de hidrogénio e na remoção de impurezas como o enxofre ou o azoto. Os produtos refinados podem ser utilizados para os mesmos fins dos derivados do crude.

Até agora, a extracção de petróleo de xisto é mais cara que a extracção de petróleo tradicional.

Além disso, as jazidas do novo sistema extractivo esgotam-se mais depressa. E contem riscos ambientais pela contaminação dos solos por vários produtos químicos que podem por em risco os lençóis freáticos.

Entretanto, a questão do seu preço de extracção vai depender da procura mundial deste combustível e da capacidade de novas tecnologias compensarem o custo de extracção de um barril de petróleo de xisto em relação a um barril de petróleo tradicional.

Parte dos compostos químicos actualmente usados na extracção do gás de xisto está sob segredo industrial, o que tem gerado incerteza e preocupações sobre seus possíveis impactos ambientais. Entre 2005 e 2009, os mais usados, como aditivos do fluido do fracturamento hidráulico, foram os destacados em caixa.EUA, produção offshore e de xisto

Nos últimos anos não vemos nenhum acordo de corte de produção que seja respeitado em todo o mundo. Alguns membros da OPEP dependem totalmente do petróleo e temem perder esse mercado para os EUA com o preço do barril mais elevado e uma indústria mais robusta. Entretanto, um grupo de investigadores do Instituto Tecnológico de Massachusetts considera que o aumento da produção de petróleo nos últimos anos não tem tido relação com o progresso tecnológico alcançado pelos EUA. As empresas norte-americanas simplesmente têm tido acesso a jazidas com muito potencial. Isso permitiu-lhes aumentar a produção até mesmo quando os preços do petróleo eram baixos.

A produção offshore também teve aumentos. Os poços offshore dos EUA aumentaram a produção entre Setembro e Dezembro em 220 mil barris por dia, segundo dados revelados pela CNBC.

Os produtores dos EUA reiniciaram as suas operações e aumentaram a sua produção devido à viabilidade do preço actual do petróleo e os lucros que permitem. Quanto mais o preço aumenta, mais a extracção se torna viável para os produtores desempenharem um papel ainda mais activo.

Segundo Aaron Brady, da IHS Markit, tornando-se os EUA no maior produtor, apenas manterão os preços do petróleo sob controlo, segundo afirmou em meados do ano passado, mas «a matriz de decisão é da Arábia Saudita, que ainda é a “produtora de swing” porque tem as maiores reservas e um par de milhões de barris por dia que pode trazer ao mercado rapidamente».

Os preços de venda do crude passaram «a crescer por duas razões: os preços do petróleo passaram a ficar mais altos e para os produtores do petróleo de xisto, uns 50 dólares por barril propicia-lhes um crescimento robusto, eficiências e redução das despesas de serviço».

E acrescentou: «o offshore é comparável, mas com prazos de entrega mais longos e maiores volumes de capital. Um grande projecto offshore é de milhares de milhões de dólares, enquanto um poço individual na Bacia Permiana pode ficar abaixo de 10 milhões».

Brady diz que pode até haver um atraso no investimento em projectos mais longos, com offshore, inclusivamente em águas profundas, se os operadores e investidores ainda acharem que o xisto manterá os preços mais baixos no longo prazo.

No entanto, acrescenta que é importante lembrar que, embora contribuindo para o crescimento, o xisto ainda representa apenas 6% da participação no mercado mundial.

Plataforma marítima de prospecção de petróleo em offshore. Foto de arquivo.

A ruptura pelos EUA do acordo nuclear com o Irão JCPOA e as sanções ao comércio com a Venezuela

A denúncia por Trump do acordo feito com o Irão em 2015 para limitar o programa nuclear deste país teve aspectos nocivos em vários planos. Um deles foi o recuo no progresso nas relações entre diversos países.

A estrutura do acordo nuclear com o Irão foi um acordo-quadro preliminar alcançado em 2015, designado por Plano de Acção Abrangente Conjunto (JCPOA, de Joint Comprehensive Plan of Action), entre a República Islâmica do Irão e um grupo de potências mundiais – o P5+1, compreendendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Reino Unido, Rússia, França e China) e mais a Alemanha – para além da UE.

Os EUA romperam unilateralmente com o acordo, arvorando-se em capatazes do conjunto dos países envolvidos, impondo multas aos países e empresas que rompessem com a sanção da recusa de importação do petróleo do Irão.

Apesar dos EUA terem renunciado a multar oito desses países, as sanções reduziram muito a oferta global de petróleo, já que as exportações do Irão caíram em Março deste ano para 1,1 milhões de barris, quando em Junho do ano passado tinham sido mais do dobro (2,3 milhões), de acordo com dados da Agência Internacional de Energia. Na semana passada a UE declarou estar empenhada em manter o acordo de 2015 com o Irão (JCPOA), não aceitando quaisquer ultimatos. E o Irão anunciou deixar de cumprir algumas cláusulas do acordo, aguardando que a UE cumpra com os compromissos para o seu país. Nomeadamente o dos membros da UE criarem um mecanismo financeiro especial que permitiria negócios no Irão, fazendo escapar aos «radares» dos EUA todos os que quisessem negociar com o país mas que se arriscam a ser abrangidos por sanções. Por seu lado a UE pediu ao Irão para continuar a cumprir os compromissos na base do JCPOA, abstendo-se de quaisquer medidas de escalada.

A UE rejeitou qualquer tipo de ultimato e declarou que irá avaliar a conformidade dos passos dados pelo Irão relativamente aos seus compromissos nucleares no âmbito do JCPOA e do TNP (Tratado de não proliferação de armas nucleares).

A oferta de petróleo foi também afectada com as tentativas de golpe e sanções impostas pelos EUA à Venezuela, um dos grandes produtores e com as maiores jazidas por explorar.

Conclusões

Os EUA procuram jogar em diversos tabuleiros para assumir a liderança na produção do petróleo com o «secar» da produção da Venezuela, do Irão e de outros países, através de sanções contra adversários que inventou, através do condicionamento da acção da OPEP no que respeita aos níveis de produção e de preços, ou através da produção de petróleo e gás de xisto, de extracção mais cara em termos financeiros e ambientais, para a curto prazo se assumirem como lideres que condicionam as decisões essenciais.

O petróleo, como sempre, lá estará a animar diversas tácticas de tabuleiros e a justificar intervenções militares dos EUA e outros actores seus aliados. Conflitos de origem étnica ou religiosa, e com outras justificações, poderão existir, mas não são o essencial. O petróleo conta mais.

  • 1. Quando falamos de OPEP, quer-se dizer Arábia Saudita e, até certo ponto, Kuwait, Emiratos Árabes Unidos e Rússia, que, não sendo membro, passou a fazer parte do acordo, para além da Venezuela, Brasil e dezenas de outros países com níveis significativos de produção.

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