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O Brasil dos votos, das balas e dos pobres

Neste domingo, os brasileiros vão às urnas. O candidato de esquerda, Lula, pode ganhar num país que está cada vez mais desigual e em que nem nos seus governos se conseguiu pôr em causa o poder dos muito ricos.

Lula em capanha em Fortaleza. 
Lula em capanha em Fortaleza. CréditosJarbas Oliveira / EPA

«Eu quero saber do meu marido, eles [os polícias] não querem dar informações. Não querem deixar passar, não deixam as pessoas fazerem nada. Estou com bebé de uma semana», disse, à versão brasileira do site Intercept, assustada, uma moradora do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, com uma criança ao colo.

Estas cenas repetem-se várias vezes ao longo do tempo. Mais uma vez. O Complexo da Maré acordou às 5h da manhã de segunda-feira, dia 26 de Setembro, sob tiroteio, numa operação conjunta da Polícia Militar e da Polícia Civil.

Os moradores apavorados tentavam, em vão, convencer polícias que também havia pessoas cercadas numa casa que eram trabalhadores, e não criminosos. «Foda-se», respondeu um dos agentes do Estado.

A operação polícial decorreu a menos de uma semana das eleições, em que o actual governador, Cláudio Castro, é candidato à reeleição pelo PL, um total de 180 homens foi escalado para «impedir investidas de uma facção criminosa contra outra nesta região», segundo reza o comunicado oficial.

Essa foi a razão dada para a «operação de emergência» que envolveu o Batalhão de Operações Especiais, o Bope, e a Coordenadora de Operações e Recursos Especiais, o Core, as tropas de elite da PM e da Polícia Civil, além de blindados e helicópteros.

Pelo menos 35 escolas e quatro unidades de saúde foram fechadas. Duas das principais avenidas da cidade foram bloqueadas por carros, enquanto motoristas apavorados se refugiavam por baixo dos carros no meio das linhas de tiro. A operação na Maré terminou com sete mortos e oito feridos. Familiares de José Henrique da Silva, o Zé Careca, de 53 anos, um dos assassinados na operação, afirmam que ele era inocente e foi baleado.

No balanço da operação de segunda-feira, como declara o Intercept, os mortos e feridos foram tratados como «suspeitos». Como de costume, resta aos moradores lutar para provar que seus familiares, vizinhos e amigos eram trabalhadores. E limpar o rastro de sangue, que já se tornou cena cotidiana. Só naquele mesmo dia, aconteceram outras 11 operações policiais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Nas televisões gastam-se os últimos cartuchos

Depois do último debate televisivo entre os principais candidatos presidenciais a realidade do Brasil pouco mudou. Os pobres continuam mais pobres, os ricos mais ricos e a polícia continua a invadir as favelas, matando moradores e criminalizando todos os moradores dos bairros populares.

Nas favelas, controladas pelas milícias de ex-polícias e actuais agentes, as operações são menos frequentes e o tráfico de droga floresce na mesma. Por ano, morrem mais de 62 mil pessoas de morte violenta no Brasil, uma parte significativa delas cai vítima das balas da polícia.

O Brasil é quase um continente, em que coexistem várias realidades. Um dos fundadores da Teologia da Libertação dizia que o país se devia chamar «Belíndia», porque tem cerca de 10 milhões de pessoas com o poder de compra da Bélgica e o resto das centenas de milhões com a miséria existente na Índia.

Neste sentido, uma frase como «bandido bom é bandido morto» é escutada com agrado em muitos dos bairros da classe média alta e é temida como uma sentença de bala perdida para muitas das pessoas que moram nas favelas e nos bairros pobres que cercam as grandes cidades.

