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Dois dias negros na história moderna

Abba Eban, um histórico ministro dos Negócios de Israel dos anos 60 e 70, nos governos trabalhistas de Golda Meir, dizia o seguinte: «Uma das tarefas principais de qualquer diálogo com o mundo é provar que a distinção entre anti-semitismo e anti-sionismo não existe». 

Créditos Tayfun Salci / EPA

Meados de Maio, dias 14 e 15, é um período anual que mancha a sangue, devastação e trevas a História moderna da humanidade. No dia 14, o chamado Ocidente colectivo e o sionismo, como um dos seus poderosos instrumentos coloniais, celebram a independência do Estado de Israel. A esmagadora maioria do mundo árabe e islâmico, acompanhada pelas pessoas do planeta que ainda guardam nos seus corações a fraternidade, a solidariedade, a piedade e o respeito pelos direitos humanos, assinalam, no dia 15, uma jornada de luto e luta por ocasião da Nakba, o Holocausto Palestiniano: o extermínio continuado de um povo, apoiado numa impiedosa limpeza étnica.

No dia 15 de Maio de 1948, há 78 anos, enquanto as grandes potências e o chamado «mundo civilizado» apadrinhavam a instauração do Estado de Israel no interior do Médio Oriente – o depositário dos «nossos valores» no «meio da barbárie» – já o inocente e milenar povo da Palestina vivia há mais de um ano o martírio do assassínio indiscriminado, da violência sem dó e do exílio forçado. 

No curto período de quatro anos, até ao início da década de cinquenta, mais de 800 mil seres humanos nascidos e criados na Palestina, os herdeiros de uma civilização culta e guardiã de uma multifacetada tradição moldada pelos numerosos grupos étnicos, de diferenciadas origens, que ali se cruzaram, foram obrigados a deixar os seus lares, bens e terras.

O exílio foi penoso, degradante, arrasador. As populações palestinianas expulsas das suas casas, cidade, vilas e aldeias foram obrigadas, na maioria dos casos, a longas marchas em condições climatéricas terríveis, carregando os restos dos haveres que lhes foi possível salvar em veículos precários e às costas, submetendo-se à humilhação da soldadesca sionista. Vários relatos registados, até por soldados que participaram nas operações, revelam que houve casos, e não foram poucos, em que os esbirros roubaram os bens mais valiosos a numerosos exilados. Mulheres e homens conduziam as crianças pela mão e os adolescentes foram forçados a tornar-se adultos de um momento para o outro.

A expulsão foi de uma violência sem limites: casas assaltadas pelas tropas e depois derrubadas, espancamentos, e mesmo assassínios, executados com poder discricionário contra vítimas indefesas; concentração terrorista dos habitantes em templos e recintos cercados, antes de serem forçados a seguir caminho, sob a ameaça das armas.

Muitos dos expulsos, sobretudo mulheres e crianças, morreram durante a caminhada antes de chegarem aos destinos: campos de refugiados ainda em construção na Jordânia, na Síria, no Líbano e também na própria pátria, mas em lugares distantes das suas origens. Os campos de refugiados eram «temporários» mas, até hoje, não deixaram de crescer em número, habitantes, e áreas ocupadas. Espaços miseráveis, degradantes, humilhantes, que continuam a sê-lo, apesar dos esforços para lhes introduzir melhoramentos feitos pelos habitantes e por instituições internacionais, designadamente a agência da ONU para os refugiados palestinianos, a UNRWA. A qual, por esse motivo, é cada vez mais perseguida pelo governo e as tropas de Israel.

Só na primeira operação expansionista, as tropas coloniais sionistas arrasaram mais de 700 aldeias, vilas e cidades, cujos nomes e número de habitantes na época constam de documentos online da ONU, à disposição de todos os interessados.

Logo nessa primeira fase, a ocupação sionista de território excedeu, em elevada percentagem, a área que fora estabelecida, um ano antes, no «plano de partilha», uma das primeiras resoluções da ONU sobre a «questão israelo-palestiniana», como passou a denominar-se. Um irónico exercício de cinismo: tratar a «questão» como se fosse um diferendo entre duas entidades iguais em poder e apoios quando, em termos objectivos, se trata de uma típica ocupação colonial em que os intrusos despojam, expulsam e massacram gente indefesa e inocente. Intrusos esses que nada têm a ver com a região, a não ser a veneração de lugares santos, como acontece com as outras religiões monoteístas. 

Logo nessa primeira fase, as grandes potências e as instâncias internacionais, a começar pela ONU, revelaram debilidade perante as práticas expansionistas e agressivas de Israel, uma fraqueza, uma inércia feita de cumplicidade que viria a agravar-se, de maneira ininterrupta, com o decorrer dos tempos. Os poderes mundiais deveriam ter travado imediatamente a falta de respeito sionista pelo «plano de partilha», que dividia a Palestina de maneira a criar um Estado judaico e um Estado Árabe. Essa partilha já era, na origem, favorável a Israel. Mesmo assim, o território ocupado pelos sionistas foi imediatamente alargado com o processo de expansão, destruição e expulsão que prossegue ainda hoje.

