O líder da FMJD esteve em Portugal por ocasião da realização do Congresso da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), que se realizou em Vila Franca de Xira a 14 e 15 de Maio, participou em diversas iniciativas e contactou com várias instituições ligadas à juventude. Ao AbrilAbril falou do presente e das perspectivas para o futuro do planeta e da luta contra o imperialismo.
Qual a avaliação que faz a FMJD das marcas na vida da juventude de um último ano e meio marcado, a nível mundial, pela pandemia?
A primeira ideia a ter em conta é a realização da última Assembleia Geral da FMJD, em Dezembro de 2019, apenas algumas semanas antes do espoletar da pandemia. Seria de pensar que, se a assembleia ocorreu antes do início da pandemia, então toda a análise ali feita seria «velha» e inapropriada para a compreensão daquilo que se passa agora. Mas, na realidade, aquilo a que assistimos nesta pandemia corresponde à análise que então fizemos à situação da juventude, cujos problemas se mantêm, mas que foram agravados neste quadro.
A vida da juventude decorre da lógica do sistema imperialista em que vivemos. É um sistema no qual se privatizaram os sistemas de saúde, e essa é uma das ideias debatidas na assembleia, a privatização dos serviços públicos, como a Educação, a Saúde e outros. E ficou claro que o sistema não estavam preparado para responder a uma pandemia.
Outra questão que analisámos é a do desemprego, que é uma situação preocupante agora no quadro da pandemia, mas que já era um problema anterior. A juventude já se encontrava numa má situação antes da Covid-19. Como é que responderam as classes dominantes à pandemia? Dois anos a cortar ainda mais nos direitos da juventude. O que ouvimos é que estamos todos numa crise e que todos temos que fazer um esforço para ultrapassar esta situação difícil. Ok, mas quem é que está a pagar a actual situação e quem é que sempre paga em situações assim? A juventude e as classes trabalhadoras.
Muitas destas questões foram debatidas na nossa última assembleia. Claro que qualquer pandemia causa sofrimento, seja na juventude, seja nos povos. Mas este sistema agrava as consequências, como acontece com o aumento da miséria. As suas dinâmicas multiplicam o sofrimento. É o que acontece nos exemplos em que assistimos a guerras, agressões e ofensivas imperialistas, e por aí fora.
Perante uma situação como esta, poderia até pensar-se que as ofensivas imperialistas parassem, para que os povos pudessem ultrapassar a pandemia. Mas se há ideia que fica clara é que o foco do sistema nunca será o de ultrapassar o problema vivido, por exemplo, pelo povo do Saara Ocidental. Marrocos violou os acordos com o Saara; a Palestina nestes dias sofre mais uma agressão do estado sionista de Israel; no que respeita ao Chipre, a Turquia age para ter mais controlo sobre o mar Mediterrâneo, mantendo a ocupação do território cipriota. E há muitos mais exemplos… Vejam-se as guerras entre estados que tentavam adquirir materiais de protecção necessários ao combate à pandemia. E agora a questão das vacinas, em que aqueles que estão, digamos, no topo da pirâmide do sistema, acumulam todas as vacinas, ao passo que os países que estão no fundo da pirâmide não têm possibilidade de as adquirir.
Como é que as organizações membros da Federação responderam à situação?
Quando discutimos com as organizações o que se passa neste contexto, uma das questões que surge é o facto de, sobretudo, serem as pessoas mais velhas a sofrerem mais com isto. Mas também se verifica, em muitos países, exemplos de lutas e organizações de base popular a responder de forma solidária à pandemia. Surgem formas de auto-organização para responder às necessidades, como seja a limpeza ou ajudar as pessoas em situação de maior risco. Há muitas experiências como estas ao nível dos bairros, e até os estudantes se organizam para ultrapassar as dificuldades que sentem por não irem à escola, e partilham notas e elementos para estudar. Também os sindicatos têm sido imprescindíveis para lutar e garantir condições de saúde, distâncias de segurança, etc. nos locais de trabalho.
