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O sorriso largo de Víctor Jara

Não faltariam hoje a Víctor Jara razões para sorrir largamente diante do florescer de tantos artistas chilenos preocupados com a sua gente e o seu país.

Músicos em manifestação em Santiago do Chile, em Janeiro de 2020. Músicos e bandas têm marcado uma elevada e significante presença nos protestos do povo chileno, iniciados a 18 de Outubro de 2019, contra o neoliberalismo e por uma nova e mais democrática constituição.
Músicos em manifestação em Santiago do Chile, em Janeiro de 2020. Músicos e bandas têm marcado uma elevada e significante presença nos protestos do povo chileno, iniciados a 18 de Outubro de 2019, contra o neoliberalismo e por uma nova e mais democrática constituição.CréditosJorge López Orozco / La Nación

Apesar de não sabermos novas do bravo povo chileno pelos nossos órgãos de comunicação social, ele continua resistindo e em luta por transformações políticas, económicas e sociais, por uma Assembleia Constituinte que lhe traga uma nova Constituição que rompa em definitivo com o modelo neoliberal edificado a partir da ditadura de Pinochet.

Não há sexta-feira que não seja de luta!

Mas este texto não pretende falar de todo o processo de luta que tem lugar no Chile (isso daria para vários outros textos), antes vai abordar uma parte bonita desse processo: a participação e integração dos músicos chilenos na luta que aí tem lugar.

Todos os processos de resistência, de luta, revoluções, têm as suas músicas, muitas delas viram hinos que permanecem intemporais, como também aconteceu no nosso país. A verdade é que os músicos, conscientes da sua condição, comprometidos com os seus povos e com a realidade do seu país, reflectem muitas vezes nas suas músicas, no seu canto, a realidade e as lutas que também são as suas.

No Chile tem havido vários exemplos a sublinhar e a seguir nesse sentido.

Antes de falarmos deles, importa referir o quão presente tem estado a música no processo de luta e resistência que tem lugar no Chile. Recordemos a mulher chilena que da sua varanda cantou à capela «Te recuerdo Amanda» de Víctor Jara1, ou o povo que trouxe todos os instrumentos musicais que tinha à mão e, como uma perfeita orquestra, tocou, cantou, bailou, mostrando aos opressores, tal como na música do sempre presente Víctor Jara, que um povo unido jamais será vencido. Um povo reprimido, cheio de música no sangue, tinha despertado.

A este povo desperto na rua juntaram-se vários músicos chilenos, que uniram a sua voz e a sua arte ao seu povo.

Muitos destes artistas são desconhecidos no nosso pequeno rectângulo de terra. Não costumam passar regularmente nas rádios portuguesas. Talvez a excepção seja Mon Laferte, por ter tido uma parceria com o António Zambujo, mesmo assim, a restante música desta artista não passa na rádio. Isto não se aplica apenas à música chilena. A música da América Latina, popular, tradicional, moderna, com carácter interventivo, raramente tem lugar nas «playlists» das nossas rádios. Contudo, muitos destes artistas, uns mais, outros menos, são sobejamente conhecidos neste subcontinente.

Ana Tijoux, Camila Moreno e Mon Laferte são bem conhecidas por aquelas bandas. Enchem salas, teatros, pavilhões. As três lançaram músicas durante as manifestações. Mon Laferte lançou «Plata ta tá», Ana Tijoux lançou «Cacerolazo» e Camila Moreno «Quememos lo reino».

Destacaria estas duas últimas.

A rapper franco-chilena Ana Tijoux é conhecida por «1977», «Somos Sur» (uma parceria com a rapper palestiniana Shadia Mansour), «Todo lo sólido se desvanece en el aire» ou «Sacar la voz». Recentemente entrou no álbum novo dos espanhóis Chikos del Maiz, onde com eles interpreta «El Extraño Viaje», sobre o drama dos refugiados. Nas suas músicas encontramos a luta, o internacionalismo, a solidariedade ou o anti-imperialismo.

A música de Camila Moreno tem vindo a aprimorar-se e a explorar novas e diferentes sonoridades ao longo da sua carreira. Um processo criativo, em mutação constante e extremamente colectivo, em que a banda que a acompanha assume papel de relevo. As mulheres, o amor, o meio ambiente, o povo mapuche, o imaginário mágico latino-americano – que também nos chega pelos livros de romancistas deste subcontinente – marcam constantemente presença nas suas músicas. Do seu reportório, vasto e diverso, desta-se «Millones» e «Yo enterré mis muertos en tierra». Pangea é o seu projecto mais recente, que, mais do que um disco duplo ou que um espectáculo ao vivo, é documentário, é curta-metragem, livro e BD. Por curiosidade apenas, parte deste trabalho tem origem em histórias infantis que o pai de Camila Moreno lhe contava e que se passavam num território chamado Pangea, onde um menino mapuche e um dinossauro tinham aventuras.

Yorka, Natisú, Combo Chabela, Triciclo Parlante, Los Fictions, Charley Benavente, André Ubilla são outros músicos que se podem encontrar, com muitos outros, num canal chamado La Vitrola2. Aí encontramos música e mensagens dos artistas chilenos sobre o que pretendem para o futuro do seu país e para uma nova Constituição.

Não se pode deixar de falar também de Newen Afro Beat, o afro beat chileno, que já passou por Portugal e em cujas canções encontramos preocupações sociais e ambientais.

Nem poderíamos acabar este texto sem mencionar Evelyn Cornejo e as suas músicas «La huelga», «América Si», «La chusma insconsciente» e «Las Leyes», canções de contestação.

Como se pode ver, razões não faltariam a Víctor Jara para sorrir largamente diante do florescer de tantos artistas chilenos preocupados com a sua gente e com o seu país. Não estando muitos deles no mesmo estilo do mestre, bem se pode dizer que em cada um destes músicos há um pouco do Víctor Jara. Mas não só nos músicos: em cada chileno, mesmo que só tenha uma caçarola para fazer música, aí vive Víctor Jara.

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