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A militarização na Europa ameaça os trabalhadores e a protecção social

Partidos de esquerda, organizações sindicais e de defesa da paz alertam que o rápido rearmamento da Europa está a prejudicar os direitos dos trabalhadores, os sistemas de protecção e a segurança social.

Organizações juvenis em Berlim, na manifestação anual para recordar o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, exibiram faixas em defesa da paz e solidárias com a Venezuela, Cuba e Palestina Créditos / unsere-zeit.de

A militarização da Europa avança rapidamente, e tudo, desde os orçamentos públicos às narrativas mediáticas, é cada vez mais moldado por uma lógica belicista. Este foi um dos principais alertas erguidos por sindicalistas, personalidades políticas de esquerda e activistas pela paz durante um debate organizado a semana passada pelo International Peace Bureau e pela rede Não à Guerra – Não à NATO, destaca o Peoples Dispatch esta terça-feira.

No âmbito da União Europeia (UE), Marc Botenga, deputado belga do PTB ao Parlamento Europeu, alertou que as regras e garantias existentes estão a ser postas de lado para acelerar a nova estratégia militar-industrial.

Referiu-se a debates recentes sobre os chamados pacotes legislativos abrangentes (omnibus), em particular a propostas destinadas a facilitar as operações da indústria de armamento em detrimento dos direitos dos trabalhadores, da protecção ambiental e dos sistemas de protecção social.

Todas as medidas introduzidas no âmbito do que Botenga classificou como uma agenda de militarização das regras têm claras consequências sociais. No entanto, os altos funcionários da UE mantêm-se em silêncio sobre esta dimensão dos planos que defendem, refere a fonte.

«Militarização das mentalidades»

Não são apenas as regulamentações que estão a ser reformuladas: a mentalidade das pessoas também está a ser militarizada, concordou a sindicalista alemã Ulrike Eifler. Ao intervir, destacou o empenho do governo de Merz em cumprir a meta de despesas de 5% da NATO até 2029 e em tornar a Alemanha «pronta para a guerra» até lá.

No âmbito desta agenda, acrescentou, o pensamento militarista está a ser normalizado em toda a sociedade, incluindo em espaços públicos quotidianos, como piscinas e escolas. Nalgumas regiões alemãs, frisou, os professores já estão a ser pressionados para convidar os soldados para as salas de aula, presumivelmente para familiarizar os alunos com as perspectivas de uma carreira militar.

Ao mesmo tempo, refere o Peoples Dispatch, tanto Eifler como Botenga salientaram que os sistemas de protecção social já estão a sofrer o impacto dos cortes feitos para acomodar o aumento das despesas com a defesa. «Cada euro que foi destinado ao exército já está a faltar na justiça social», declarou Eifler.

Caso o governo persista no rumo actual, os analistas do maior sindicato do sector público da Alemanha, o ver.di, estimam que os fundos sociais poderão estar efectivamente esgotados já no próximo ano, acrescentou Eifler.

O processo será acompanhado por dias de trabalho mais longos e menos tempo livre para os trabalhadores – mais uma prova, argumentou, de que toda a guerra, e toda a preparação para a guerra, não é mais do que um «ataque intensificado de classe».

Resistência à guerra a ganhar força

No entanto, a resistência à guerra também está a ganhar força. Estudantes, organizações sindicais e outros grupos interrogam-se cada vez mais sobre as consequências de uma Europa inteiramente militarizada para as suas vidas e os seus meios de subsistência, e começam a organizar uma resposta.

Na Alemanha, dezenas de milhares de estudantes estão a preparar novas greves contra a possibilidade de serem recrutados à força, enquanto na Grã-Bretanha as estruturas sindicais alcançaram avanços notáveis ​​na resistência à militarização no seio das suas próprias fileiras.

Alex Gordon, co-presidente da Campanha pelo Desarmamento Nuclear (CND, na sigla em inglês), explicou como os sindicatos britânicos conseguiram desafiar com êxito resoluções aprovadas pelo Congresso dos Sindicatos (TUC) em 2022 que viam com bons olhos o investimento na defesa, com o argumento de que «a indústria da defesa cria empregos».

Gordon referiu-se ao papel central desempenhado pelo University and College Union (UCU, o principal sindicato britânico dos trabalhadores do ensino superior) na defesa de uma moção que advogava «salários e não armas», mostrando-se contrária ao investimento nos fabricantes de armas e a favor de políticas que sustentam os serviços públicos e beneficiam os trabalhadores.

Com Botenga a alertar que o processo de militarização da Europa está a desenrolar-se ao longo de meses e não de anos – refere o Peoples Dispatch –, os participantes no debate sublinharam que alargar esta resistência é essencial para encravar a actual trajectória e para redefinir o papel da UE e de toda a região.

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