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Da Nakba ao genocídio: a resistência de uma avó palestiniana em Gaza

Com 95 anos, Fatema Obaid sobreviveu à Nakba de 1948, passou fome, perdeu 70 familiares, mas recusou-se a abandonar a Cidade de Gaza quando a ocupação o decretou, no genocídio iniciado em 2023.

Fatema Obaid, com 95 anos, sobreviveu à Nakba de 1948 e ao genocídio em curso na Faixa de Gaza CréditosHani Abu Rezeq / MEE

Para Obaid, fugir novamente significaria o início de uma «Nakba ainda mais cruel» – que se recusou a reviver.

«Na primeira Nakba, é verdade que centenas de milhares perderam as suas terras, casas e aldeias», disse Obaid ao Middle East Eye (MEE).

«Mas nesta Nakba perdemos toda uma história», declarou, falando num apartamento inacabado na zona ocidental da Cidade de Gaza, onde vive deslocada com os netos.

«Perdemos famílias inteiras e gerações inteiras foram destruídas, com consequências que se estenderão por décadas. O que não conseguiram fazer em 1948 estão a conseguir fazer agora», lamentou.

Natural do Bairro de Shujaiya, na Cidade de Gaza, Obaid foi temporariamente deslocada durante a Nakba de 1948, quando milícias sionistas atacaram cidades e aldeias palestinianas em toda a Palestina histórica, expulsando à força centenas de milhares de palestinianos para abrir caminho à criação de Israel – refere a fonte, destacando a dimensão da limpeza étnica.

Obaid regressou a Shujaiya, zona que permaneceu fora do controlo israelita após o armistício de 1949, mas que se encontrava próxima da nova fronteira de facto entre Israel e a Faixa de Gaza.

Setenta e cinco anos depois, teve de enfrentar o trauma sofrido na adolescência – só que desta vez com uma brutalidade muito maior. «Não há comparação entre a primeira e a segunda Nakba», disse.

Uma nova Nakba

Tal como muitos outros palestinianos na Nakba de 1948, Obaid e a sua família foram forçados a fugir de sua casa durante vários meses, no meio da violência e do caos que varriam a Palestina.

Na mesma época, Gaza foi inundada por palestinianos expulsos à força de cidades e aldeias em regiões que mais tarde se tornaram parte do Estado de Israel.

As famílias chegavam praticamente sem nada, depois de escaparem aos assassinatos, bombardeamentos e ataques de milícias sionistas, acreditando que regressariam aos seus locais de origem poucos dias depois.

Em vez disso, Gaza tornou-se um local de refúgio permanente, sobrelotado com centenas de milhares de palestinianos que foram expulsos e desenraizados durante a Nakba. Hoje, cerca de 1,6 milhões de refugiados palestinianos e seus descendentes vivem no enclave, representando aproximadamente 73% da população de Gaza, recorda o MEE.

Desde Outubro de 2023, Obaid foi obrigada a deslocar-se mais de dez vezes, depois de a sua casa e o seu bairro terem sido reduzidos a entulho, tornando-se parte da zona de acesso proibido imposta pela ocupação.

«Vivi em Shujaiya desde que nasci. Mesmo depois de me casar com o meu primo, mudei-me para uma rua muito próxima», recordou, acrescentando que fugiram durante alguns meses em 1948, mas acabaram por regressar.

«Foi só durante esta Nakba que perdemos as nossas casas, o nosso bairro e toda a Faixa de Gaza Oriental», acrescentou.

«Bombardearam a nossa casa e mataram mais de 70 membros da minha família – os meus filhos, netos, sobrinhos, os seus filhos e muitos outros familiares», lamentou.

Na Nakba que teve lugar entre 1947 e 1949, as milícias sionistas e, posteriormente, as forças israelitas mataram entre 13 mil e 15 mil palestinianos, tendo forçado cerca de 750 mil pessoas a um exílio permanente – aproximadamente 75% da população palestiniana na altura.

