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A política é o que o povo fizer dela

A governação sem «mãos livres» e a necessidade de apoio à esquerda nunca satisfizeram os grandes grupos económicos e os seus mandantes, que convivem bem com a miséria e a injustiça social.

CréditosNuno Fox / Agência Lusa

Um desconforto que terá contribuído também para que o PS tenha recusado dar no próximo Orçamento do Estado as respostas que o País já não pode continuar a aguardar, alimentando a expectativa de ter no horizonte uma maioria absoluta.

Entretanto, começam a fazer caminho, seja nos comentadores de horário nobre, nos jornais ou nos telejornais (e não só), alguns dos chavões que tinham ficado «arrumados» com o resultado eleitoral das legislativas de 2015 e o desfecho político que lhe seguiu.

São as «eleições para primeiro-ministro», as alusões a uma falsa dicotomia de que só PS e PSD são «partidos de governo» ou até a ideia de que será «útil» votar neste ou naquele partido, não pelo seu projecto político, mas por, alegadamente, ser «a única forma» de travar caminho à extrema-direita. A quem serve a recuperação desta narrativa?

A nossa história muito recente (recordemos, por exemplo, o período da intervenção da troika) é exemplificativa de que os grandes grupos económicos usam todos os meios e procuram permanentemente influenciar o debate político, tentando impedir, de qualquer forma, que seja posto em causa o seu domínio, assente na maximização do lucro. Quem não se lembra da política das proclamadas «inevitabilidades», do esmagamento de direitos, da exploração e do empobrecimento assinada por PS, PSD e CDS-PP, levada a cabo pelo governo de Passos Coelho e Paulo Portas? 

Desde 2015, os dois governos minoritários do PS, em muitos casos a contragosto, foram repondo direitos e recuperando rendimentos, sempre partindo de uma lógica e de uma visão limitadas, porque os compromissos e as imposições da União Europeia falaram mais alto. Entretanto, foi possível recuperar feriados retirados, instituir um passe intermodal de 40 euros e baixar os custos com o transporte, garantir manuais escolares gratuitos, creches gratuitas para alguns escalões, aumentar o salário mínimo e as reformas, entre outras medidas.

Tudo isto só foi possível porque o povo elegeu aquelas maiorias parlamentares concretas. O que deve levar a uma outra questão: quão mais longe se iria numa política de defesa dos trabalhadores e de valorização dos serviços públicos, se os partidos mais à esquerda tivessem ainda maior expressão?

Talvez por isso, os mesmos do costume pretendem voltar à velha forma. Nesse sentido, já estão em marcha as, sempre renovadas, linhas editoriais e orientações daqueles que têm como tarefa veicular as ideias que devem dominar o debate político, nomeadamente voltando à tese das eleições para primeiro-ministro e procurando iludir a realidade: por um lado, as eleições apenas elegem deputados e, por outro, será sempre a correlação de forças na Assembleia da República que determinará quem governa.

É aqui que se enquadra ainda a ideia de que só se combaterá a extrema-direita se se «encher» o PS. Mas, não foi este partido que recusou aprofundar políticas para a resolução dos problemas nacionais? Por outro lado, não é a partir do descontentamento popular, por falta de soluções para os problemas das nossas vidas, que brota terreno fértil para estas ideias reaccionárias? 

Os próximos meses serão decisivos e, apesar das chantagens e do impudor dos que pedem que se espere pela direita, é ao povo que cabe a decisão de optar pelo projecto político que melhor defenda os seus interesses e, consequentemente, os do País.

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