De acordo com a investigação realizada pela Señal Investigativa, uma parceria entre a Señal Colombia e a revista Raya, o Projecto Júpiter não é uma conspiração fantasiosa saída da ficção, mas sim a demonstração clara do esforço dos milionários colombianos para impedir que o país volte a ter um progressista a seu leme.
Para isto importa explicar o que é o Projecto Júpiter. Criado por Jaime Bermúdez Merizalde, ex-ministro das Relações Exteriores do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez e arquitecto de comunicação que o levou ao poder pela primeira vez em 2002, o Projecto Júpiter é uma operação que procura viciar o resultado das eleições presidenciais que irão ter lugar no dia 31 de Maio de 2026. O objectivo é simples: impedir que o progressista Iván Cepeda Castro, senador e membro do Pacto Histórico, vença as eleições, e projectar as candidaturas de Paloma Valencia, representa o partido de Uribe, o Centro Democrático, e Abelardo de la Espriella, ambos de direita e extrema-direita respectivamente.
O plano, bem delineado, opera, então, em duas frentes. A primeira envolve workshops de doutrinação para trabalhadores de grandes empresas. A segunda envolve a produção em massa de conteúdo de desinformação nas redes sociais para moldar a opinião pública, em parte através do portal de notícias digital La Silla Vacía.
O Projecto Júpiter começou a ser edificado no dia 8 de Março de 2026, cinco dias antes das eleições legislativas. Ao estilo da máfia, Bermúdez apresentou o plano a líderes empresariais da Câmara Colombiana de Infraestrutura, em Cali, o que explica que até 3 de Março tenham sido arrecadados mais 7 milhões de pesos colombianos, aproximadamente 1,7 milhões de dólares.
Sob a fachada de uma palestra sobre negócios, empreendedorismo e democracia, conforme explica a Telesur, Bermudez apresentou um conjunto de slides que explicava a estratégia em duas fases para incitar a indignação contra o Governo de Gustavo Petro e identificar os responsáveis, com três emoções-alvo: medo, indignação e incerteza.
Se por um lado a componente da desinformação é prática comum de toda a extrema-direita, a mais inovadora e assustadora são as sessões de doutrinação política dos trabalhadores durante o horário de trabalho. Este é o elemento chave do Projecto Júpiter que comprova que os milionários, em prol dos seus interesses de classe, estão dispostos a tudo. Somente em Fevereiro de 2026, foram realizadas 31 sessões em 13 empresas na região do Valle del Cauca. Entre as empresas participantes estão a Postobón, a maior empresa de bebidas do país; a Incauca S.A.S. e Ingenio Providencia S.A., as principais empresas de açúcar; e a família Carvajal , um dos maiores grupos empresariais da Colômbia.
Conforme afirma a investigação da Señal Investigativa, os cursos de doutrinação ideológica foram concebidos para operários e técnicos superiores. Até 3 de Março, o projecto tinha já alcançado mais de 40 000 trabalhadores, estimando-se que as actividades se possam prolongar até ao término do processo eleitoral.
Para já, o Ministério do Trabalho já recebeu queixas relativas a 31 empresas e Sandra Milena Muñoz, vice-ministra das Relações Laborais e Inspeção, afirmou que foi registado «um número significativo de denúncias que poderiam ser qualificadas como coacção eleitoral», apresentadas por trabalhadores e estruturas sindicais.
«Estamos a receber documentação sobre factos que constituem acções de coação eleitoral contra os trabalhadores, uma coacção que é protagonizada pelos dirigentes das empresas ou pelos próprios empregadores», afirmou também o ministro do Trabalho, Antonio Sanguino à Señal Investigativa.
A situação reveste-se de maior gravidade quando o artigo 49.º do Código do Trabalho colombiano proíbe os empregadores de pressionarem os seus trabalhadores no exercício da sua liberdade política. Sanguino foi categórico ao anunciar que o Ministério abrirá inquéritos administrativos e enviará cópias à autoridade eleitoral e ao Ministério Público pelo crime de coacção eleitoral, uma prática que se alarga posteriormente às redes sociais.
Esta não é a primeira vez que a rede de Álvaro Uribe Vélez realizou uma campanha de desinformação em larga escala. Em 2016, Uribe liderou a campanha pela rejeição do acordo de paz com as FARC, que o então presidente Juan Manuel Santos negociou. O responsável por essa campanha à data admitiu posteriormente que a estratégia se baseou em mobilizar os eleitores a partir da raiva. O «Não» venceu por uma margem estreita. Assim como nessa altura, também hoje os democratas estão convocados a fazer frente ao grande capital revanchista, sabendo que a luta de classes está bem viva.
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