Os territórios das mais de 700 localidades esvaziadas e arrasadas ficaram repletos de ruínas ou então transformaram-se em colonatos para quem chegava do estrangeiro, seguro de que tinha cobertura militar e sumárias facilidades administrativas para ali se instalar, sob a invocação do ilegal e aberrante conceito de «Terra Prometida». Isto é, uma mentira com bases delirantes, segundo a qual um deus designou «um povo eleito» e reservou um território supostamente desabitado para nele instalar imigrantes de outros continentes que, no máximo, têm em comum um vínculo religioso, nada mais.

Como a «Terra Prometida» não estava vazia, havia e há que esvaziá-la, para que se cumpra a determinação do tal deus e assim se torne realidade a falsidade fundadora do sionismo: «uma terra sem povo para um povo sem terra».

Esta congeminação absurda, que finta o Direito Internacional e aceitada como se nele estivesse integrada, é a origem do imbróglio geoestratégico que se agrava e se torna cada vez mais perigoso, a nível global, à medida que se afundam o capitalismo e o imperial-sionismo, seus progenitores.

A Nakba continua a existir

As organizações palestinianas designaram o drama do exílio e do extermínio decorrente da criação do Estado sionista como a Nakba – a catástrofe, a tragédia, na verdade um holocausto. Tendo em conta que a perseguição, o exílio e o extermínio do povo prosseguem hoje nos territórios palestinianos que Israel ainda não conseguiu ocupar na totalidade – Cisjordânia, Jerusalém Leste e Gaza – é legítimo dizer que a Nakba continua a ser um processo terrorista admitido, incentivado e comparticipado pelo chamado Ocidente colectivo.

Hoje, depois dos mais de 800 mil seres humanos desterrados na primeira fase, são bastante mais de 10 milhões os palestinianos forçados a viver no exílio. Palestinianos com direito à sua terra são não apenas os sobreviventes do primeiro suplício mas também todos quantos deles nasceram, para os quais a pátria roubada continua a ser a única referência. Nos lugares que lhes pertencem continuam a instalar-se pessoas que nada têm a ver com o território, simples intrusos que se apropriaram e apropriam de terras alheias. 

Na verdade, nem um deus pode promover «o regresso à Terra Prometida» a habitantes de outros países e continentes que nunca nela estiveram, nem os de hoje nem os seus antepassados. A «Terra Prometida» é um delírio colonial que as ficções religiosas sustentam como se fossem leis terrenas. Não pode «regressar-se» ao sítio onde nunca se viveu e em relação ao qual não existem quaisquer laços, além dos relacionados, de maneira abstracta, com a fé.

Os judeus no mundo não constituem um povo, da mesma maneira que os cristãos e os muçulmanos não o são. Os crentes de cada religião monoteísta estão unidos por uma fé que tem os principais símbolos históricos e sagrados no Médio Oriente, em grande parte na Palestina. Não existem «povo judeu», «povo cristão» ou «povo islâmico».

Manipular conceitos destes recorrendo a instrumentos terroristas e racistas ditados por preceitos esotéricos inscritos em livros religiosos com três mil anos de existência é, no mínimo, insano. Todo um planeta e a vida que nele existe está hoje refém desse colonialismo extemporâneo assente «ideologicamente» numa ficção invocada em modo psicopata.

O anti-semitismo invertido

Abba Eban, um histórico ministro dos Negócios de Israel dos anos 60 e 70, nos governos trabalhistas de Golda Meir, dizia o seguinte: «Uma das tarefas principais de qualquer diálogo com o mundo é provar que a distinção entre anti-semitismo e anti-sionismo não existe». 

Não há dúvida de que a tese se tornou verdadeira no sistema de propaganda ocidental, a partir do momento em que a própria definição de anti-semitismo admitida nos «países civilizados» foi definida por uma organização sionista europeia e faz coincidir as críticas ao sionismo e aos comportamentos do Estado de Israel com o próprio anti-semitismo. Repare-se nesta definição de anti-semitismo, estabelecida pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto e reconhecida como a mais comum: «O anti-semitismo é uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus. 

Manifestações retóricas e físicas de anti-semitismo são orientadas contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas.» Além de intelectualmente desonesta, a definição é racista, exclusivista e também se apropria abusivamente do conjunto das vítimas do nazismo hitleriano, cingindo-as, de maneira implícita, aos judeus.

O processo mistura alhos com bugalhos para sustentar as razões e a bondade do sionismo e justificar todos os comportamentos violentos de Israel como acções de combate ao anti-semitismo. Ao mesmo tempo, pretende colocar ao lado de Hitler, a referência máxima do anti-semitismo, toda e qualquer pessoa, entidade ou organização que discorde do sionismo, condene as guerras lançadas por Israel e o extermínio do povo palestiniano.

