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Governo libanês demite-se mas milhares continuam nas ruas

Com o anúncio de Hassan Diab, milhares vieram para as ruas de Beirute exigir mais, uma mudança de raiz num sistema político que caracterizam como corrupto, incapaz e dominado pelos interesses de elites.

Zona portuária de Beirute, onde se registou a enorme explosão no passado dia 4
Zona portuária de Beirute, onde se registou a enorme explosão no passado dia 4 Créditos / Twitter

O anúncio da demissão do governo do Líbano, ontem feito pelo primeiro-ministro, Hassan Diab, segue-se à demissão de vários elementos do executivo, no contexto dos fortes protestos que se seguiram à explosão devastadora no porto de Beirute, no passado dia 4.

Num discurso transmitido pela TV, Diab disse que «seguiam a vontade do povo na sua exigência de acusar os responsáveis pelo desastre» e «no seu desejo de mudança real». Denunciou ainda aqueles que se estão a tentar aproveitar da explosão para retirar dividendos políticos.

O presidente libanês, Michel Aoun, aceitou a demissão do governo – formado em Janeiro último, depois de meses de vazio de poder, para combater a corrupção e o desgoverno no país mediterrânico –, mas pediu-lhe que se matenha em funções até que um novo executivo seja constituído, refere a PressTV.

A enorme explosão no porto de Beirute provocou a morte a pelo menos 158 pessoas e deixou feridas mais de 6000. Dezenas de pessoas ainda estão desaparecidas e mais de 300 mil foram desalojadas, uma vez que uma grande parte do Centro da cidade foi arrasada. De acordo com as investigações em curso, a explosão terá sido provocada por material explosivo confiscado guardado num armazém portuário nos últimos seis anos.

No fim-de-semana passado, muitos milhares de pessoas manifestaram-se na capital, acusando as autoridades de incompetência, de má gestão face à pior crise económica que o país enfrenta em décadas, agravada pelo contexto da pandemia e pela explosão.

Ontem à noite, milhares voltaram para as ruas, após o anúncio de demissão do governo, insistindo numa mudança de raiz num sistema político que consideram ineficaz, corrupto e dominado por dinastias e interesses sectários.

Ingerência externa e provocações

No domingo passado, o embaixador russo no Líbano, Alexander Zasypkin, alertou para eventuais manobras de ingerência, por parte dos EUA, no sentido de «enfraquecer» o movimento de resistência Hezbollah, uma das grandes pedras no sapato dos planos de dominação israelitas e uma importante força no combate ao terrorismo no Médio Oriente.

Em declarações à agência Sputnik, Zasypkin referiu-se à «delicada situação no Líbano», afirmando que as manifestações demonstram que «os problemas não desapareceram». A este propósito, fez uma distinção entre aqueles que se manifestam pacificamente contra os governantes e a conjuntura política, e os agitadores, tendo pedido a outros países que não se intrometam nas questões internas do Líbano.

Resposta do Hezbollah às armadilhas

Em declarações à HispanTV, Luis José Fernández, especialista espanhol em temas internacionais, afirmou que o Ocidente está a apoiar os protestos no Líbano, porque a sua agenda é, acima de tudo, contra o Hezbollah e a resistência.

No entanto, se parte do «plano» de agentes externos e internos passava por colocar uma armadilha à frente do Hezbollah, no sentido de provocar a divisão e alimentar o confronto sectário – algo muito favorável aos interesses de Israel –, o secretário-geral do movimento de resistência desmanchou-lhes logo a construção ao apelar à unidade e ao assumir uma lógica de Estado, num discurso transtimido pela TV.

As provocações e os intentos de desestabilização por parte daqueles que acenam com milhões em ajudas para rescontruir Beirute e, de forma neocolonialista, «exigem» reformas no país não passaram por certo despercebidos à resistência – e os seus apoiantes não caíram em tentações.

Entretanto, responsáveis políticos do Irão, país com laços estreitos ao Líbano e ao Hezbollah, já sublinharam que, se alguns dos doadores são «sinceros», então levantam as sanções que impuseram ao Líbano, em parte responsáveis pela situação económica em que se encontra.

A explosão recente, lembra a PressTV, trouxe à tona os muitos males do país, e o caminho para uma «recuperação total» será duro, para lá das «ajudas externas». As divisões são grandes e reais. Como exemplo, milhares de pessoas no país subscreveram uma petição a exigir que o Líbano fique sob mandato da França na próxima década.

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