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Com o teu amo não jogues as pêras…

A defesa de direitos e interesses pelos trabalhadores da Autoeuropa é estigmatizada pela voz do capital e dos seus servos. Um antigo aforismo popular serve de mote para devolver a discussão à prosaica realidade.

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Trabalhadores da Volkswagen Eslováquia reunem-se no exterior da fábrica, no primeiro dia de greve por melhores salários. Devinska Nová Ves, arredores de Bratislava, 20 de Junho de 2017.
Trabalhadores da Volkswagen Eslováquia reunem-se no exterior da fábrica, no primeiro dia de greve por melhores salários. Devinska Nová Ves, arredores de Bratislava, 20 de Junho de 2017. Créditos / New Europe

«Com o teu amo não jogues as pêras, porque ele come as maduras e deixa-te as verdes» é um aforismo popular do tempo dos amos e servos, dos senhores e criados… Que tem conhecidas versões no século XXI, «quem paga manda», ou o «bom aluno», e etc…

Expressões de uma cultura de subserviência, servil e rastejante, uma cultura de classe, que as classes dominantes procuram infiltrar até ao tutano nas classes dominadas!

Uma ilustração de «O Valente Soldado Chveik». Créditosda digitalização, Paul K./Flickr /

Para que estas classes sempre respondam como «o valente soldado Chveik»1: «declaro obedientemente a Vossa Excelência que tem toda a razão…», qualquer que seja a enormidade da «razão» aduzida por sua Excelência! Grande parte do charivari em torno da Autoeuropa, é uma clara manifestação dessa «cultura»! De quem não tem espinha, ou a tem tão gelatinosa como a lesma…

Botou sentença Markus Kemper, empresário e presidente da Câmara de Comércio Luso-Alemã: «Se outros investidores industriais internacionais em Portugal começarem a associar o país a problemas laborais e a falta de competitividade, poderemos ser rapidamente confrontados com deslocalizações ou investimentos noutros países» (Expresso, 27/01/2018)! Mas então só agora, com a luta na Autoeuropa, é que nasceram «problemas laborais» no País?

Até hoje, as «mais de 400 empresas alemãs em Portugal» que refere, nunca deram por lutas dos trabalhadores portugueses? Ridículo! «Falta de competitividade»? Só se for falta de salários idênticos aos dos trabalhadores alemães (mais de 2000 euros ganham os da VW de Wolfsburg!) com produtividades idênticas às dos trabalhadores portugueses? Tartufices de um capitalista alemão. Mas compreende-se, defende o capital alemão! O que não se compreende nem aceita, é a cultura de servidão, reverenciadora e obrigada, de tanta opinião, que pensa (???) que não pode haver «agitação laboral», «instabilidade laboral», falta de «paz social» e etc., senão os alemães vão-se embora, e é o fim do mundo!

Extraordinário! Aparentemente tudo gente que aceita a luta dos trabalhadores, os direitos dos trabalhadores, as organizações – comissões de trabalhadores (CTs) e sindicatos – dos trabalhadores…mas depois considera, que lutas, greves, e até mesmo as negociações, só nas empresas de capital português. Ou então nas de capital estrangeiro, mas tão pequeninas, tão pequeninas (aí uns 0,000000000% do PIB), que se podem ir embora sem causar danos!

Os argumentos são de arrepiar! Fiquemos pelas «deslocalizações» e o exemplo da Opel de Azambuja.

A deslocalização da Opel em 2006. Não é por repetir uma mentira muitas vezes que ela passa a verdade. Mas continua a correr a mentira. Por muitos outros e outras, a sorridente jornalista do Diário de Notícias (DN) Joana Petiz, «Sim, a Autoeuropa devia pôr os olhos na Azambuja» (DN, 18/01/2018) que, satisfeita, lá despacha o chorrilho, insistindo na mentira (ver desmentido de João Silva, sindicalista da Fiequimetal/CGTP, DN 24/01/2018).

