|Júlio F. R. Costa

Uma estética das sondagens

As sondagens cumpriram todas a sua função: canalizar os votos para os candidatos que favorecem o regime neoliberal. Por muito que tenham falhado nos números, acertaram na intenção.

Não precisamos de estar muito perto de eleições para que, carregadas de segundas intenções, várias empresas da especialidade andem a sondar por aí. Os resultados desses inquéritos, quando publicados, são alvo de comentários até à exaustão. Os comentadores, nos vários meios de comunicação social, discutem intenções de voto como se fossem resultados definitivos. Com segundas intenções e terceiras até, a atenção mediática é dividida (mais ou menos) consoante as percentagens das sondagens e vice-versa – gorando, à partida, as hipóteses de qualquer outro candidato fora do «consenso». Isto é mais ou menos consensual.

Temos assistido a como os números são capazes de mexer com as sensibilidades, ferir susceptibilidades e dar força às maiores alarvidades. Ainda em 2024, a Intercampus apresenta-nos várias intenções de voto em relação a personalidades da nossa praça: 23,2% para Gouveia e Melo, 13,9% para Pedro Passos Coelho, Marques Mendes com 9,8%, André Ventura nos 6,6%, Mário Centeno com 6,4%, Ana Gomes com 5,1% e António José Seguro abaixo com 4,7%. A lista dos possíveis futuros Presidentes da República começava a ser feita. Entre o consenso neoliberal, mais ou menos extremado, davam-nos a lista dos itens que podíamos consumir. A esquerda nem precisava de ser sondada, ou de ter os resultados publicados. O almirante era dado como o incontestável vencedor – durante largos meses as sondagens assim o apontaram. A sensibilidade construída e transmitida em relação ao então chefe do Estado-Maior da Armada era de «herói das vacinas», o homem de pulso firme que tinha salvado o país da pandemia da Covid-19. Para puxar ainda mais o lustro, era pintado como o homem apartidário – mais tarde viria a dizer que o seu partido era Portugal. As suas posições em relação aos mais variados assuntos, mesmo após a primeira volta, na qual obteve 12,32%, permanecem uma incógnita. 

Depois de umas quantas toadas a deixar pouco suspense no ar, algumas hesitações e outros recuos, foram sendo anunciadas e oficializadas as candidaturas. No início de Fevereiro de 2025, Marques Mendes (11,3%), a reboque duma presença televisiva frequente, oficializou a sua candidatura Marcelo 2.0. O almirante, numa caminha confortável de sondagens (35,6%, em Março!), anunciou a sua candidatura a Belém durante a campanha para as eleições legislativas de 2025, em Maio. Seguro (31,12%) meteu o pescoço completamente fora do buraco, em Junho de 2025. António Filipe, perante um vazio de candidaturas capazes de cumprir e fazer cumprir a Constituição, anuncia a sua candidatura em Junho. Cotrim de Figueiredo (16,01%) anuncia em Agosto; e a outra candidatura reaccionária (23,52%), depois de muita berraria, chegaria oficialmente em Setembro. Catarina Martins, em Setembro. Jorge Pinto, em Novembro. Anúncios e oficializações à parte, já havia sondagens para todos os gostos, sempre com Gouveia e Melo à frente, a larga distância dos restantes. Para o efeito aqui pretendido, não necessito de colocar os resultados da «esquerda», mas não se pode deixar de sublinhar a contribuição que as sondagens e o silenciamento mediático tiveram para esses resultados – bem como os debates em torno de assuntos acessórios e os preconceitos ideológicos a arrastar e mistificar bichos-papões.

Entretanto, começaram a surgir os «empates técnicos». Em Julho, Gouveia e Melo «cai a pique» nas sondagens, batendo nos 20,6%. Para Marques Mendes, 17,2%. Para Seguro, 16,5%. O candidato da extrema-direita aparecia com 10,6%, sem ter oficializado a candidatura. Os números apresentados, assentes na narrativa mediática, davam conta dos únicos candidatos em que valia a pena votar – os restantes seriam votos inúteis. Não interessava as posições em relação às questões fundamentais da República. Quando entrevistados, os candidatos fora do consenso (neoliberal) eram chamados a comentar o que os «candidatos das sondagens» disseram ou fizeram – como se as suas próprias posições (e posições próprias) não interessassem para nada. A mensagem aos eleitores estava dada e era repetida vezes sem conta.

«Não se pode deixar de sublinhar a contribuição que as sondagens e o silenciamento mediático tiveram para esses resultados – bem como os debates em torno de assuntos acessórios e os preconceitos ideológicos a arrastar e mistificar bichos-papões.»

