Na passada quarta-feira, o The Washington Post anunciou o despedimento de centenas de trabalhadores. Embora não tenha revelado o número exacto, pelo menos 300 dos 800 jornalistas foram afectados, segundo avançou o New York Times.
Não deixa de ter interesse o facto de Jeff Bezos, dono da Amazon, ter comprado o The Washington Post por 250 milhões de dólares para, supostamente, salvá-lo. Ao The New Yorker, Ruth Marcus, ex-jornalista do «Post», recorda a primeira reunião com Bezos quando era editora-adjunta: «As palavras de Bezos naquela reunião, sobre «uma nova era de ouro para o Washington Post», foram tranquilizadoras».
Curiosamente, as promessas de Jeff Bezos não corresponderam à realidade. Aparentemente os despedimentos devem-se à dificuldade do jornal gerar receita e, como tal, cortes eram necessários. Acontece que as demissões aconteceram cinco dias depois do lançamento do documentário sobre a primeira-dama norte-americana, Melania Trump, financiado pela Amazon MGM Studios e que obrigou a investimento de 75 milhões de dólares por parte de Bezos e, como seria de esperar, deu avultados prejuízos.
As críticas, vão no entanto, mais longe e fazem uma correlação entre as ligações de Bezos a Trump. Se no caso do The Washington Post, Bezos não hesitou em despedir 300 jornalistas, no caso de um documentário totalmente irrelevante não hesitou em apoiar um conteúdo que nada mais parece que propaganda de Estado.
Está, talvez, nesta proximidade a Trump a razão de todos os despedimentos já que para Bezos o prejuízo era próximo de nada, dada a escala da sua fortuna. Conforme recorda o The Guardian, os primeiros sinais de alerta para o The Washington Post surgiram em Outubro de 2024, quando Bezos retirou do jornal o apoio que o «Post» planeava dar à candidata democrata Kamala Harris, rival de Trump, apenas 11 dias antes da eleição presidencial.
Na tradição americana, os jornais costumam ter um posicionamento político e isso é encarado com uma forma de liberdade de expressão, ainda mais no The Washington Post, jornal com um importante papel na denúncia do escândalo do Watergate. Mais uma vez, Bezos não quis saber, e ao seu papel censório seguiu-se uma onda de repulsa pública, que levou ao cancelamento de pelo menos 250 000 assinaturas do jornal. Ou seja, o milionário promoveu a degradação do jornal premeditadamente, sabendo-se de antemão que tal iria gerar controvérsia e prejuízo financeiro.
Como se tal não fosse suficiente, o milionário impôs, unilateralmente, uma mudança drástica na linha editorial do jornal, focando as páginas de opinião na defesa de «dois pilares» que para si tinham que ser a imagem de marca do jornal: liberdades individuais e mercado livre.
Segundo Eduardo Porter, colunista de economia do The Guardian e do The Washington Post, «essa camada de dogmas minou o pensamento crítico» e «transformou o Post em algo mais parecido com uma igreja, com restrições rígidas ao pensamento», lembrou. Como tal, vários foram os pedidos de demissão do jornal.
O histórico recente da relação do poder da Administração Trump com a imprensa tem revelado que a censura está bem viva nos EUA e não precisa de ser feita através do lápis azul, pode ser feita de outras formas. Trump cortou mais de mil milhões de dólares em financiamento federal dos canais públicos de radiodifusão NPR e PBS, lançou ataques frontais contra jornalistas e veículos de comunicação que expunham a sua corrupção e mentiras, e manteve uma campanha de intimidação contra proprietários de empresas, com o objectivo de coagi-los à subserviência.
O The Washington Post tem como lema a frase «A democracia morre nas trevas». No entanto, nos EUA a democracia está a morrer à luz do dia e os seus carrascos são os multimilionários, dispostos a tudo para manter o seu poder.
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