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'Rankings'? Vira o disco e toca o mesmo

Para além das manobras de marketing dos condecorados colégios que envolvem o lançamento destes rankings, que conclusões podemos retirar? Uma coisa é certa: as desigualdades à entrada são as mesmas à saída.

Acção de protesto contra os Exames Nacionais em Setúbal, 26 de Junho de 2020.
Acção de protesto contra os Exames Nacionais em Setúbal, 26 de Junho de 2020.Créditos / Exames não

Desde sexta-feira, temos sido bombardeados com faustosos títulos na comunicação social: «No top 50 há 47 privados e só três públicas», «A melhor escola pública do País está em 34.º lugar», «Liderança, ambição e exigência: a receita das escolas para chegar ao topo» e, logo de seguida, temos «Este é o colégio que lidera o novo ranking», que foi «criado […] por iniciativa de Belmiro de Azevedo».

Estas manchetes de jornal servem para quê e para quem? Se fossemos inocentes tenderíamos a atestar que era informação frugal, sem qualquer tipo de segundas intenções para além de informar.

Estes rankings são sobre os resultados obtidos pelos estudantes nos exames nacionais mas, no meio de tanto alarido, coloca-se o fundamental de lado e discute-se o acessório e até apreciações demasiadas subjectivas.

Uma coisa é desde já clara: as desigualdades à entrada são desigualdades à saída. Não é porque na altura da realização do exame em que estão todos sentados à mesma hora com a mesma prova à frente, que se iguala seja o que for.

Uns estudaram numa qualquer escola pública, muitas vezes a quilómetros de distância de casa, porque a escola da vila fechou nos últimos anos, para assistir às aulas em salas com mais de 30 estudantes, por vezes sem professor colocado e com chuva a cair-lhes na cabeça.

Outros estudaram no dito «colégio do Belmiro», com uma espectacular arquitectura, uma sensacional piscina, um novíssimo gimnodesportivo e uma cantina-restaurante com cinco pratos à escolha.

«Não há nada que possa substituir a justeza da avaliação contínua e o incentivo ao desenvolvimento do sentido crítico e artístico dos estudantes»

Uns puderam adquirir materiais extra para aprender e até pagar explicações, outros tiveram de se contentar com a falta de condições para o estudo em casa, que as aulas à distância evidenciaram, tendo por vezes de partilhar o computador com o irmão mais novo ou até com os pais em teletrabalho. Alguns destes estudantes tiveram mesmo de ir trabalhar.

O caso é então mais grave: avaliar os estudantes com tão rígida régua não só falha em igualar como agrava as desigualdades – os estudantes com dificuldades socio-económicas são prejudicados e desviados do acesso ao Ensino Superior.

As escolas privadas continuam a não fornecer dados sobre a composição socio-económica dos seus estudantes e respectivas famílias, talvez para não entristecer insuspeitos convictos da superioridade da iniciativa privada na Educação.

Tal como no passado, na época dos dois mil milhões de euros cortados na Escola Pública pelo último governo PSD/CDS-PP, há quem queira abrir guerra à Escola que Abril conquistou. Nem por acaso, o próprio Nuno Crato, ponta de lança para a Educação desse governo de desgraça nacional, já veio reclamar na sua página do Twitter os méritos dos resultados nos rankings dos seus tempos de Ministro…

Há quem queira, também, no que toca aos exames, mudar tudo para que fique tudo igual. Ilustrativo disto são os planos de 12 milhões de euros para a digitalização da avaliação externa, substituindo os «obsoletos» exames em papel.

Todas as parangonas servem ainda para que não se discuta o essencial:  a Escola Pública e a urgência da sua valorização e reforço do financiamento.

Não há nada que possa substituir a justeza da avaliação contínua e o incentivo ao desenvolvimento do sentido crítico e artístico dos estudantes e não há como o fazer com turmas sobrelotadas, com falta de professores, funcionários, psicólogos e outros técnicos ou sem obras nas escolas degradadas. 

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