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Responder às crises que hão-de chegar

Chegou a hora de revisitar tudo o que era dado por adquirido quanto à problemática da robustez dos Estado e da sociedade para enfrentar, de forma eficaz e eficiente, grandes catástrofes.

Ambulâncias preparam-se para transportar doentes com Covid-19. Hospital Fernando Fonseca, Amadora, a 27 de Janeiro de 2021. Uma equipa de médicos, enfermeiros e auxiliares acompanhou 19 pacientes na sua transferência para o Hospital da Luz, em Lisboa, devido à sobrecarga de internamentos no hospital que serve os concelhos de Amadora e Sintra
O sistema de Saúde Pública em Portugal foi submetido a uma dura prova de esforço pela pandemiaCréditosMÁRIO CRUZ / LUSA

Há quase um ano que Portugal e o mundo enfrentam uma das mais graves crises sanitárias dos últimos dois cem anos, provocada pela pandemia da Covid-19.

Na História da Humanidade estão inscritos determinados acontecimentos de origem natural que pelas suas consequências disruptivas (a todos os níveis), influenciaram o rumo da história. No caso particular do nosso país o melhor exemplo deste facto é o Terramoto de 1755, que à época levantou um amplo conjunto de questões políticas, filosóficas, científicas e religiosas, suscitadas pelo impacto que causou na cidade de Lisboa e na sua população.

A pandemia que estamos a viver, da qual resultou até à data a morte de cerca de 2 milhões e 350 mil pessoas no mundo e quase 15 mil em Portugal, arrasta também consigo uma grave crise de natureza económica e social, que nos próximos anos vai marcar a vida de milhões de cidadãos em todo o mundo.

«Os nossos sistemas de Segurança Interna, Defesa, Saúde Pública e de Proteção Civil precisam de se potenciar através da edificação de um Sistema de Gestão de Crise, capacitado com os melhores quadros que o país disponha nas várias áreas anteriormente referidas, apoiado pela academia e legitimado pelos órgãos de soberania»

Assume particular urgência que se estude este evento natural e as suas consequências, no contexto dos sistemas político, social, económico e sanitário, de modo a que dele se possam extrair as devidas lições, nomeadamente para que se questionem as opções que, em cada país, padronizam a matriz de resposta a crises, de qualquer natureza.

É certo que ninguém estava preparado para responder de forma planeada às múltiplas disrupções provocadas pela pandemia, embora ao ouvirem-se alguns especialistas e «especialistas tudistas» – clarificando, os especialistas de tudo –, possa ficar-se com a ideia de que eles já detinham o saber e as soluções para tão complexa situação.

Manda o rigor e a honestidade intelectual reconhecer que em março de 2020 ninguém tinha certezas de nada e que durante vários meses todos – mas mesmo todos – andaram à procura de um caminho para controlar e mitigar os efeitos de uma pandemia que alastrou rapidamente por todo o mundo.

Porem passou um ano desde o início desta crise. Assim é agora o tempo de se começar a refletir no caminho percorrido, nas soluções adotadas ou na falta delas, nos modelos de organização dos sistemas chamados a responder à complexidade da situação gerada, no perfil de lideranças para enfrentar a pressão do que está para alem da rotina dos momentos acidentais no normal funcionamento da sociedade.

Em resumo, chegou a hora de revisitar tudo o que era dado por adquirido quanto à problemática da robustez dos Estado e da sociedade para enfrentar, de forma eficaz e eficiente, grandes catástrofes. E isto é tão urgente quanto sabemos que os eventos extremos, de origem climática, tenderão a multiplicar-se, arrastando consigo milhares de vítimas e provocando elevadíssimos prejuízos no tecido económico e social das sociedades.

«Estamos perante um enorme desafio que só será ultrapassável, se os decisores políticos, ao nível de cada um dos sistemas atrás citados, se empenhar neste desígnio nacional. Importa então apelar que cessem os experimentalismos, as decisões mal informadas, os contextos mal identificados, os recursos tardiamente alocados e a falta de uma postura avaliativa, direcionada aos resultados»

Nesta matéria Portugal não é exceção. Os nossos sistemas de Segurança Interna, Defesa, Saúde Pública e de Proteção Civil precisam de se potenciar através da edificação de um Sistema de Gestão de Crise, capacitado com os melhores quadros que o país disponha nas várias áreas anteriormente referidas, apoiado pela academia e legitimado pelos órgãos de soberania (Presidente da República, Assembleia da República e Governo).

Não estamos na presença de uma missão simplista. Estamos perante um enorme desafio que só será ultrapassável, se os decisores políticos, ao nível de cada um dos sistemas atrás citados, se empenhar neste desígnio nacional. Importa então apelar que cessem os experimentalismos, as decisões mal informadas, os contextos mal identificados, os recursos tardiamente alocados e a falta de uma postura avaliativa, direcionada aos resultados.

Gerir uma crise é uma missão que implica a incorporação de múltiplas competências, a primeira das quais a capacidade de decidir bem e depressa. Ora isto só é possível concretizar com lideranças humildes (não confundir com fracas), técnica e cientificamente apoiadas, capazes de aprender com os erros.

Abra-se então uma reflexão com consequências, recorrendo a fóruns específicos de observação qualificada da crise da Covid-19, para preparar as emergências do futuro.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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