No genocídio em curso na Faixa de Gaza, as forças israelitas mataram mais de 72 700 palestinianos em dois anos e meio, e forçaram quase dois milhões de habitantes a deslocar-se. Hoje – lembra o MEE –, cerca de 1,5 milhão de pessoas continuam sem casa, apesar do acordo de cessar-fogo, e a maioria vive em tendas improvisadas.

Ficar em Gaza e aguentar a fome

Em Outubro de 2023, Obaid foi obrigada a sair de sua casa e a ir para outra parte da Cidade de Gaza. Depois disso, a ocupação emitiu sucessivas ordens de expulsão em massa, decretando aos residentes que se deslocassem para sul.

Como centenas de milhares de palestinianos se recusaram inicialmente a obedecer a essas ordens, Israel impôs aquilo que as Nações Unidas consideraram «uma fome sistemática», que foi «usada como uma arma de guerra brutal» para expulsar os palestinianos.

Nos meses que se seguiram, a população foi privada de bens alimentares básicos, incluindo farinha de trigo, e teve dificuldade em encontrar água potável. A fome foi oficialmente declarada na Cidade de Gaza em Agosto de 2025 pela Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC), apoiada pela ONU.

Mesmo assim, Obaid recusou-se a abandonar a cidade. «Havia dias em que não conseguíamos encontrar nem um gole de água», disse, acrescentando: «Contávamos cada gole que bebíamos, mal conseguíamos encontrar comida e éramos obrigados a fugir de um lado para o outro a todo o momento.»

«Isso destruiu a minha saúde, mas eu não queria deixar a Cidade de Gaza. Não queria ser enterrada fora dela no fim da minha vida. Não queria reviver uma catástrofe que tivemos de aguentar há quase oito décadas», sublinhou.

Um par de brincos

Em sua casa, Obaid tinha guardado quase tudo o que era da sua infância e casamento, incluindo o seu vestido de noiva e as roupas e panelas que recebeu como presentes da família e dos sogros antes do casamento.

«Durante mais de 80 anos, guardei o meu longo vestido de noiva branco no armário. Também guardei os casacos e as roupas do meu marido, que faleceu há cerca de 20 anos», disse ao MEE.

«Tudo isso desapareceu, juntamente com todo o dinheiro que poupei ao longo da vida. E não só; também tudo o que conseguimos adquirir em cada lugar para onde fomos deslocados», prosseguiu.

«Cada vez que fugíamos, fugíamos apavorados. Não tínhamos tempo para juntar os nossos pertences. Não podíamos levar sequer uma garrafa de água. Escapei apenas com este vestido», declarou.

A única coisa que sobreviveu com Obaid foi um par de brincos que o pai lhe ofereceu quando era criança. «Guardei-os todos estes anos. Nunca os vendi ou substituí, porque um dia estiveram nas mãos do meu pai. Carregam a sua memória. Nunca os tiro, e é por isso que sobreviveram comigo», disse.

«São a única coisa que me resta de antes da Nakba. Sobreviveram a duas Nakbas, enquanto tantos membros da minha família foram mortos. Estes brincos ainda estão vivos», acrescentou.

Últimas testemunhas da Nakba de 1948

Fatema Obaid é uma das poucas testemunhas vivas da Nakba de 1948 em Gaza, tendo ainda sobrevivido ao genocídio em curso.

De acordo com o MEE, desde Outubro de 2023, pelo menos 4800 idosos palestinianos foram mortos nos bombardeamentos israelitas ao enclave, tendo muitos outros falecido devido à fome, a doenças e ao colapso do sistema de saúde, no meio do bloqueio imposto pela ocupação.

«Nesta idade, perdi os meus filhos e muitos membros da minha família, passei fome e sofri repetidas deslocações. Mas nada é mais doloroso do que ser arrancada da nossa própria terra e saber que, depois de todos estes anos, vamos morrer deslocados», disse.

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