|Maria João Rendas

Para fomentar a «adesão» à IA generativa, até o Papa Leão XIV é censurado

Avisa que «a falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes».

Créditos / Agência Ecclesia

No passado dia 24 de Janeiro, o Vaticano difundiu a mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinalará no próximo dia 17 de Maio de 2026. Esta efeméride anual foi estabelecida pelo Vaticano em 1963. 

Na sua mensagem, relembra que o rosto e a voz são elementos constitutivos da identidade de cada ser humano, fundamental na sua interação com os outros seres humanos. Não negando os potenciais benefícios associados à Inteligência Artificial, alerta para a sua falta de fiabilidade, e sobretudo para os perigos sociais da manipulação generalizada («persuasão oculta») que estas ferramentas vulgarizam, não só pela produção passiva de informações falsas, fabricando «realidades paralelas», inclusive apropriando-se dos rostos e vozes de pessoas reais. Avisa que «A falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes.» 

Exorta os fornecedores de plataformas, os criadores e desenvolvedores de algoritmos, os legisladores e as empresas de mass media para a necessidade de colaborarem, para assumir as suas responsabilidades na resposta aos vários efeitos negativos que podem resultar de uma difusão e utilização destes sistemas. Para além destes actores institucionais, lembra que toda a sociedade se deverá envolver neste esforço: em particular, os educadores, e apela a educar as populações, a todos os níveis de ensino, para uma utilização responsável e segura da Inteligência Artificial.  

«Não negando os potenciais benefícios associados à Inteligência Artificial, alerta para a sua falta de fiabilidade, e sobretudo para os perigos sociais da manipulação generalizada ("persuasão oculta") que estas ferramentas vulgarizam (...).»

Em Portugal, esta mensagem do Papa teve eco apenas num punhado de sites de informação, essencialmente ligados à Igreja Católica (várias Dioceses, Agência Ecclesia,…), que ecoam a exortação a introduzir «a alfabetização mediática nos sistemas educacionais», assim como os diferentes perigos que são evocados na mensagem papal. Curiosamente, tanto o jornal Público como o Expresso, que noticiaram recentemente outras mensagens do Papa Leão XIV, abstêm-se de qualquer referência neste caso, que surge oportunamente apenas alguns dias depois da publicação pelo Governo da Agenda Nacional De Inteligência Artificial e do Pacto das Competências Digitais, em seguimento exemplar da filosofia «AI First» promovida pela União Europeia, ver as estratégias Apply AI Strategy e AI in Science Strategy recentemente avançadas.  

Ficou assim, convenientemente, silenciada uma outra advertência importante veiculada na mensagem de Leão XIV, que aponta abertamente para os riscos decorrentes da estrutura de poder capitalístico por trás dos actuais instrumentos da Inteligência Artificial: «Por trás desta enorme força invisível que a todos envolve, está apenas um pequeno grupo de empresas, cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da «pessoa do ano de 2025», ou seja, os arquitectos da inteligência artificial. Isto suscita uma preocupação importante em relação ao controlo oligopolístico dos sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de orientar subtilmente os comportamentos e até mesmo de reescrever a  história da humanidade […]». 

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