Esquece que «os 17,5 milhões de euros de indemnização ao Estado (…)» foram fraca compensação para os 132 milhões que a General Motors (GM) devia pagar. Roubo com a cumplicidade do então governo PS/Sócrates. E, sem travões, invoca em sua defesa, naturalmente, o inefável Secretário-Geral da UGT («lembrem-se do que aconteceu na Azambuja»), assume o anticomunismo («à excepção do PCP (e por inerência da CGTP)»), faz a tentativa canhestra de divisão dos trabalhadores da Autoeuropa («mas sindicatos e um núcleo de trabalhadores – é injusto aqui tomar a parte pelo todo – batem sempre o pé.»), para culminar em glória afirmando que os trabalhadores da Autoeuropa «continuam a não ser capazes de eleger uma comissão de trabalhadores realmente representativa (…)»! Dá vontade de chorar… Porque é que a senhora jornalista não fez uma investigação a sério, sobre o que se passou na Opel e o que se passa na Autoeuropa?

A chantagem da deslocalização. Qual é a justificação dessa gente para as dezenas de deslocalizações acontecidas ao longo dos últimos 30 anos! Foi a agitação laboral que empurrou para fora do país, entre muitas outras, a Ford, a Quimonda, a Lear, a Johnson Control, a Texas Intrument, a Delphi da Guarda e Ponte de Sor, a Renault, a Indelma/Alcoa, a Euronadel, a Bombardier, e etc.? Foi? Poder-se-ia falar do simplismo ou mesmo bacoquismo do argumento, mas é bastante mais que isso. É a chantagem assumida, pura e dura. Já agora, expliquem, como é que apesar de todas as lutas dos trabalhadores portugueses, incluindo greves gerais, ao longo de quatro décadas, o capital estrangeiro, continuou a vir parquear/pastar no País? Veio fazer turismo?

É uma evidência que os grupos multinacionais como a VW e outros, deslocalizaram, deslocalizam e vão continuar a deslocalizar em busca da máxima taxa e máximo volume de lucros. Jogando com as posições geográficas das suas instalações fabris e logísticas, com os «leilões» dos Estados nacionais de apoios públicos (financeiros, benefícios fiscais e outros), com a existência de mão-de-obra barata e qualificada para a sua produção. Todos os motivos são bons para justificar uma deslocalização, desde que renda mais capital. Foi para isso que a «ordem neoliberal», de que a União Europeia é um exemplo, promoveu a liberalização da circulação de capitais e liberdade (não descriminação) de investimentos, com a garantia de que a ordem constitucional e jurídica dos Estados nacionais não prevalece contra os interesses do capital privado, a liberalização do comércio (OMC, TTIP, CETA, etc.) e a manutenção de paraísos fiscais e sociedades offshores.

Faça-se um registo. Muitos dos que invocam o risco de deslocalização da Autoeuropa, por causa da «agitação laboral», referem como possíveis novas localizações os países da Europa Central. Ora, a 26 de Junho do ano que passou, os 12.500 trabalhadores da unidade da VW na Eslováquia, após uma greve de 6 dias,

conseguiram 14,1% de aumento (em 2 anos) reestruturação da grelha de salários baixos, um prémio imediato de 500 euros e um dia feriado adicional. Diga-se, aquela luta foi como se nunca tivesse acontecido para a generalidade da comunicação social portuguesa, apesar das resmas de páginas consumidas com o Grupo VW e a sua unidade de Palmela. Os responsáveis da VW dirão: ninguém está bem onde está…

Uma coisa é certa: se amanhã o Grupo VW, para defesa dos interesses dos seus accionistas, resolver deslocalizar a empresa de Palmela – um ilustre e previdente historiador propõe que se comece «já a pensar o pós Autoeuropa na península de Setúbal» (Rui Tavares, Público, 31/01/2018) – tem a cama feita. Estará plenamente justificada a sua saída pela campanha de verdadeiro terrorismo mediático desenvolvida. O Estado português não terá sequer razões morais para exigir qualquer indemnização ao Grupo.

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