|Análise

Para a Comissão Europeia, a imprensa é livre até se tornar inconveniente

Ao assinalar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a Comissão Europeia (CE) encheu as ruas com propaganda alusiva à sua (pretensa) liberdade de imprensa. Quem não viu a coerência foi Hüseyin Doğru, jornalista alemão sancionado pela CE.

Créditos / @hussedogru

Estamos numa semana propensa para a propaganda. Depois de no último domingo, 3 de Maio, se ter assinalado o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, o próximo dia 9 de Maio será o Dia da Vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, que a União Europeia tenta apagar, chamando-lhe «Dia da Europa». 

Nos últimos dias (tal como aconteceu em Portugal), as ruas da Alemanha acordaram com novos outdoors da campanha «Protegemos o que importa», dinamizada pela Comissão Europeia (CE) sob três pilares: «livre expressão», «ciência livre» e «imprensa livre». Na sua plataforma online, a CE afirma que estes são os pilares fundamentais que estão no «ADN» da União Europeia, «construída sobre os escombros de um continente devastado pela guerra e pelo autoritarismo» e que «tem trabalhado desde os seus primórdios para defender os valores democráticos». Ou simplesmente os seus valores, como aconteceu em Março de 2022, quando nos foi imposta a censura dos órgãos de comunicação social russos

Foi exactamente o cartaz «Imprensa livre. Protegemos o que importa» que Hüseyin Doğru viu no domingo, assim que saiu de sua casa, em Berlim. Doğru é um jornalista alemão que esteve à frente do promissor órgão de media digital: Red Media. Assumidamente anti-imperialista e comprometido com a luta dos povos e dos trabalhadores, o ecossistema do Red – que incluía podcasts, documentários e veículos com uma abordagem mais direccionada aos países africanos – cresceu vertiginosamente nas redes sociais, alcançando mais de 200 mil seguidores no Instagram apenas no primeiro ano e meio.

O Red denunciava os interesses do grande capital cruzando actualidades com a história dos movimentos de libertação. O Red incomodava particularmente a União Europeia, os Estados Unidos e as big techs. Incomodou tanto que, primeiro, a Meta e o Google restringiram o seu alcance, e, logo de seguida, a Comissão Europeia resolveu o problema, sancionando o fundador do projecto, Hüseyin Doğru.

«Já não me é permitido existir»

A 20 de Maio de 2025, a Comissão Europeia incluiu a AFA Medya A.Ş., empresa por onde operava o Red Media, na lista de sancionados através do 17.º pacote de sanções contra a Rússia. A sanção não apenas fez cair as plataformas do Red devido ao congelamento das contas bancárias associadas, como levou a consequências catastróficas na vida pessoal do jornalista. Doğru, que vive com a sua esposa e três filhos, tem acesso apenas a 560 euros por mês, determinados pelo tribunal; está ameaçado de despejo e a acumular dívidas, pois nem o pagamento do seguro do carro lhe é permitido; está impedido de trabalhar como jornalista, dado que qualquer remuneração pelo seu trabalho pode ser considerado uma infracção à sanção; está também proibido de viajar pela União Europeia. «Já não me é permitido existir, já não me é permitido proporcionar aos meus filhos o necessário para viver», conta o jornalista ao Electronic Intifada.

O jornalismo que incomoda

Se o foco principal do Red eram as contradições do capitalismo, o anti-imperialismo e a luta dos povos, com particular ênfase na luta dos palestinianos, onde entra a Rússia? De acordo com a Comissão Europeia, uma coisa está, obviamente, ligada à outra. Doğru foi acusado de uma série de relações com a propaganda russa, que justificam as sanções que agora fazem da sua vida um inferno (mas um inferno livre, à moda da neoliberal União Europeia).

Apesar das críticas à Rússia, o Red foi sancionado pela suas críticas concisas à NATO, pelas denúncias do envolvimento de ex-oficiais nazis na composição da instituição; foi sancionado por escancarar a repressão que manifestantes pró-Palestina sofrem na Alemanha desde o início da escalada da agressão israelita, apontar a hipocrisia da escalada armamentista dinamizada pelo chanceler alemão e por apresentar aos seus leitores as transformações concretas no mundo que só são possíveis através da organização e a acção das massas unidas. Tudo incompatível com o «ADN da União Europeia».

As acusações

A Comissão deduziu as sanções contra Doğru e o Red Media a partir das seguintes acusações: «mantêm estreitas ligações financeiras e organizacionais com entidades e actores da propaganda estatal russa, além de partilhar laços estruturais profundos, incluindo interligações e a rotação de pessoal entre a AFA Medya A.Ş. e as organizações de comunicação social estatais russas»; «divulgar sistematicamente informações falsas sobre temas politicamente controversos, com a intenção de criar discórdia étnica, política e religiosa entre o seu público-alvo, predominantemente alemão, nomeadamente através da divulgação de narrativas de grupos terroristas islâmicos radicais, como o Hamas»; «apoiar, assim, acções do Governo da Federação Russa que comprometem ou ameaçam a estabilidade e a segurança da União e de um ou vários dos seus Estados-membros». No entanto, Doğru sustenta que no documento completo, produzido pelo Serviço de Acção Externo Europeu, a que teve acesso (ainda que proibido por lei de divulgar), não consta «uma única palavra sobre a Rússia».

O jornalista não esconde que, antes de fundar o Red, trabalhou para a Redfish, uma subsidiária da Ruptly, agência de vídeos do canal de televisão estatal russo RT, onde também conheceu algumas pessoas que depois levou para o online. No entanto, Doğru afirma que, após a escalada da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em 2022, começou a sua própria empresa, financiada pelas suas poupanças e doações de leitores. 

Apesar da origem turca-curda, Doğru só tem cidadania alemã, país onde nasceu e cresceu. No entanto, a origem da sua familía e o registo da empresa AFA Medya A.Ş em Istambul foram motivos suficientes para a Comissão Europeia identificar Doğru como turco. Numa entrevista recente, o jornalista afirmou que não se tratar apenas de racismo, mas de uma medida calculada para lhe negar ainda mais direitos. Enquanto cidadão europeu, Doğru tem direito a uma audiência e defesa em tribunal antes da publicação da sanção mas, como foi identificado como turco, foi automaticamente sancionado sem o benefício desta audiência. «Não há tribunal, nem audiência, nem nada, 27 ministros das Relações Exteriores da UE reúnem-se a portas fechadas, apenas eles decidem sanções», conta numa entrevista recente ao Bianet.

O binarismo vai proteger-nos

A Comissão Europeia sabe que os tópicos que o Red tratava não eram propaganda russa nem desinformação, mas as sanções serviram o seu propósito. Com elas, a CE pode calar uma voz activa pela Palestina e contra o governo genocida de Israel; pode interromper as críticas às agressões na Alemanha; pode cessar quem denuncie a política de medo e guerra da NATO; pode mostrar serviço e utilidade às sanções que têm tido pouco ou quase nenhum efeito sobre a Rússia. Em benefícios dos interesses que protege, Bruxelas apresenta a crítica da União Europeia, da NATO e de Israel de forma enviesada, como se o mundo fosse uma moeda e só tivesse dois lados.

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