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Em apoio aos presos, mapuches ocupam município na região de Bío Bío

A tensão persiste nas regiões da Araucânia e Bío Bío, depois dos ataques recentes ao povo Mapuche. Esta quarta-feira, cerca de uma centena ocuparam a sede municipal de Tirúa, «dispostos a resistir».

Ana Llao, indígena Mapuche, a ser presa numa manifestação; depois de libertada agradeceu o apoio e afirmou que «é o preço que os Mapuche têm de pagar por defender os seus territórios ancestrais»
Ana Llao, indígena Mapuche, a ser presa numa manifestação; depois de libertada agradeceu o apoio e afirmou que «é o preço que os Mapuche têm de pagar por defender os seus territórios ancestrais» Créditos / Piensa Prensa

Em declarações à Radio Bío Bío, o porta-voz dos ocupantes, Héctor Huenchunao, referiu que, se forem alvo de repressão, vão responder, depois de o governador da província de Arauco, na região chilena de Bío Bío, ter solicitado ao autarca de Tirúa o despejo da Câmara Municipal.

A ocupação ocorreu esta quarta-feira, num contexto de tensão persistente sobretudo na região da Araucânia, em particular desde a semana passada. Os participantes no protesto deixaram claro que a sua acção visa expressar apoio a 27 «presos políticos» mapuches que se encontram em greve de fome em várias prisões da Araucânia.

Com o protesto, pretendem igualmente repudiar as agressões que os indígenas sofreram em várias localidades – quando ocupavam as respectivas sedes municipais –, perpetradas por civis, alguns dos quais com armas de fogo, perante a passividade dos Carabineiros – um corpo policial frequentemente acusado de brutalidade contra a população originária.

Em comunicado, representantes das comunidades mapuches de Tirúa assinalaram ainda que exigem dialogar com o ministro chileno da Justiça, Hernán Larraín, com vista a encontrar uma solução para a greve de fome.

Os 27 presos mapuches que estão em greve de fome reivindicam que o governo chileno respeite a Convenção n.º 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais, que diz respeito à atenção especial que deve ser dada aos povos originários, respeitando os seus costumes e culturas.

O comunicado refere ainda que os acontecimentos deste fim-de-semana não são factos isolados, mas fazem «parte de uma estratégia violenta de repressão contra todo o nosso povo Nação Mapuche».

Fim-de-semana de grande violência contra os Mapuche na Araucânia

Na semana passada, comuneiros mapuches ocuparam vários edifícios municipais na Araucânia (Centro-Sul do Chile), para exigir ao governo que responda afirmativamente às reclamações dos presos em greve de fome.

Contudo, foram despejados com grande violência no sábado e na madrugada de domingo. As câmaras municipais de Ercilla e Traiguén foram incendiadas; em Curacautín e Victoria civis armados, alegadamente pertencentes a grupos de extrema-direita, atacaram indígenas mapuche já depois de ser declarado o recolher obrigatório, indica a Prensa Latina.

A oposição ao governo de Piñera acusou o ministro do Interior, Víctor Pérez, de ter instigado a violência, uma vez que pediu aos autarcas que despejassem os edifícios de qualquer forma, e responsabiliza o governo por falta de diálogo com os representantes dos povos originários.

Entretanto, a Câmara dos Deputados aprovou a criação de uma Comissão Especial de Investigação das acções do governo e das normas estabelecidas pelas forças de segurança durante os «acontecimentos violentos» ocorridos nos despejos dos municípios de Ercilla, Traiguén, Victoria e Curacautín.

Recorde-se que o povo Mapuche denuncia com frequência os «abusos das forças policiais e militares» instaladas nas suas terras, as que garantem a defesa dos interesses de grupos económicos, face à insistência dos Mapuche em reivindicar a autodeterminação e o reconhecimento dos seus territórios ancestrais – à semelhança do que ocorre na Argentina.

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