« O objectivo é dividir os povos, os trabalhadores e a juventude e a pandemia é vista como um cenário perfeito para promover estas clivagens»
Esta organização também se vê no combate à muita exploração que os patrões tentaram impor com diversas estratégias, à conta da pandemia, como aconteceu com cortes nos salários e trabalho suplementar não pago. As organizações da FMJD inserem-se nestas dinâmicas organizativas, que correspondem ao melhor exemplo do que é a força dos povos. Se há coisa que se retira desta pandemia é a capacidade e a força dos povos de se organizarem para ultrapassar qualquer problema comum.
Tendo em conta a situação que se vive, por exemplo, na Palestina, na Colômbia e noutros que mencionaste, mas também olhando aos desenvolvimentos recentes nos EUA, qual é a vossa análise? Quais as vossas perspectivas para o futuro?
A primeira lição a retirar é que as classes dominantes não querem pagar a crise e querem que sejamos nós [o povo] a pagar. No que respeita à nova administração norte-americana [Joe Biden], há muitos exemplos que clarificam que a sua intenção é a de reforçar alianças imperialistas, nomeadamente com a NATO. No tempo de Donald Trump existiam algumas tensões inter-imperialistas, por exemplo com a União Europeia. Por seu turno, Joe Biden parece estar a deixar claro que quer reconstruir pontes que foram quebradas por Trump.
A acção imperialista tem consequências em todo o mundo, e na vida da juventude, como já referiste. Se quisesses dizer a um jovem o que é o imperialismo, como explicarias?
Vou dar-te um exemplo que até poderia fazer sentido para muita gente em Portugal. Poderíamos falar do imperialismo em termos conceptuais, nomeadamente do topo da pirâmide, dos EUA, da UE e da NATO, etc. Mas, no concreto, o que é que isto significa? Há pessoas que conheces que terão viajado até à Galiza, em Espanha, e lá terão provado um prato típico de polvo galego. Agora, o mais provável é não terem comido polvo galego, mas sim polvo saraui, que foi comprado por Espanha a Marrocos, que ocupa o Saara Ocidental. Mas porque é que há tantos países que não se referem a esta situação de ocupação? Porque há interesses e relações deste género. A razão é o domínio dos monopólios e, nestes casos, pode ver-se o papel que é desempenhado por cada país. Espanha nada diz, porque tem interesses económicos ligados a Marrocos. O imperialismo é, claro, mais complexo, mas este seria um bom exemplo de que há sempre interesses económicos por detrás de realidades como a ocupação marroquina do Saara Ocidental ou os bombardeamentos de Israel à Palestina.
E a FMJD tem tido iniciativas quanto ao que tem ocorrido nas diferentes situações que já referimos, como por exemplo a Palestina?
Perante estas situações dramáticas, há muito a fazer. A primeira questão parte sempre da denúncia do sofrimentos destes povos. E nesse sentido temos feito muitas declarações sobre o povo colombiano, a nova agressão de Israel sobre a Palestina, o bloqueio em Cuba, entre muitas outras. Denunciar é o primeiro passo. Mas há outras acções que são sempre necessárias e os membros da FMJD têm estado a realizar acções concretas. Quando Marrocos atacou o povo saraui, nós expressámos a nossa solidariedade, mas também queremos que se promova a discussão em cada povo, sobre o porquê das classes dominantes em cada estado nada dizerem sobre esta agressão, e, com esse silêncio, continuarem a apoiar Marrocos. Porque é que as classes dominantes ficam em silêncio? Nós denunciamos o porquê e quais os interesses que prevalecem no quadro do imperialismo, e daqueles que se encontram no topo da pirâmide. Por exemplo, quando denunciamos a agressão de Israel ao povo da Palestina, e qual a razão do posicionamento de Espanha não ser de condenação, lembramos, por exemplo, que é uma empresa basca que está a construir os caminhos de ferro em Jerusalém. Assim, Espanha e outros estados são também responsáveis pelos crimes que se cometem na Palestina, porque se posicionam na defesa dos interesses económicos e negociais dos monopólios.
E quanto ao movimento dos Festivais Mundiais da Juventude e dos Estudantes, há alguma novidade na vossa discussão sobre a próxima edição?
