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Resistência popular ao neoliberalismo deu alguns frutos e equatorianos celebram

Depois de 11 dias de intensa mobilização, fortemente reprimida, e do anúncio de um acordo, este domingo, entre movimento indígena e governo, a festa soltou-se nas ruas. Mas não faltam razões para cautela.

Sábado, dia 12, foi porventura o dia mais intenso de todas as jornadas de mobilização na cidade de Quito contra as medidas impostas por Lenín Moreno e o FMI
Sábado, dia 12, foi porventura o dia mais intenso de todas as jornadas de mobilização na cidade de Quito contra as medidas impostas por Lenín Moreno e o FMI CréditosMarco Teruggi / Sputnik

Sob os auspícios das Nações Unidas e da Conferência Episcopal Equatoriana, representantes da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) sentaram-se à mesa com o governo de Lenín Moreno, o presidente do país andino, a quem certos sectores colaram o epíteto de Gorbatchov para dizerem «traidor».

As partes chegaram a um acordo ao cabo de 11 dias de grandes mobilizações por o todo país, com especial incidência na capital, Quito, contra o Decreto 883 – que eliminou os subsídios estatais aos combustíveis e fez disparar o preço dos transportes e de bens de primeira necessidade – e contra um pacote de medidas económicas e tributárias ditas neoliberais, austeritárias, imposto na sequência de um empréstimo contraído, em Março, ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Se é um facto que a CONAIE detém – e demonstrou – grande capacidade de mobilização e luta, na estruturação das mobilizações participaram igualmente organizações de estudantes, de mulheres, de agricultores e sindicatos, e o apoio, nos momentos mais duros de repressão, chegou das mais variadas partes: médicos, professores, voluntários de organizações católicas, entre outros.

Ontem, na mesa, o movimento indígena deixou claro que só havia uma alternativa: revogar o Decreto 883, sobre o qual o governo sempre assumira um posicionamento de «não há marcha atrás».

No final de várias horas de diálogo, o representante das Nações Unidas para o Equador, Arnaud Peral, anunciou que o Decreto 883 ficava sem efeito e que seria criada uma «comissão para preparar um novo decreto», na qual participarão nove representantes das organizações do movimento indígena e seis do governo de Moreno, sob mediação da ONU e da Conferência Episcopal, informa a Prensa Latina.

Por seu lado, Jaime Vargas, presidente da CONAIE, anunciou o fim das mobilizações, ficando a aguardar que Lenín Moreno cumpra o que prometeu: elaborar um novo decreto com medidas que reforcem a economia, mas sem atingir as camadas mais desfavorecidas. Neste contexto, o governo de Moreno ficou também de analisar o pedido de saída do FMI do país.

Nas ruas, depois dos 11 dias intensos em que Quito mais pareceu um cenário de guerra, nos quais os manifestantes foram sujeitos a grande repressão das forças policiais e militares, houve festa rija pelos resultados alcançados na resitência contra o neoliberalismo e o FMI.

Triunfalismo sem fundamento?

Na sua conta de Twitter, o sociólogo argentino Atilio Boron, cujas análises políticas se centram muito na América Latina, mostrou-se bastante céptico com a «desmobilização indígena e popular a troco de novas promessas de Moreno, referentes tão-só ao primeiro ponto da complexa agenda imposta pelo FMI».

Disse ainda opor-se ao «triunfalismo reinante», lembrando que há questões no «pacotazo» que vão muito para lá da questão da «gasolina» (ataques vários aos direitos dos trabalhadores) e que a Frente Unitária dos Trabalhadores (FUT), que teve papel central na mobilização dos trabalhadores, ficou de fora do diálogo.

Promessas, espera e balanço da repressão

Agora, o país fica à espera do regresso do subsídio, enquanto o movimento indígena aguarda pela resposta oficial ao pedido de demissão da ministra do Governo, María Paula Romo, e do titular da Defesa, Fausto Jarrín, que a CONAIE responsabiliza pelos abusos das forças policiais e militares cometidos nos 11 dias de manifestações e paralisação nacional, sobretudo em Quito.

De acordo com os dados ontem divulgados Defensoría del Pueblo [Provedoria de Justiça], entre 3 e 13 de Outubro, foram mortas sete pessoas, 1340 ficaram feridas como resultado da acção policial e militar, e 1152 pessoas foram presas.

Por seu lado, Jaime Vargas disse que há «mais de 2000 feridos, mais de mil presos, cerca de dez assassinados», tendo sublinhado que este número pode aumentar, uma vez que há «cerca de 100 desaparecidos no país», indica a RT.

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