 

As sondagens têm um efeito de manutenção. Os candidatos mantêm-se à tona porque falam deles. A «faladura» é justificada porque estão em altas nas sondagens. Só vale a pena falar dos (e com) candidatos que apresentam valores altos nas sondagens. Foi esse o critério, por exemplo, da CNN International Summit ao convidar apenas os quatro candidatos Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes, António José Seguro e André Ventura como oradores. Uma sondagem da Pitagórica punha Marques Mendes à frente (22,6%), seguido de Gouveia e Melo (21,1%), Seguro (17,4%) e Ventura (14,7%). Cotrim de Figueiredo registou 12,6% das intenções de voto, o que não lhe valeu o convite para o evento. O liberal fez uma birra que surtiu algum efeito – o próprio admitiu ter aprendido com o seu parceiro de extrema-direita (diferem no polimento, às vezes), os vídeos para as redes, fazer “barulho”, chamar tudo de socialismo.

Entrados na campanha eleitoral, as sondagens passaram a ser diárias. A 9 de Janeiro, a Pitagórica apresentava as intenções de voto: André Ventura, 20,5%; António José Seguro, 19,7%; Cotrim de Figueiredo, 19,2%; Gouveia e Melo, 17,2%; Marques Mendes, 16,8%. A 13 de Janeiro, o barómetro da Católica colocava Ventura à frente com 24%, Seguro com 23%, Cotrim com 19%. A 14 de Janeiro, a Intercampus dá Ventura com 18,6%, Marques Mendes com 15,3%, Cotrim com 14,3%. Mais ponto percentual, menos ponto percentual, as sondagens vão mantendo à tona esses candidatos. Dizendo respeito a segundas voltas, qualquer um dos candidatos ganharia contra o candidato apoiado pela corja 1143. E podíamos apresentar muitas mais sondagens, estudos de opinião, barómetros, tracking polls. A maior parte batem todas no mesmo. Cumpriram todas a sua função: canalizar os votos para os candidatos que favorecem o regime neoliberal. Por muito que tenham falhado nos números, acertaram na intenção.

O assombro perante a catástrofe tolda as escolhas. A possibilidade dum Presidente da República fascista melindra a sensibilidade de qualquer democrata. Alguém que prese a democracia, perante a possibilidade duma segunda volta entre Cotrim e Ventura, sente um arrepio na espinha digno da aparição duma alma penada. Seguro lucrou com esse gelar dos ânimos, apelando ao voto útil da esquerda – quando os candidatos que mais se aproximavam de si estavam à sua direita. Assim, surge uma segunda volta entre Seguro e Ventura. Por amor à democracia, vemo-nos obrigados a votar no menos mau, naquele que não destrói a democracia de forma directa e instantânea, naquele que fará com que tudo fique mal na mesma e talvez não vá desta para pior. 

«Quando entrevistados, os candidatos fora do consenso (neoliberal) eram chamados a comentar o que os "candidatos das sondagens" disseram ou fizeram – como se as suas próprias posições (e posições próprias) não interessassem para nada.»

 

As sondagens em relação à segunda volta também merecem uma breve consideração: as percentagens altas de Seguro podem promover a abstenção. Os eleitores, tanto à esquerda como à direita, não se revendo em nenhum dos dois candidatos, achando que a vitória de Seguro está garantida, podem dar ouvidos ao sapo que estão prestes a engolir e ficar em casa a afagá-lo para outra ocasião. 

O grande capital não despreza Ventura, muito pelo contrário, ele é uma peça fundamental para a sua manutenção, no contexto actual. Como vencedor das eleições tudo faria para cumprir com os ditames dos donos. Como falso pária serve de agente mobilizador por contradição – ou seja, vence o discurso demagógico da «moderação», aquilo que é preciso fazer para evitar a catástrofe, mantendo tudo tal como está. É necessário derrotar a extrema-direita nestas eleições; porém, o fascismo somente será derrotado quando triunfarem as forças progressistas. 

Permito-me ainda algumas menções honrosas. No âmbito duma estética mais visual, um «truque» comum são as imagens que destacam determinado candidato com uma percentagem global mais baixa, mas com valor considerável dentro de determinados critérios: faixas etárias, habilitações literárias, espectro político, subidas recentes, etc. Também aparecem imagens de certo candidato em grande destaque, apesar de ter uma percentagem mais baixa que os adversários. O tamanho das barras dos gráficos muitas vezes não corresponde aos valores percentuais e não seguem uma proporcionalidade em relação aos restantes candidatos. Para não falarmos das sondagens falsas divulgadas com bastante recorrência principalmente por uma das candidaturas.

Rematando a análise das sensibilidades com a minha sensibilidade em relação ao assunto: tenho a sensação de que o jogo está extremamente viciado.

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