Vendida como exemplo de modernidade e sucesso, a Estónia tornou-se o novo farol dos defensores da digitalização da educação. Mas por trás da propaganda tecnológica esconde-se uma realidade bem menos luminosa: a transformação da escola pública num laboratório ao serviço das grandes empresas digitais.
Com o programa «Tiger Leap», lançado nos anos 1990, a Estónia foi pioneira na digitalização dos serviços públicos, desde cedo em estreita articulação com grandes empresas tecnológicas. O programa «AI Leap 2025», apresentado como um salto inovador, não é apenas mais um passo na digitalização do ensino. É uma mudança de fundo, através da qual o Estado abdica de funções centrais, entregando-as a interesses privados. A educação deixa de ser um serviço público plenamente controlado pelo Estado e passa a depender de plataformas, infraestruturas e ferramentas desenhadas fora dele.
Para gerir todo o processo, foi criada uma fundação híbrida, a «AI Leap Foundation», que funciona como um verdadeiro ministério paralelo. Decide, coordena e implementa políticas educativas, mas sem o escrutínio democrático que se exige a qualquer instituição pública. Quem manda já não é apenas o Estado: são redes onde se cruzam governo, finança e tecnologia. Basta olhar para a composição do conselho de administração, onde é possível identificar ligações diretas à banca, à política e às grandes empresas tecnológicas. É por aqui que entram as grandes empresas. A infraestrutura digital do Estado estónio, incluindo a educação, é em larga medida construída por empresas como a Nortal, que funciona como intermediária privilegiada entre o setor público e gigantes tecnológicos globais. Através desta porta de entrada, empresas como a Microsoft, a OpenAI ou a Anthropic passam a ocupar um lugar central no sistema educativo.
«Quem manda já não é apenas o Estado: são redes onde se cruzam governo, finança e tecnologia. Basta olhar para a composição do conselho de administração, onde é possível identificar ligações diretas à banca, à política e às grandes empresas tecnológicas.»
O resultado é claro: a escola pública torna-se dependente de tecnologias fechadas alojadas em plataformas privadas, muitas vezes sediadas fora do país. O ensino passa a assentar em sistemas que o Estado não controla, não domina e dificilmente consegue substituir. É o velho problema do lock-in, agora aplicado à educação: uma vez dentro, sair torna-se quase impossível. Mesmo quando o currículo continua formalmente nas mãos do Estado, a realidade é outra. Quem controla as plataformas controla a forma como se ensina, como se aprende e até como se avalia. A mediação pedagógica é capturada por algoritmos e interfaces desenhados por empresas cujo objetivo não é educar, mas gerar lucro e acumular dados. Não estamos perante uma privatização clássica, com venda de escolas ou propinas. Trata-se de algo mais subtil e talvez mais perigoso: uma privatização funcional. O Estado mantém a aparência de controlo, mas as funções essenciais são externalizadas. A educação continua a ser pública no papel, mas cada vez mais privada na prática.
O caso estónio não é um modelo a seguir. É um aviso. Mostra até onde pode ir a subordinação das políticas públicas aos interesses das «Big Tech». Mostra como, em nome da inovação, se entrega a escola pública a infraestruturas que escapam ao controlo democrático. O problema não é a tecnologia, mas quem a controla e para que fim. A escola deve servir o interesse público, não os lucros das plataformas. Defender a escola pública hoje é também garantir a sua independência face ao poder das grandes empresas tecnológicas.
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