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Bolsonaro: promover o ódio a cada minoria para que esqueçam o que as une

A condenação moral de Bolsonaro marcou o último fim-de-semana, mas a proximidade da primeira volta traz para destaque o seu projecto para um regresso aos anos 90: privatizar tudo e congelar salários.

CréditosMiguel Ângelo / CNI

O candidato às presidenciais preferido do patronato brasileiro – que já mereceu uma recomendação da agência de rating Fitch – vai estar ausente do debate desta noite, o último antes da primeira volta, agendada para o próximo domingo. Jair Bolsonaro tem liderado as sondagens desde que o Tribunal Superior Eleitoral retirou a Lula da Silva o direito de ser candidato, mas a tendência demonstra um forte crescimento da coligação O Brasil Feliz de Novo, com Fernando Haddad (PT) a assumir a candidatura a presidente e a comunista Manuela D’Ávila (PCdoB) a vice.

A equipa de Bolsonaro justificou a ausência com indicações médicas, devido ao episódio de violência em que esteve envolvido, um dos muitos que marcaram a campanha eleitoral brasileira. Mas, se o candidato não vai estar, a sua provável passagem à segunda volta com a dupla Haddad/Manuela não vai permitir que as suas propostas estejam ausentes do debate.

Programa económico encomendado em Chicago

Depois das manifestações massivas do #EleNão, a campanha do PT/PCdoB tem-se centrado nos registos que o ainda deputado federal deixou no Congresso desde que foi eleito pela primeira vez, em 1991. Em 27 anos, já foi filiado em nove partidos, mas apenas tem três projectos da sua autoria aprovados.

No plano económico, Jair Bolsonaro já revelou não ter ideias e tem procurado afastar as propostas da sua candidatura da discussão eleitoral. Para «superministro da Economia» tem já escolhido Paulo Guedes, um discípulo da escola de Chicago e da teoria de choque aplicada, entre outros, pelo regime fascista chileno de Pinochet. Guedes é um dos mais fervorosos partidários da privatização de todas as empresas públicas brasileiras e da redução da carga fiscal para os mais ricos.

Palavra de ordem: privatizar, tudo

O programa que Guedes traçou para Bolsonaro assume o objectivo de vender quase todas as empresas públicas, incluindo a gigante e estratégica Petrobras, assim como grande parte do sector da Educação. O primeiro grande programa de privatizações no Brasil foi iniciado com o governo de Collor de Mello e concretizado por Fernando Henrique Cardoso (FHC), com o Plano Real.

O governo de FHC foi marcado pelas maiores privatizações da história brasileira e, simultaneamente, pelo duplicação do peso da dívida pública. Uma das promessas de Paulo Guedes é que as privatizações que defende vão permitir abater na dívida pública brasileira.

Sem grande originalidade, propõe ainda o cheque-ensino e o ensino à distância como alternativa. Fernando Haddad, enquanto ministro da Educação de Lula e Dilma Rousseff (2005-2012), promoveu a abertura de 14 novas universidades federais e fez aumentar o investimento público no sector de 3,9% para 5,1% do PIB.

Salário: direito vs privilégio

Na mesa do futuro presidente do Brasil estará também o futuro do salário mínimo. A lei que obriga a aumentos anuais acima da inflação, aprovada em 2011 e renovada em 2015, tem a duração de quatro anos, o que significa que expira em 2019. Desde que a política de valorização salarial começou, em 2007, ainda durante os governos de Lula da Silva, o salário mínimo subiu para 954 reais (211,60 euros), enquanto com o mecanismo anterior estaria em cerca de 540 reais (119,77 euros), segundo cálculos publicado pelo Brasil de Fato.

O candidato a vice de Bolsonaro já veio a público criticar o 13.º mês. Perante uma plateia de de patrões do Rio Grande do Sul, o general Hamilton Mourão perguntou: «Se a gente arrecada 12, como pagamos 13? É complicado, [o Brasil] é o único lugar em que a pessoa entra em férias e ganha mais». A candidatura do PT/PCdoB defende, no seu programa, a continuidade da política de valorização do salário mínimo brasileiro.

Caso as sondagens se revelem certeiras, o candidato fascista Jair Bolsonaro será o mais votado no próximo domingo, seguido de Fernando Haddad. A segunda volta está agendada para 28 de Outubro.

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