Ao comentar declarações de Flávio Bolsonaro num «evento conservador» realizado nos Estados Unidos (CPAC), o jornalista afirmou que esse alinhamento não é episódico, mas parte de uma tradição política da direita brasileira, que, em seu entender, aposta que esse comportamento pode até render apoio nas urnas.
Para Altman, o posicionamento de Flávio Bolsonaro deve ser lido como expressão política e também como cálculo eleitoral. «É um insulto ao país. É evidente que isso desmascara o caráter entreguista, traidor da extrema-direita e do bolsonarismo», afirmou numa edição recente do programa «Bom Dia 247».
Na análise do jornalista, o bolsonarismo actua em sintonia com os interesses de Washington e transforma essa associação em discurso político. «Eles são agentes do governo Trump dentro do Brasil. Eles são agentes estrangeiros, evidentemente», declarou.
Esse comportamento não decorre apenas de uma afinidade ideológica, mas também de estratégia de campanha: «Além de ser uma identidade ideológica, é um cálculo. O cálculo é de que essa identidade com os Estados Unidos cala fundo numa parte importante do país, que isso é atrativo para uma parte do eleitorado.»
Alinhamento da direita com os EUA não é de hoje
Altman enquadrou essa leitura numa tradição mais ampla da direita brasileira, uma vez que, em seu entender, o alinhamento subordinado a potências estrangeiras não começou com o bolsonarismo, embora tenha adquirido maior intensidade com a extrema-direita actual.
«Tradicionalmente a direita brasileira é entreguista desde priscas eras», disse. Para sustentar essa linha de raciocínio, citou o ex-governador Carlos Lacerda, lembrando a sua articulação com os Estados Unidos durante o período de João Goulart. «Ele vai aos Estados Unidos conversar com John Kennedy para pedir um golpe no Brasil», afirmou.
Ao desenvolver o argumento, Altman declarou que «a burguesia brasileira [...] é antipatriótica e arrasta boa parte da classe média nesta mesma lógica».
Embora exista no país sul-americano um sentimento nacional difuso, parte das elites mantém uma visão subordinada em relação aos centros de poder estrangeiros, considerou, afirmando que «olham para os Estados Unidos como antes olhavam para a Europa, um olhar colonizado, um olhar ajoelhado diante dos Estados Unidos».
Nesse contexto, o bolsonarismo aparece – na sua perspectiva – menos como excepção e mais como expressão concentrada de uma cultura política antiga. «A extrema-direita brasileira, o bolsonarismo, essa corrente expressa esse sentimento das elites brasileiras», afirmou, rejeitando a ideia de que esse comportamento seja algo estranho à história política brasileira. «Não é algo que nunca vimos antes», apontou.
Cálculo eleitoral da extrema-direita vs. soberania nacional
Breno Altman destacou ainda que, na leitura da extrema-direita, o custo eleitoral desse alinhamento tende a ser baixo. «É um cálculo eleitoral de que eles vão ganhar voto com isso. Eles não acham que vão perder voto com isso», disse.
Ou seja, na sua análise, a adesão pública a interesses estrangeiros não seria, para esse campo político, um problema de imagem, mas uma forma de mobilizar parte do eleitorado.
Ao comentar as implicações deste quadro, o jornalista defendeu que a disputa política passe também pela questão da soberania nacional. Em seu entender, o confronto com o bolsonarismo exige que se explicite que correntes políticas defendem a soberania nacional e «quem é a corrente política que é contra a nação».
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