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Milhares protestam em Marrocos contra o agravamento das condições de vida

Rabat foi palco de uma marcha contra o aumento de preços dos bens de primeira necessidade, na qual se chamou a atenção para os ataques à liberdade de expressão e aos direitos dos trabalhadores.

Créditos / Via Democrática / Peoples Dispatch

Milhares de pessoas juntaram-se, este domingo, na Praça Bab al-Ahad, em Rabat, no contexto de uma marcha nacional contra «os preços elevados, a repressão política e a opressão social».

A iniciativa foi organizada pela Frente Social Marroquina (FSM), uma coligação de partidos de esquerda e sindicatos, com o apoio de organizações de defesa dos direitos humanos e outras, informa o Peoples Dispatch.

«Viemos protestar contra um governo que encarna o casamento do dinheiro e do poder, e que apoia o capitalismo monopolista», afirmou o coordenador nacional da FSM, Younès Ferachine.

Com a marcha a avançar por Rabat, os manifestantes gritaram palavras de ordem como «O povo quer preços mais baixos... O povo quer acabar com o despotismo e a corrupção».

Na acção de protesto, que contou com manifestantes provenientes de várias partes do país, foram igualmente levantadas questões como o desemprego e o acesso aos serviços públicos, nomeadamente os hospitais e as escolas.

Via Democrática

Numa declaração subsequente à manifestação, Mouad Eljohri, membro do secretariado nacional da FSM, disse ao Peoples Dispatch que, apesar das «manobras» do Estado para limitar o alcance da mobilização, esta foi «um grande êxito» e um momento «a que se seguirão outras etapas de luta».

Protesto contra o agravamento da crise social

Em meados de Outubro, a FSM organizou acções em várias cidades marroquinas para exigir o aumento dos salários, a diminuição dos preços dos bens de primeira necessidade, medidas para fazer frente à pobreza em que vivem milhões de cidadãos e a libertação dos presos políticos da monarquia alauita.

A inflação elevada (7,1 por cento em Outubro), o aumento dos combustíveis, dos géneros alimentares e dos serviços, assim como dos transportes (com uma inflação média de 12% nos primeiros dez meses do ano), agravou a situação socioeconómica do país magrebino, e as forças progressistas e de esquerda têm vindo a denunciar as medidas tomadas pelo governo liberal e o impacto que estas têm nos trabalhadores.

«As condições perigosas vividas pelo povo marroquino são o resultado da dominação e selvajaria do sistema capitalista Makhzen [sistema de governo centrado na monarquia], assente na dependência e no imperialismo, na exploração intensiva da classe trabalhadora e no saque dos diversos grupos populares trabalhadores por parte do bloco da classe dominante», denunciou o partido marxista Via Democrática.

O partido condenou ainda as políticas governamentais «reaccionárias», que se «destinam a enriquecer os ricos e a empobrecer os pobres», em especial a Lei das Finanças, que dá «brindes fiscais às grandes empresas em troca de pressão fiscal sobre as pequenas e médias empresas».

Via Democrática

A Associação Nacional de Juristas também aderiu ao protesto, sublinhando que a Lei das Finanças irá aprofundar o sofrimento do povo marroquino, criticando a «marginalização» dos serviços públicos, sobretudo a educação e a saúde, e denunciando o ataque a vários grupos, incluindo os advogados.

Exigência de distribuição justa da riqueza

Tayeb Modad, membro da Associação Marroquina dos Direitos Humanos e dirigente da FSM em Salé, disse à agência Hespress que a marcha nacional foi organizada no contexto da «crise real» que o país atravessa, com «ataques aos direitos e liberdades e à subsistência dos cidadãos».

Frisando que Marrocos «não é um país pobre» e «dispõe de uma variedade de recursos», disse que «a alternativa é construir uma sociedade democrática que distribua de forma justa a riqueza pelo povo».

Numa mobilização em que foram denunciadas «todas as formas de repressão», nomeadamente os ataques a jornalistas, activistas e oposicionistas ao governo, e foi exigida a libertação dos presos políticos e de opinião, a bandeira da Palestina teve um lugar destacado, em mais uma demonstração clara de que o povo marroquino, os seus sindicatos de classe e os partidos de esquerda rejeitam a normalização de relações do país com o Estado de Israel.

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