|António Bernardo Colaço

O trumpismo tem de ser combatido e derrotado

A política de Donald Trump, ao ameaçar o Irão e sugerir Cuba como próximo alvo de intervenção, torna-se objeto de análise quanto às suas práticas políticas, personalidade e reações.  

CréditosYuri Gripas / EPA

De há uns tempos para cá, Trump, simbolizando os EUA, materializa ameaças que se veem espalhadas pelo mundo, como os casos de Gronelândia e de Venezuela, os choques com os vizinhos – Canadá e México e de um modo geral, a toda uma gama de países, culminando com a invasão ou ameaçando países soberanos. O cidadão mundial vive assim numa permanente instabilidade emocional à medida desses acontecimentos.   

Por sua vez, a imprensa e os comentadores parecem estar mais empenhados no mero relato das intervenções belicistas e acompanhar os seus patrocinadores, sem ir ao fundo das questões, evitando uma aprofundada crítica a estes desmandos, marginalizando as verdadeiras razões que subjazem a estas práticas que põem o mundo de «pernas para o ar». 

Numa vertente diversa, Trump não se cansa de menosprezar instituições internacionais de prestígio como a ONU ou o TPI [Tribunal Penal Internacional], a OMS [Organização Mundial da Saúde], a UNESCO, o Acordo de Paris sobre o Clima entre outras, chegando mesmo a insultar a figura do Papa, a quem considera como «alinhado com a criminalidade». No plano interno do seu país, após ter incentivado a «tomada do Capitólio», desencadeou um procedimento assaz implicativo contra as universidades como Harvard, Princeton e Columbia, retirando-lhes subvenções por não se politizarem à sua maneira. Sob o lema de MAGA – tem vindo a rapinar paulatinamente riquezas alheias, como o petróleo de Venezuela ou as terras raras da Ucrânia, ou a projetada «Riviera de Gaza», estando já preparados os planos de reconstrução patrocinados pelo genro Jared Kushner. 

Há quem diga que Donald Trump é louco. Apesar dos serviços oficiais da presidência o darem como «apto», a verdade é que do lado Republicano reina a preocupação pelas suas atitudes erráticas. E… a verdade é que opiniões de especialistas em neurologia qualificam-no como sendo um «doente mental perigoso» (especialistas reunidos na Universidade de Yale); ou como sofrendo de «um transtorno de personalidade, que dando origem a um narcisismo psicológico, considerando-se como o melhor e acima de todos» (John Gartner antigo professor da Universidade de John Hopkins). Já se aventa mesmo quanto a aplicação da 25.ª Emenda da Constituição americana.

«No plano interno do seu país, após ter incentivado a "tomada do Capitólio", desencadeou um procedimento assaz implicativo contra as universidades como Harvard, Princeton e Columbia, retirando-lhes subvenções por não se politizarem à sua maneira.»

 

Talvez aqui resida a razão porque troça e insinua impropérios contra  Macron; chama uma jornalista de «porquinha», insulta os responsáveis da EU, sinalizando-os como propulsores de um «declínio civilizacional», qualifica os Democratas americanos de «lunáticos de esquerda radical»; renomeia o maior centro cultural de N. York Trump-Kennedy Center (anteriormente apenas Kennedy Centre); intitula o Golfo de Ormuz – Golfo Trump; apela ao  boicote de concertos de Bruce Springsteen e vocifera que irá reduzir Irão à Idade de Pedra. 

Estamos em pleno séc. XXI. De um modo generalizado, as Nações se têm organizado no sentido de desenvolvimento das suas mais variadas estruturas, com primazia à esfera económica, visando o progresso e o bem-estar das suas populações. São propósitos incompatíveis com a destruição de economias, de bens culturais ou de infraestruturas, de que depende a correspondente identidade nacional. Ora, este propósito, pressupõe o acatamento pelas regras do direito internacional e o respeito mútuo de soberania identitária. Pensar o contrário é um procedimento «anti-natura». Longe vai o tempo em que se defendia que o desentendimento entre povos se resolvia pela guerra; hoje não, dada a maioridade pensante do homem contemporâneo que sabe socorrer-se do diálogo na busca de soluções para os problemas da sociedade humana. Assumido o poderio económico/militar dos EUA, fica por apurar em que assenta e qual o alcance do lema MAGA lançado pelo Trump e que lhe deu a vitória eleitoral. Não é seguramente destruindo ou pilhando outros países.   

No entanto, por conveniência, por compadrio ou simplesmente por receio, a ação deste senhor tem vindo a beneficiar de reverente tolerância da grande maioria de políticos, amparando-lhe o seu quase permanente formato de soberba postura, de imposições unilaterais de menosprezo, de intervenções atentatórias do direito internacional, senão mesmo de ética que deve nortear as relações entre as Nações e os povos. Num certo sentido essa passividade corre o risco de se confundir com cumplicidade.     

«Longe vai o tempo em que se defendia que o desentendimento entre povos se resolvia pela guerra; hoje não, dada a maioridade pensante do homem contemporâneo que sabe socorrer-se do diálogo na busca de soluções para os problemas da sociedade humana.»

 

A corrente gerada por Donald Trump – o Trumpismo – tem dado origem a procedimentos musculados como a prática xenófoba e assassina da estrutura policial ICE ou o aproveitamento por países como Israel para incrementar conflitos genocidas – com a agravante de vir a potenciar ações futuras e consequente impunidade. 

Não devemos temer os megalómanos desde que não extrapolem os efeitos perniciosos das suas manias. Mas se tal não acontecer, há que afastá-los do convívio humano. Derrotar e pôr termo ao Trumpismo, pelo que se tem revelado, é a tarefa humanitária que de momento se impõe. Cabe aos países amantes da liberdade e da democracia, através dos seus representantes, manifestar por ações concretas, demarcando-se e contrariando esta corrente chauvinista, sem complacência, derrotando e neutralizando-a quanto aos seus efeitos. Só assim se poderá contribuir decisivamente para o retorno à política tão almejada de consenso e de paz entre os povos.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortografico de 1990 (AO90)

Tópico

Contribui para uma boa ideia

Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.

O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.

Contribui aqui