Moral da história: na verdade, e com toda a objectividade, criticar o terrorismo de Estado de Israel e o colonialismo sionista nada tem de anti-semitismo. Este é o contraponto necessário para pôr os pontos nos ii e desmantelar uma tese que insulta a maioria da população mundial.

Aliás, prosseguindo no terreno da objectividade, o sionismo é verdadeiramente anti-semita, e nem sequer respeita os seguidores da religião judaica, porque tem a ousadia de os colocar a todos, estejam onde estiveram, sob a cúpula do sionismo, tornando-os cúmplices das atrocidades cometidas por Israel. Em termos claros: é um abuso de confiança contra os seguidores de uma fé.

O sionismo é apenas uma facção do judaísmo e, por outro lado, extravasa esta religião a partir do momento em que nele se inserem os «cristãos sionistas». Aceitar que o sionismo integrou e representa a globalidade da religião judaica é um absurdo e uma distorção propagandística engendrada para justificar o terrorismo mais cruel.

Os judeus, e apenas os que têm ligação étnica, linguística e histórico-cultural ao Médio Oriente, são um povo semita, mas está longe de ser o único. Semitas são os árabes, do Magrebe ao Médio Oriente, os descendentes dos assírios, siríacos, fenícios e arameus, distribuídos pelo Iraque, a Síria e o Líbano, e alguns núcleos étnicos da Etiópia e da Eritreia, designadamente os tigres.

Por outro lado, os fiéis do judaísmo na Europa Central e de Leste e dos Estados Unidos não têm ligações com o Médio Oriente e o semitismo. As suas referências religiosas estão ligadas a essa região, mas isso acontece também com os cristãos e os islamitas, semitas ou não semitas. 

Do ponto de vista étnico e linguístico, a maioria dos judeus europeus do centro e leste do continente falavam yiddish, um dialecto alemão escrito com caracteres hebraicos, ou as línguas das comunidades onde estavam inseridos. O hebraico era usado na vida religiosa, tal como o latim foi a língua dos ritos católicos até aos anos sessenta do século passado. De maneira que os emigrantes da Europa e dos Estados Unidos para Israel, e cujos descendentes constituem hoje a maioria da população deste país, têm origem nos povos europeus onde existiram extensas conversões ao judaísmo por razões históricas e estratégicas diferenciadas. Não existe maneira, portanto, de o sionismo poder invocar a representação absoluta do judaísmo com o objectivo de pretender que toda a contestação daquela doutrina seja considerada anti-semita.

O sionismo, sim, é anti-semita. O sionismo persegue o povo palestiniano a pontos de pretender eliminá-lo, mantém uma guerra permanente contra o Líbano, ataca a Síria todos os dias, além de ocupar cada vez maiores áreas deste país. São conhecidos, da mesma maneira, numerosos actos de agressão contra o Iraque e, directa ou indirectamente, contra o Iémen. A perseguição, a violência e o assassínio contra povos e comunidades semitas é o dia-a-dia do sionismo.

Em resumo, nada existe de anti-semitismo ao criticar e condenar o sionismo e as práticas criminosas de Israel. Além disso, tendo em conta que a definição «oficial» de semitismo foi elaborada pelo sionismo, de acordo com a tese de Abba Eban atrás citada, não existe nada de anti-semitismo ao rejeitá-la: o «povo judeu», ou «povo eleito», meras ficções religiosas, não podem invocar a propriedade plena do semitismo.
Israel confessa, aliás, a sua qualidade colonial em relação ao Médio Oriente ao ligar-se à realidade social da Europa. Israel define-se, pelo comportamento prático, como uma entidade elitista e estranha ao Médio Oriente. Os episódios grotescos e de propaganda primária do genocídio que se arrastam todos os anos quando chega o festival da Eurovisão é um dos exemplos mais flagrantes da rejeição do estatuto asiático correspondente ao território onde o Estado sionista foi instalado.

O mesmo acontece com as competições desportivas das principais modalidades, futebol e basquetebol incluídos, nas quais Israel participa como «país europeu». O absurdo geográfico, compartilhado por magnas instituições desportivas como a FIFA e a UEFA, chega a ser caricato. A Palestina, nação cuja maior parte do território está ocupado por Israel, portanto um espaço geográfico «coincidente», participa nas competições asiáticas de todas as modalidades desportivas, designadamente o Campeonato do mundo de futebol, tal como a Jordânia, o Líbano, o Iraque e a Síria, países da vizinhança de Israel. O Estado sionista, porém, «pertence» à Europa em todas essa situações, do mesmo modo que os seus clubes de futebol estão abusivamente nas competições europeias; ao invés, clubes europeus, como os da Rússia, estão proibidos de nelas participar.

Israel, porém, tem razão. Não tem lugar no Médio Oriente, na Ásia nem, pode acrescentar-se, em qualquer região do mundo. Daí que, observando a tragédia histórica dos últimos 80 anos, o período anual de 14 e 15 de Maio seja negro para todo o mundo. Conclusão que, obviamente, nada tem de anti-semita.

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