|Um outro Mundial

O encanto da primeira vez

Há mulheres sauditas nas bancadas, há um golo que faltava, há uma oportunidade que não podia deixar de ser aproveitada. O futebol não muda os grandes problemas do mundo, mas, caso a caso, permite a alguns cumprir os seus sonhos de infância.

Uma fã da Arábia Saudita observa o jogo do seu país contra a Polónia. Num país onde o peso da cultura e da tradição ainda impõe o controlo dos homens sobre as mulheres, a autorização de viajar para o estrangeiro sem necessidade de consentimento prévio masculino é uma fresta de esperança para um futuro com mais direitos. Qatar, 26 de Novembro de 2022
CréditosAhmed Yosri / REUTERS

Um Mundial tão politizado, discutido e analisado não deixa, no entanto, de ser um Mundial onde os contrastes se continuam a evidenciar. O Mundo assume diferentes faces conforme o lugar de onde o olhamos. E se parece haver alguma satisfação por se confirmar que os homens e as mulheres ocidentais beneficiam de amplas liberdades para viver este evento no Catar, não deixa de ser sintomático como outros países e outras realidades continuam a viver a prova. Enquanto espaço onde se cruzam essas diferentes realidades, atraídas por um jogo de futebol, as ruas desta península contam histórias de vidas que poderiam ter sido, no esforço de todos aqueles que a ajudaram a construir e que acabaram apagados, como o mural que homenageava estes homens junto ao Estádio Lusail e acabou por desaparecer quando o Mundial começou.

Por detrás daqueles que desaparecem, outros têm a oportunidade de aparecer. Como Mariam Meshikhes, mulher saudita entrevistada pelo The Guardian, que viveu o seu primeiro jogo de futebol ao vivo, num estádio, em pleno Mundial do Catar. São pequenos sinais de abertura do estado saudita, permitindo que as mulheres saiam do país, o que leva a que entre os adeptos da Arábia Saudita alguma presença feminina seja notada. O peso da cultura e da tradição ainda impõe o controlo dos homens sobre as mulheres. Mas para Mariam, a possibilidade de viver pela primeira vez a sensação de liberdade de noventa minutos na bancada representa uma ponte para um outro mundo que lhe parece, agora, possível de encontrar. É que enquanto os grandes problemas continuam a ser alvo de luta e discussão, os pequenos casos individuais ainda podem ter o direito a viver o encanto da primeira vez.

Aos 34 anos de idade, após treze épocas a marcar centenas de golos ao mais alto nível, a Robert Lewandowski faltava marcar um golo num Mundial. Aconteceu ao minuto 82 do Polónia-Arábia Saudita. Qatar, 26 de Novembro de 2022 CréditosSorin Furcoi / Al Jazeera

Lewandowski e um sonho de criança

Trinta e quatro anos de idade, treze épocas a marcar centenas de golos ao mais alto nível entre Alemanha e Espanha, uma vitória na Liga dos Campeões, muitos títulos nacionais e uma carreira reconhecida como a de um dos melhores avançados dos nossos tempos não deixavam Robert Lewandowski sossegado, porque um sonho de criança ainda estava por cumprir. Faltava marcar um golo num Mundial. Falhada a presença em 2014, 2018 não lhe dera a oportunidade para fazer aquilo que “Lewangoalski” sabe fazer melhor. E mesmo no Catar as coisas pareciam não resultar. Ficou em branco na primeira jornada perante o México, procurou e procurou fazê-lo frente à Arábia Saudita, mas só ao minuto 82 o seu destino se cumpriu. Não há grande que não encontre, pelo caminho, uma dificuldade que ainda lhe falte ultrapassar.

Laidouni, o rejeitado

Aissa Laidouni entrou no Mundial escancarando a porta, com um corte de bola festejado como se logo ali tivesse conquistado o campeonato. A sua enorme exibição permitiu um empate à Tunísia, resultado que as Águias de Cartago não conseguiram repetir perante a Austrália. Mas o festejo de Laidouni tinha uma história por trás. Pela primeira vez a jogar um Mundial, depois de se ter estreado em grandes competições pela porta da Taça das Nações Africanas, Laidouni sentia-se a superar a sua própria história. Nascido em França, de pai argelino, o seu sonho de pequeno terá sido o de vestir as cores verdes e brancas da Argélia. Formado no Angers, sem se conseguir fixar no plantel profissional, o seu sonho parecia desvanecer-se até que, encontrando oportunidades na Roménia, primeiro, e na Hungria, depois, o seu nome foi finalmente considerado. O selecionador Djamel Belmadi, no entanto, tinha outras prioridades. E foi a Tunísia quem acabou por aproveitar.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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