Queremos organizar um Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes o mais depressa possível. Todavia, a principal questão que já discutimos em sede do Conselho Geral é a necessidade de haver uma proposta de um país que pretenda acolher uma futura edição. Mas, sobretudo, perante a actual situação queremos que se realize um festival de sucesso, o que no quadro da história e tradição deste movimento, ocorre com milhares de jovens presentes. Queremos manter essa característica histórica de um grande festival, ao mesmo tempo que desejamos uma iniciativa profundamente anti-imperialista e popular. Neste quadro, temos de o realizar e preparar da melhor forma e, como é óbvio, a pandemia não é o melhor cenário, tendo em conta as restrições de mobilidade. Quando se superar esta situação a nível global saberemos quando e onde poderá realizar-se.
Uma das apostas do sistema neste contexto pandémico foi a imposição do medo, em detrimento de valores como os da solidariedade e até para limitar a luta pelos direitos. Como é que podemos ligar isto aos valores da FMJD e que presidiram à sua criação no seguimento do fim da II Guerra Mundial? Estes princípios e valores têm actualidade ou são algo do passado?
Sobre a necessidade da solidariedade dos povos, eu gostaria de citar Álvaro Cunhal, em Partido com paredes de vidro, onde diz que «em Portugal, como em muitos países capitalistas, há interesses antagónicos entre a burguesia e as classes trabalhadoras, mas entre os trabalhadores de cada país não há antagonismos, e sim interesses em comum». Esta é uma questão que se aplica aqui e agora. Vejamos o caso de milhares de migrantes que tentam chegar à Europa, o que eles procuram é melhores condições de vida. Temos de os considerar como irmãos e irmãs, porque não há nenhuma razão para lutarmos contra eles. Temos os mesmos interesses. Eles saem dos seus países porque as classes dominantes promovem ou contribuem para cenários de guerra, roubam os seus recursos, provocando pobreza e miséria. Em contrapartida, promove-se o ódio entre nós, também porque, com a pandemia, procura-se promover mais xenofobia, racismo, e até lgbtfobia e misogenismo, e todos os tipos de discriminação. O objectivo é dividir os povos, os trabalhadores e a juventude e a pandemia é vista como um cenário perfeito para promover estas clivagens.
Mas a realidade é que os povos têm as mesmas causas, ainda que os problemas concretos possam ser diferentes. O nosso inimigo é apenas um e os nossos interesses são comuns, nomeadamente quanto à ideia de podermos vir a viver numa sociedade sem qualquer tipo de exploração e opressão.
Mesmo sob grande pressão e dificuldades, a juventude portuguesa tem continuado a lutar pelos seus direitos, o que pode inspirar lutas noutros países, assim como nós aqui bebemos a resistência lá fora. Como olhas para esta realidade?
Sobre a luta da juventude em Portugal, gostaria de reconhecer o papel que a JCP, enquanto membro da federação, tem dado à luta e à FMJD, não apenas agora, mas desde há muitos anos. É uma organização muito activa na federação, esteve na sua presidência durante muitos anos, por isso a sua contribuição para luta anti-imperialista tem sido imprescindível.
Nesta matéria, gostaria novamente de citar Álvaro Cunhal, porque ele explica bem o porquê de a luta da juventude em Portugal ser fundamental: «a luta em cada um dos nossos países é o melhor contributo que podemos dar para libertação dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo. As nossas tarefas no plano nacional e a luta internacionalista não são contraditórias e não as podemos separar». Esta é outra ideia da importância da acção da juventude portuguesa e da juventude de outros países, e de que as lutas que se desenvolvem aqui e noutros sítios são as melhores contribuições que podem ser dadas para a luta anti-imperialista.
Vejo os camaradas e o povo da Colômbia em luta contra as classes dominantes e as suas políticas anti-populares; o povo libanês em luta contra a dramática catástrofe que se deu sobre Beirute, em combate contra a pandemia e ainda contra as medidas anti-populares do seu governo; e seja na Colômbia, no Líbano, no Equador ou em qualquer outro país, quando a juventude luta essa é também a minha luta e é a luta da juventude anti-imperialista de todo o mundo. Esta é a condição de ser internacionalista. Eu sinto que estas são as minhas lutas e vou sempre apoiá-las na sua contribuição do derrube deste sistema, assim como muitas gerações antes da nossa o fizeram.
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