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Brasil: Eletronorte despede 235 trabalhadores até Fevereiro

Os trabalhadores entendem que a empresa está a ser desmantelada para justificar a privatização e alertam para o «risco muito grande de apagões» na Região Norte do Brasil.

Despedimento de técnicos de manutenção e operadores de subestação coloca o sistema em risco
Despedimento de técnicos de manutenção e operadores de subestação coloca o sistema em risco Créditos / Agência Brasil

A empresa estatal Eletronorte vai despedir pelo menos 235 trabalhadores até Fevereiro. Além dos 194 que foram notificados a 3 e 4 de Janeiro último, 19 receberam a notificação na passada terça-feira e outros 22 serão informados do despedimento até dia 1 de Fevereiro, revela o Brasil de Fato.

Estes despedimentos estão contemplados num acordo colectivo assinado com uma organização sindical em 2019, no âmbito do processo de desmantelamento do sistema Eletrobrás – que está na lista de privatizações do governo de Jair Bolsonaro. Mas os nomes dos trabalhadores visados só foi conhecido há cerca de duas semanas.

Alguns deles são técnicos da Eletronorte que se deslocaram dos estados do Pará e do Maranhão até ao Amapá para ali restabelecer a energia, após o apagão de três semanas em Novembro de 2020. Os estados mais afectados pelos despedimentos são o Pará (71) e o Maranhão (60).

Na linha da frente

O operador de subestação Ricardo Mafra, de São Luís (Maranhão), trabalha na Eletronorte há 35 anos, e recebeu a notificação do despedimento na terça-feira. Com 56 anos de idade, Mafra alerta para o risco de apagões cada vez mais frequentes.

No dia 8 de Janeiro, a capital maranhense ficou sem luz cerca de três horas. Quem restabeleceu a energia foram precisamente trabalhadores que estão na lista de despedimentos, revela o portal brasileiro.

Um trabalhador em Macapá (Amapá) a trabalhar para conseguir restabelecer o sistema após o apagão que deixou parte do estado sem energia durante quase todo o mês de Novembro / arquivo pessoal

«O Maranhão está vivendo um risco muito grande de apagões», alerta, chamando a atenção para o desmantelamento da empresa. «O operador faz o restabelecimento de quando desliga tudo. Ele está lá, 24 horas, de plantão. Não pode ficar sem ninguém. Se der algum problema, o operador é o primeiro a dar manutenção. É muita sorte ainda não ter dado um blecaute [apagão, do inglês blackout] aqui no estado do Maranhão», explica.

Na subestação onde Mafra trabalha, São Luís II, sete dos nove operadores foram informados do despedimento este mês. Também na linha da frente, em momentos de apagão, estão os técnicos de manutenção. Na divisão de São Luís, sete dos 12 técnicos já receberam carta de despedimento. Em todas as regionais do Maranhão, foram despedidos 47 técnicos de manutenção e técnicos de operação.

«Estamos entre a cruz e a espada. De um lado a Covid, do outro o Bolsonaro botando pra lascar com a gente», lamenta Mafra.

Falência do sistema

Para definir quem seria despedido, o critério usado pela Eletrobrás foi «idade e avaliação». Basicamente, integram a lista trabalhadores reformados ou próximos da reforma.

Em declarações recentes ao Brasil de Fato, Fabíola Latino Antezana, dirigente do Sindicato dos Urbanitários do Distrito Federal (STIU-DF), afirmou que o sistema Eletrobrás e os Correios estão na linha de frente das privatizações do governo brasileiro. Os despedimentos, em seu entender, fazem parte de um processo de desmantelamento para justificar a venda à iniciativa privada.

«O nosso sistema é antigo, não foi modernizado, e não temos pessoas mais novas para repor, e que conheçam esse sistema. O que se desenha é a falência total do sistema no Norte do país», disse.

O último concurso para contratação de trabalhadores ocorreu em 2008, e não há perspectiva de reposição das vagas.

Contactada pelo Brasil de Fato para confirmar os números dos despedimentos e conhecer o posicionamento da empresa sobre as críticas dos trabalhadores, a Eletronorte não respondeu.

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