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À boa moda elitista, ministra da Cultura quer rever entrada livre nos museus

Em entrevista ao ECO, Margarida Balseiro Lopes teve, finalmente, a oportunidade de explanar a sua visão para o sector da Cultura. Mecenato, desresponsabilização do Estado e elitização no acesso à cultura são os elementos estruturantes do projecto governativo. 
 

Créditos Tiago Petinga / Agência Lusa

«Alguma coisa que não é paga terá menos valor do que alguma coisa que é paga. Isto está cientificamente, economicamente mostrado». Foi assim, com uma frase que não tem fundo de verdade, que Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, demonstrou a lisura com que dirige o sector cultural.

A ministra disse ainda que o seu Governo poderá, eventualmente, reflectir sobre o sistema de gratuitidades que actualmente existe porque «precisamos que as pessoas valorizem a cultura». Ou seja, segundo a mesma, só se valoriza a cultura com barreiras socioeconómicas.

Importa recordar que em 2024 entrou em vigor o programa Acesso 52 que permite que todos os cidadãos residentes em Portugal visitem gratuitamente 37 museus e monumentos da rede Museus e Monumentos de Portugal durante 52 dias por ano, à sua escolha, em qualquer dia da semana.

Tanto a visão elitista como a ausência de noção do que é uma política pública cultural não ficaram por aqui, no entanto. Para o comprovar, Balseiro Lopes, quando questionada sobre a diversificação de fontes de investimento e receitas para a requalificação de museus, anunciou que uma das prioridades é apostar em lojas nos mesmos. «Um desses exemplos é o Museu da Música, em Mafra, que já reabriu em Novembro e que tem, no final da visita – que vale mesmo muito a pena – uma loja que permite levar alguma recordação e permite também que seja uma fonte de financiamento para todas as outras actividades e serviços que queremos que os museus tenham», exemplificou.

Ao longo da entrevista ficou evidente o desconhecimento profundo que a ministra tem sobre o sector, ao ponto de a jornalista do ECO, percebendo que Margarida Balseiro Lopes recorria sempre ao Teatro Nacional de São Carlos ou ao Museu Nacional de Arqueologia para explicar medidas, questionar «porque é que fala sempre só desses dois exemplos? Não há outros?». Meio atrapalhada, a ministra respondeu «porque estes são os que mais me chocaram».

Sobre o apoio às artes, Margarida Balseiro Lopes escudou-se nas alterações à lei do mecenato. Num momento em que o Governo é alvo de críticas no sector por não actualizar os apoios públicos de acordo com a inflação, a opção ideológica da ministra passa por destacar agentes privados de forma a que estes «tenham maior intervenção na Cultura e invistam mais em função do seu gosto». A responsável pela tutela embarca, assim, numa visão problemática no que à liberdade artística diz respeito. «É vantajoso para toda a gente que as entidades estejam menos dependentes do financiamento público porque lhe dá maior grau de autonomia», afirmou, entrando em contradição com a lógica de mecenato e de «gosto» que defendeu.

O último tema da entrevista passou pelas fundações culturais. Se nos vários ramos do sector cultural o desinvestimento é norma, neste campo Margarida Balseiro Lopes reiterou os subsídios às entidades privadas, mais uma vez desresponsabilizando o Estado do seu papel de dinamização e promoção e entregando-o a entidades que lucram com os subsídios estatais. Recorde-se que a Cultura pesa menos de 1% no Orçamento do Estado.
 

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