|Manuel Gouveia

A redução da velocidade de circulação dos autocarros da Carris

Os transportes públicos na Área Metropolitana de Lisboa são um sistema complexo. A Carris – e qualquer das suas componentes vistas individualmente – é tanto parte como um reflexo desse sistema.

CréditosTiago Petinga / Agência Lusa

Nos últimos tempos têm sido publicadas com regularidade notícias que dão conta da redução da velocidade média de circulação dos autocarros da Carris. É um facto. Importa, no entanto, estudar as razões para essa dificuldade, que nada (ou quase nada) têm a ver com a Carris.

A infraestrutura é o elemento determinante para a velocidade de circulação do material circulante. Isso é mais evidente no caminho de ferro, onde o uso do corredor exclusivo torna fácil perceber essa relação. Aliás, hoje, os comboios Alfa da CP raramente circulam à velocidade máxima que conseguem alcançar (220 Km/h) devido às severas limitações da infraestrutura que impõe limites máximos de circulação muito inferiores.

Mas, na velocidade de circulação média dos autocarros, a infraestrutura tem um peso muito similar, apesar de se apresentar de forma um pouco mais complexa.

«Circulam, em Lisboa, entre 10 e 20 mil viaturas TVDE (para se ter um ideia de escala, em todo o país não há 13 mil viaturas táxi), mais cerca de mil tuk-tuk, sem esquecer as centenas de outras viaturas ligeiras usadas ao serviço de hotéis e da actividade turística. Tudo legalizado, que ilegalmente também há. Este volume de viaturas tem impacto sobre o trânsito.»

O primeiro elemento que importa ter presente é o grau de corredores exclusivos para a circulação de transportes públicos, a sua eficácia e os seus bloqueios. Lisboa (ao contrário da generalidade da área metropolitana) tem um número significativo de corredores BUS, mas as faixas de circulação encontram-se hoje muito regularmente bloqueadas (1) por carros estacionados em infração (não são só os deputados do CH que estacionam em dupla fila sem se preocuparem com o trânsito) ou (2) por um trânsito medonho, que bloqueia todos os cruzamentos e rotundas.

As origens do trânsito da cidade de Lisboa podem não ser consensuais, mas a sua redução só se pode dar percebendo de onde ele vem e tomando medidas conformes:

(1) As várias formas de liberalização aplicadas ao transporte de passageiros em viatura ligeira (TVDE e Animação Turística) deram um contributo importante para esse aumento de trânsito. Circulam, em Lisboa, entre 10 e 20 mil viaturas TVDE (para se ter um ideia de escala, em todo o país não há 13 mil viaturas táxi), mais cerca de mil tuk-tuk, sem esquecer as centenas de outras viaturas ligeiras usadas ao serviço de hotéis e da actividade turística. Tudo legalizado, que ilegalmente também há. Este volume de viaturas tem impacto sobre o trânsito. Quem o nega não está de acordo com as medidas necessárias para que este trânsito diminua: introdução de contingentes e do preço mínimo no TVDE (ajudando à própria viabilidade económica da actividade para trabalhadores e empresários do sector), severa regulamentação e limitação dos tuk-tuk, e aperto das regras e da fiscalização sobre as restantes viaturas da Animação Turística, acabando com um regime que é uma bandalheira reconhecida.

(2) No que respeita às deslocações pendulares para a cidade de Lisboa (trabalho e estudo, essencialmente), é preciso atrair as populações para o Transporte Público em todo o percurso (e a generalidade das pessoas hoje mora longe de onde estudam ou trabalham). Os grandes eixos de oferta pesada de transportes públicos (comboio urbano) não têm sido modernizados, melhorados ou visto a oferta alargar-se. A solução não passa por inventar novas soluções (agora está a ser muito promovida a ideia de corredores BUS exclusivos nas autoestradas de acesso a Lisboa), mas por concretizar as soluções provadas – a ferrovia pesada. A Linha de Sintra, Cascais, Azambuja, Sado e Sobre a Ponte precisam de aumentar a oferta – mais comboios, em horários mais amplos, menos sobrecarregados e com estações confortáveis e acolhedoras. Neste sistema não entra um comboio novo há mais de 20 anos! Faltam-lhe trabalhadores e sobram-lhe medidas economicistas tontas e contra-procedentes. O mesmo se aplica ao transporte fluvial sobre o Tejo e mesmo ao Metropolitano de Lisboa, que podem e devem aumentar a sua oferta em qualidade e quantidade.

(3) A outra medida de fundo que não pode ser esquecida é que não se pode continuar a afastar as populações da cidade de Lisboa, principalmente aqueles que em Lisboa trabalham e estudam. Isso é uma consequência quase inevitável da liberalização da habitação, mas a liberalização da habitação não é inevitável, foi e é uma opção - foi uma medida errada e é reversível. A mais ecológica e equilibrada solução é haver residências perto das zonas onde existe o trabalho e o estudo. E isso alcança-se através de políticas públicas de planificação urbana. Se construirmos uma sociedade onde a habitação não serve para especular, não é para estar «no mercado», então teremos uma sociedade onde as pessoas poderão morar em Lisboa se trabalharem ou estudarem em Lisboa, o que hoje não acontece.

«As soluções devem ser procuradas à escala metropolitana. E devem ser implementadas (o que tem sido uma dificuldade, veja-se as inúmeras promessas sobre compra de comboios). E exigem uma ruptura com os processos de liberalização e privatização (o que muitos se recusam a aceitar).»

Por fim, há um outro factor para a velocidade de circulação de uma frota que tende a ser ignorada: a sua taxa de ocupação. Um autocarro, um metro ou um comboio a abarrotar (120%, 150% de taxa de ocupação) é mais lento que o mesmo transporte com uma taxa de ocupação de 75%. Porquê? Porque cada paragem demora mais tempo. Já houve um ministro com a tutela do sector (hoje, presidente do Banco de Portugal) que apontou o objectivo de uma taxa de ocupação média de 100% para o Metro de Lisboa, o que implicava que, à hora de ponta, o Metro circulasse com 180% de taxa de ocupação na direcção do centro para fazer a média com a circulação na direcção oposta. Isto é tão estúpido que já não é publicamente defendido, mas está a ser implementado por muitos gestores nas redes de transporte, incluindo no Metropolitano de Lisboa. Degradando a qualidade da oferta, e aumentando o tempo de percurso.

Os transportes públicos na Área Metropolitana de Lisboa são um sistema complexo. A Carris – e qualquer das suas componentes vistas individualmente – é tanto parte como um reflexo desse sistema. As soluções devem ser procuradas à escala metropolitana. E devem ser implementadas (o que tem sido uma dificuldade, veja-se as inúmeras promessas sobre compra de comboios). E exigem uma ruptura com os processos de liberalização e privatização (o que muitos se recusam a aceitar).

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