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O diabo veio fardado?

A direita acenava no verão de 2016 com as tragédias que adviriam das políticas do actual governo e anunciava a chegada do diabo. Afinal, parece que o diabo chegou mais tarde, mas veio fardado!

Uma torre de vigia abandonada na Zona dos paióis da Base Militar de Tancos, 3 de julho de 2017. Granadas de mão ofensivas e munições de calibre 9 milímetros desapareceram de dois «paiolins» nas instalações militares dos Paióis Nacionais de Tancos, revelou o Exército.
Uma torre de vigia abandonada na Zona dos paióis da Base Militar de Tancos, 3 de julho de 2017. Granadas de mão ofensivas e munições de calibre 9 milímetros desapareceram de dois «paiolins» nas instalações militares dos Paióis Nacionais de Tancos, revelou o Exército. CréditosPaulo Cunha / LUSA

Estávamos no verão de 2016, quando Passos Coelho, perante a sua bancada parlamentar, anunciava a chegada do diabo. Era o mote para a dramatização da situação política, a propósito das alegadas nefastas consequências para o País da acção do Governo e dos compromissos do PS com o BE, o PCP e o PEV. Uma dramatização que foi então acompanhada por um significativo leque de comentadores e analistas, que não se cansaram de agitar o papão da mudança, provocado pela alteração da composição da Assembleia da República.

Uma dramatização inseparável de uma continuada operação de chantagem das instituições europeias em torno das contas públicas, numa persistente atitude de condicionar a elaboração dos sucessivos orçamentos do Estado.

A direita acenava então com as tragédias que adviriam das políticas do actual governo, procurando caracterizar desta forma a reversão de medidas gravosas impostas pela governação do PSD/CDS-PP. Era o tal diabo à solta que não chegou em Setembro de 2016, no tempo em que o então líder do PSD também dizia «não acreditar que a estratégia orçamental de António Costa resultasse mas, se por milagre isso acontecesse, seria o primeiro a apelar ao voto na esquerda».

Afinal, parece que o diabo chegou tarde, mas veio fardado!

Estamos no Outono de 2018, quase um ano e meio depois do furto de armamento em Tancos. E, sobre este caso, muito do que importa também já foi escrito: o não se saber exactamente o que tinha sido furtado e o que foi recuperado; o estado de degradação da segurança dos paióis; a estranha suspensão de cinco comandantes de unidades, a sua posterior recondução e a nomeação de um desses coronéis para o curso de promoção a oficial general; o conhecimento do estado em que há muitos anos se encontravam as instalações e a passividade de anteriores responsáveis militares e políticos; a falta de efectivos para garantir a segurança dos paióis (qualquer dia, quando os militares forem para os fogos, vão os bombeiros fazer segurança aos paióis!); o milagroso telefonema a dar conta da recuperação do material; o incompreensível (ou talvez não…) resgate do material por parte dos militares sem avisar previamente o Ministério Público e as dificuldades deste e da Policia Judiciária em acederem ao armamento resgatado.

Tudo isto, enquadrado com algumas prisões, num momento em que se adensam encenações, manipulações e manobras de diversão de alguns sectores radicais da direita política e militar que, longe de contribuírem para o esclarecimento da verdade no sentido de se saber quem, de facto, planeou e executou o furto do armamento, parecem mais interessados em alimentar uma certa campanha mediática que, objectivamente, se insere numa perigosa onda populista visando o desgaste do Governo mas que, sobretudo, está a contribuir para desgastar o regime.

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