Apesar disso, as empresas de estudos tentam identificar as maiores preocupações dessa entidade mítica que seria «o brasileiro comum». Um estudo do instituto Atlas, desta terça, 27 de setembro, deixa claro quais são as principais preocupações referidas pelas pessoas inquiridas no estudo. Numa pergunta sobre os principais problemas do Brasil, o instituto ofereceu uma lista de opções para os entrevistados. Corrupção ficou em segundo lugar, com 16,6% das pessoas citando-a como o principal problema do país. Só ficava atrás de outro problema: a pobreza e desigualdade social, que ficou em primeiro com 19,7% das respostas. Inflação é a terceira preocupação, com 12%. O desemprego, a sexta, com 7,4%.

As últimas sondagens dão, a Lula da Silva, 50% das intenções de voto, um valor que lhe garante já a vitória na primeira volta, enquanto os valores de Jair Bolsonaro rondam os 36%.

O debate da passada quinta-feira à noite, na rede Globo, não deverá ter tido grande influência na conquista de novos votos por parte dos dois grandes candidatos, segundo vários analistas citados na imprensa brasileira, já que acabou por se tornar num ‘campo de batalha sujo’ onde os ataques, acusações de corrupção mútuas e pedidos de defesa da honra foram a tónica.

Ainda assim, a acreditar nas sondagens, Lula não terá de ‘roubar’ mais votos à chamada terceira via política, personificada por Ciro Gomes (com 6% das intenções) e por Simone Tebet (5%), para poder festejar já no domingo.

Já na sua entrevista no programa do Ratinho [um popular programa sensacionalista da televisão do Brasil], no dia 19 de Setembro, Lula mostrou disposição para dar mais fôlego a um país que ficou sem ar. Se vencer a eleição, garante que vai aumentar o salário mínimo dos trabalhadores, estagnado há três anos. «E como é que o senhor vai aumentar o salário mínimo?», perguntou o apresentador do SBT, em sua série de entrevistas com presidenciáveis. «Aumentando!», respondeu o petista. Lula confirmou que terá no salário mínimo, uma das medidas básicas para a melhoria de vida da população, como foi já tinha acontecido com o seu governo e da sua companheira de partido Dilma Rousseff. Se sair vencedor, trará de volta a fórmula que ajudou a melhorar a distribuição do rendimento nacional durante o seu governo: vai ligar a expansão do PIB ao aumento real do salário mínimo.

No país onde 37% da população trabalhadora ganha um salário mínimo, e 68% ganham até dois salários, as preocupações de muitos eleitores parecem elementares. Estamos a falar de mães de família que passaram a cozinhar à lenha quando o preço do gás subiu de uma forma brutal, ou dos trabalhadores informais que perderam emprego na pandemia e ficaram sem o dinheiro quando o governo Bolsonaro decidiu suspender o programa social Auxílio Brasil por dois meses.

Essas pessoas, as principais vítimas da exploração e da miséria, são maioritariamente os brasileiros que apoiam o ex-presidente Lula. Na pesquisa Atlas Intel, ele tem uma imagem positiva entre 63,8% nas famílias que ganham até dois salários mínimos. Bolsonaro, que aumentou muito o Auxílio Brasil em plena campanha eleitoral, enviou um orçamento para 2023 com um corte de 59% do programa de Farmácia Popular. Não reajustou o apoio às refeições escolares, a perderem verbas desde 2017. E o salário mínimo seguiu sem o aumento real para o ano que vem.

Lula acertou no alvo para comunicar com a maiorias das pessoas que trabalham e são pobres, e isso pode dar-lhe uma vitória, à primeira volta, já neste próximo domingo. Ou no dia 30, se houver uma segundo volta. Se voltar a ser presidente, o petista ainda terá a sua hora para encarar o Brasil de Moro e Bolsonaro, com uma imprensa pronta a morder qualquer medida que não dê mais lucros aos do costume. Mas um dia de cada vez.

Não é pelo risco de golpe militar que a grande massa vai às urnas, nem, infelizmente, para salvar a Amazónia, o maior pulmão verde do planeta em risco de ruptura sem retorno. É para matar a fome de 33 milhões de brasileiros que Lula pode vencer esta eleição.

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