|João Rodrigues

Não sejais sectários, sejamos dialéticos

Unidade nos piquetes de greve, no movimento da paz, nas votações possíveis na AR, mas não falsa unidade, sobretudo quando está em causa o apoio à corrida armamentista que vai escavar o Estado social e o resto das nossas vidas.

Créditos / The British Academy

Há quem se queixe do contraste entre a putativa atitude «sectária» dos comunistas portugueses hoje em dia e a cultura antifascista, de recorte unitário, que foi a sua antes e depois do 25 de abril.

Não tenho mandato dos comunistas portugueses, claro, digo simplesmente o que penso. E, visto de fora, creio que não existe diferença no método comunista de análise-ação concreta, sobre a situação concreta. E as diferenças que existem devem tudo às distintas circunstâncias históricas.

Em primeiro lugar, e lembrando Amílcar Cabral, que os comunistas portugueses valorizaram como poucos aquando do seu centenário e que a Vida Justa mobilizou para efeitos de clarificação, não se trata nunca de «unir todos em torno da mesma causa, por mais justa que ela seja, de realizar a unidade absoluta, de unir-se não importa com quem».

Em segundo lugar, detenhamo-nos um pouco mais demoradamente no pensamento de Álvaro Cunhal, muitas vezes referido genericamente como fonte de autoridade unitária, mas raramente lido e interpretado. 

Em 1964, no presciente Rumo à Vitória, Cunhal apela à mais ampla unidade antifascista, mas com um programa de transformação substantivo, de resto em grande parte materializado na Constituição da República Portuguesa, em 1976, e com clarificações necessárias. Cunhal critica, por exemplo, a oposição colonialista, otanizada e europeizada. 

Poucos anos depois, fustigará as ilusões marcelistas, de transição por cima, de alguns setores oposicionistas, os mesmos que geraram a divisão CDE/CEUD [Comissão Democrática Eleitoral/Comissão Eleitoral de Unidade Democrática]. E não esqueçamos a igualmente justa crítica ao esquerdismo num livro com um título profético, dada a posterior evolução de tantos jovens estudantes privilegiados, que então faziam o serviço revolucionário obrigatório: O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista. Cunhal prolonga criativamente a linha argumentativa do marxismo, com a dívida a Lénine plenamente reconhecida.

«Em 1964, no presciente "Rumo à Vitória", Cunhal apela à mais ampla unidade antifascista, mas com um programa de transformação substantivo, de resto em grande parte materializado na Constituição da República Portuguesa, em 1976, e com clarificações necessárias.»

O método de Cunhal é claro, como procurei defender em A economia política do antifascismo e outros ensaios: a unidade antifascista exige sempre distinções politicamente justas e eticamente produtivas, tanto mais importantes quanto mais se quer unir. 

Das propostas de Governo de esquerda à solução governativa, passando por milhares de votações na Assembleia Constituinte e da República, pelo apoio a Soares e a Seguro na segunda volta das eleições presidenciais, respetivamente de 1986 e de 2026, nunca os comunistas faltaram à chamada unitária depois de abril, sem se deixarem diluir e iludir ideologicamente, ponto muito importante para quem sabe persistir, qualquer que seja a maior ou menor força momentânea.

Em terceiro lugar, e de forma relacionada, devolvo a acusação: os que querem evitar debates e clarificações necessárias, são os que subjetiva e objetivamente estão relaxados face à atual relação de fraquezas numa certa esquerda colonizada pelo neoliberalismo, militarismo e federalismo da UE. Há hoje muito cinismo em quem deseja silêncio, o dos cemitérios. E há muito anticomunismo, como é óbvio.

E este sectarismo não pode ser tolerado, estamos vivos e não somos parvos. Unidade nos piquetes de greve, no movimento da paz, nas votações possíveis na AR, mas não falsa unidade, sobretudo quando está em causa o apoio à corrida armamentista que vai escavar o Estado social e o resto das nossas vidas ou a correlativa complacência em relação ao mortífero imperialismo, da Palestina a Cuba, da Líbia ao Irão. 

E criticar sempre: a esquerda precisa mesmo de debates rasgados, dada a podridão ideológica que se acumulou, décadas de neoliberalismo e de pós-modernismo combinados. Arma da crítica, crítica das armas, tudo ao mesmo tempo, em todo o lado. Sempre foi assim que se progrediu, dialeticamente.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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